‘Molière’ – Teatro como nos velhos tempos

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Teatro Adolpho Bloch está exibindo uma produção teatral de altíssimo nível, à altura da sua história e tradição, que vem de uma estrondosa temporada em São Paulo (A peça foi vista por mais de dez mil pessoas.), sucesso absoluto de público e crítica. Falo de “MOLIÉRE”, um espetáculo daqueles que nos remetem ao bom “teatrão”, no melhor sentido da palavra, feito antigamente.

Primeira montagem, no Brasil, de um texto da renomada dramaturgaescritora e roteirista mexicana SABINA BERMAN, pouco conhecida por aqui, o espetáculo pode ser visto como uma superprodução, a se considerar o que, habitualmente, temos visto em cena, nos últimos tempos. Contando com um número considerável de atores em cena – quatorze – além de alguns músicos, o que é pouco frequente nos dias de hoje, a peça é dirigida pelo premiado diretor DIEGO FORTES e traz, no elenco, nomes dos mais respeitados no cenário teatral brasileiro, como MATHEUS NACHTERGAELE, ELCIO NOGUEIRA SEIXAS, NILTON BICUDO e um ícone dos palcos e da arte dramática, de uma forma geral: RENATO BORGHI.

 

SINOPSE

 

O ilustre dramaturgo MOLIÈRE (MATHEUS NACHTERGAELE)mestre da comédia, e o estreante autor épico JEAN RACINE (ELCIO NOGUEIRA SEIXAS), autor de tragédias clássicas, travam uma luta tragicômica, repleta de trapaças e reviravoltas, pelo domínio dos palcos da corte de LUÍS XIV, o “Rei Sol” (NILTON BICUDO).

O fanático ARCEBISPO PÉRÉFIXE (RENATO BORGHI), entusiasta da guerra, se aproveita do conflito entre os artistas, para banir, do reino, o próprio TEATRO (“O TEATRO é a raiz de todos os males”.), instaurando, no país, uma era de censura, violência e sacrifício.

Uma grande quantidade de personagens da aristocracia, da plebe, do clero, do exército, das tabernas e dos tablados desfila por palácios, igrejas, salas de espetáculo, bordéis e campos de batalha, cenários em que se passam as várias situações da peça.

Uma orquestra, com seu MAESTRO LULLY (FÁBIO CARDOSO), embala essa tumultuada França do século XVII, com o toque tropical das músicas do cancioneiro de Caetano Veloso.

O ilustre dramaturgo MOLIÈRE (MATHEUS NACHTERGAELE)mestre da comédia, e o estreante autor épico JEAN RACINE (ELCIO NOGUEIRA SEIXAS), autor de tragédias clássicas, travam uma luta tragicômica, repleta de trapaças e reviravoltas, pelo domínio dos palcos da corte de LUÍS XIV, o “Rei Sol” (NILTON BICUDO).

O fanático ARCEBISPO PÉRÉFIXE (RENATO BORGHI), entusiasta da guerra, se aproveita do conflito entre os artistas, para banir, do reino, o próprio TEATRO (“O TEATRO é a raiz de todos os males”.), instaurando, no país, uma era de censura, violência e sacrifício.

Uma grande quantidade de personagens da aristocracia, da plebe, do clero, do exército, das tabernas e dos tablados desfila por palácios, igrejas, salas de espetáculo, bordéis e campos de batalha, cenários em que se passam as várias situações da peça.

Uma orquestra, com seu MAESTRO LULLY (FÁBIO CARDOSO), embala essa tumultuada França do século XVII, com o toque tropical das músicas do cancioneiro de Caetano Veloso.


Considero a montagem uma OBRA-PRIMA, um trabalho de inestimável bom gostointeligência e criatividade, do texto à sua execução, ainda que não seja de fácil compreensão, para o público leigo, exigindo bastante concentração deste e um conhecimento básico sobre os personagens e o TEATRO, de uma forma geral, além de um conhecimento do contexto histórico em que se passa a trama. Não chega a ser, exatamente, uma condição “sine qua non”, para que se compreenda o enredo, entretanto, sem um embasamento específico, muita coisa interessante passa despercebida pelos espectadores. Mesmo assim, trata-se de um espetáculo de grande apelo popular, que agrada a todos, quer pelo texto, quer pelo brilhantismo das interpretações, quer pelo aspecto visual, em que se destacam cenáriofigurinos e iluminação, sem falar no bom gosto da excelente trilha sonora, com canções do repertório de Caetano Veloso, todas de sua autoria, à exceção do belíssimo bolero “Dans Mon Ile”, composto pelo guianense francês Henri Salvador.

Da primeira à última cena, o público se diverte bastante com a hilariante disputa, uma verdadeira contenda cultural, entre a COMÉDIA, representada por Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como MOLIÈRE (Paris, 15 de janeiro de 1622 – Paris, 17 de fevereiro de 1673)dramaturgo francês, além de ator eencenador, considerado um dos mestres da comédia satírica e “pai da comédia moderna”, autor de mais de trinta textos, com grandes sucessos, encenados até hoje, no mundo inteiro, e Jean Baptiste RACINE (La Ferté-Milon, Aisne, 22 de dezembro de 1639 – Paris, 21 de abril de 1699)poeta trágicodramaturgo,matemático e historiador francês, considerado um dos maiores dramaturgos clássicos da França, autor de grandes tragédias, como a emblemática “Fedra”.

A principal característica das obras de MOLIÈRE é o seu insistente e marcante desejo de criticar os costumes da épocaMOLIÈRE e RACINE só tinham em comum, além do fato de serem dramaturgos, os dois primeiros nomes, Jean Baptiste. Ambos liam o TEATRO em cartilhas diferentes, diametralmente opostas, para não perder o “pleonasmo hiperbólico”.

Como consta no “release” da peça, enviado por LEANDRO GOMES (MNIEMEYER – ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO), (a peça) Inspirada no próprio teatro de MOLIÈRE, que fundia vários estilos em uma mesma obra (Commedia Dell’Arte; influências renascentistas e barrocas; humor satírico), a encenação busca integrar linguagens diversas em uma intensa dinâmica cênica.  ‘A fusão de linguagens de MOLIÈRE e a autenticidade de suas criações nos possibilitaram misturar cores e texturas com extrema liberdade, procurando, sempre, uma encenação em que regras pudessem ser quebradas, diz o diretor DIEGO FORTES’”.

elenco, que inclui atores e músicos/atores, se incumbe de “narrar o inusitado conflito entre formas opostas de pensar o mundo, expressas pelas famosas máscaras do TEATRO: uma ri, malandramente, de tudo e de todos; a outra mostra reverência e temor, diante da dor e da morte. O embate épico entre essas duas faces da vida tem, como cenário, a corte carnavalesca de LUÍS XIV, o ‘Rei Sol’, na França do século XVII”.

Ambos, MOLIÈRE e RACINE, disputavam o favoritismo real, o patrocínio do Rei, sendo que MOLIÈRE já era um consagrado dramaturgo, quando RACINE ainda se apresentava como seu discípulo. Os dois autores desejavam a mesma coisa: manter a posição de dramaturgo mais prestigiado da corte.

Tirando proveito do embate protagonizado pelos dois, o Arcebispo de Paris, um grade entusiasta da guerra, MONSENHOR PÉRÉFIXE (RENATO BORGHI), aproveita-se da situação para “banir, do reino, o TEATRO e seus artistas, endurecer a censura e lançar a França em uma era de conquistas, violência e sacrifício”. Esse personagem é muito significativo, na trama, uma vez que, por ele, são feitas críticas totalmente pertinentes ao momento presente, no Brasil, quando o assunto é cultura. Dentre os questionamentos e posições de PÉRÉFIXE, notamos uma discussão sobre a validade do que seria mais indicado, para o público: fazer rir ou chorar. Implicitamente, estariam em jogo a política do “pão e circo” ou do “fazer pensar”. Qual delas interessa mais ao governo? Além disso, questiona-se se cabe aos artistas mostrar a realidade do mundo, como ele, realmente, é, ou como deveria ser, ou esperava-se que fosse; ou como seria o mundo ideal. Cabe espaço para uma reflexão acerca do direito das “autoridades” de proibir obras de arte e perseguir seus criadores e “até que ponto aqueles que criam devem submeter-se à vontade daqueles que pagam”.

peça se apresenta, como consta na ficha técnica, sob a forma de uma comédia musical, não sendo, contudo, um musical, uma vez que as letras das canções, escolhidas a dedo, por GILSON FUKUSHIMA, formando uma deliciosa trilha sonora, baseadas no repertório de Caetano Veloso, como já dito, não fazem parte do texto, ou seja, não ajudam a contar a história, limitando-se a ilustrá-la.

Fazia tempo, não via, reunido num palco, um elenco tão numeroso, “iluminado” e de tão alto nível técnico, como o desta peça. Dos protagonistas aos que representam personagens de menor importância no enredo, todos brilham e têm seus momentos de merecimento de um foco mais intenso.

Falar de MATHEUS NACHTERGAELE, em qualquer trabalho de que participe, será sempre redundante. MATHEUS, desde o início de sua carreira, mostra-se como um dos melhores atores brasileiros de todos os tempos. Aqui, mais uma vez, ele demonstra seu potencial artístico, compondo um MOLIÈRE bem ousado, atrevido, deliberada e deliciosamente exagerado nas tintas, debochado, “superior”, despudorado, burlesco, meio “clown”, utilizando seu corpo e sua voz para construir a estrutura física e emocional de seu riquíssimo personagem, daqueles que ficam, para sempre, na memória afetiva dos bons espectadores.

Para fazer o contraponto com MOLIÈRE, ninguém melhor indicado, para viver RACINE, que ELCIO NOGUEIRA SEIXAS, o qual, além de um grande ator, é, também, dramaturgodiretor e roteirista, não muito conhecido dos cariocas, por suas poucas passagens pelos nossos palcos, infelizmente, porém dono de uma grande bagagem em seu currículo. Seu RACINE se apresenta com um tom de ousadia, mordacidade, sarcasmo e desafio, querendo encarar, de igual, aquele que ele sabia ser mais “poderoso”. O ator também abusa de seus instrumentos naturais, corporais, para fazer malabarismos com seu personagem. E olha que, num “duelo” com MATHEUS, “o guerreiro tem de ser bom de briga”.

NILTO BICUDO está excelente, como o hilário, caricato e provocador LUÍS XIV, o “Rei Sol”, arrancando muitas gargalhadas do público, com suas artimanhas e empoderamento real, com toques, por vezes, chaplinianos (Será que só eu vi isso?), explorando o “timing” da comédia, “comme il faul” (menos por pedantismo, da minha parte, e mais para ficar no clima da corte francesa). Aliás, quanto a esse aspecto, o mesmo elogio deve se estender a MATHEUSELCIO e BORGHI.

RENATO BORGHI!!! O que é esse homem em cena, meu Deus?! Como é gratificante e emocionante vê-lo atuando, aos 81 anos de idade, com 60 de profissão, uma carreira pontuada por grandes sucessos, um verdadeiro totem humano, mais que um ícone. E ele o faz como se estivesse se iniciando na carreira, com muita garra e perfeição técnica, numa entrega total ao seu personagemBORGHI interpreta, com maestria, um religioso vil, intrigante, um déspota, praticamente, tirando partido do poder da Igreja e de sua influência sobre o “Rei Sol”, cujo brilho, perto do Arcebispo, ia, somente, até a página cinco; este acabava sendo ofuscado por sua submissão a PÉRÉFIXE.

Gosto sempre de repetir que não há atores coadjuvanteshá personagens coadjuvantes. Todos os demais do elenco, ainda que em papéis menores, contribuem, com seu talento, para a grandeza do espetáculo, com um destaque especial para GEORGETTE FADEL, como o gozadíssimo GONZAGO, irmão de RACINE, roubando a cena, vez por outra, e RAFAEL CAMARGO, como um ótimo LA FONTAINE.

O texto é brilhante. Não o conheço no original, mas louvo a sua tradução, feita, a quatro mãos, por ELCIO e BORGHI, aquele responsável, também, pela adaptação, junto com LUCI COLLIN. Creio, porém, que, ainda que não sintamos o tempo passar (120 minutos), sem intervalo, o que acho ótimo, o texto poderia ser um pouco condensado, o que não quer dizer que seja entediante; muito pelo contrário, graças ao humor inteligente e refinado. Sua autoraSABINA BERMAN, é uma dramaturga, além de atuar em outras áreas, muito respeitada em seu país, México, e reconhecida como das melhores de sua geração e da atualidade (Ela nasceu em 1955.). Muitos de seus textos já foram montados em países europeus, da América Latina, nos Estados Unidos e no Canadá, o que significa o reconhecimento do trabalho de uma autora de peso, o que já lhe rendeu algumas premiações.

Já ouvi, sobre este “MOLIÈRE”, aqui, no Rio, opiniões negativas e positivas, estas em maiores proporções e nas quais insiro a minha, sem pestanejar. Dos que desaprovam a montagem, muitos criticam, negativamente, a direção, com o que não concordo de forma alguma. Não consigo ver este texto montado de outra forma;mais solene, talvez. Penso que o diretor, DIEGO FORTESacertou em cheio, quando optou por um espetáculo moderno, dentro de uma estética tropicalistaanárquica,instigantesubversiva, com cores quentes do nosso verão, muito distante do cinzento inverno europeu (Caprichei nas metáforas!)DIEGO usou e abusou de tudo o que de melhor está presente no movimento tropicalista, mormente o deboche e a irreverência, chegando bem perto de Zé Celso, dos tempos de “O Rei da Vela” até os dias atuais, ou, pelo menos, nos fazendo lembrar o docemente criativo, ousado e irreverente  (E viva o Teatro Oficina!!! E viva O Teatro Oficina Uzina Uzona!!!).

Em todas as cenas, o trabalho da direção merece aplausos, entretanto uma me marcou bastante, que apenas citarei, para não roubar, aos que ainda irão assistir à peça, o prazer de vê-la, que é a da destruição do Teatro de MOLIÈREMagnífica solução do diretor!!!

É impecável o cenário, assinado por ANDRÉ CORTEZ, que brinca com a metalinguagem do TEATRO dentro do TEATRO, de modo a permitir que o público se divida entre ver o que se passa no centro do palco, o que podem ser diferentes locações, como reproduz o Teatro de MOLIÈRE, tanto no seu palco como na sua plateia, onde se acomoda o quarteto principal da trama, como espectadores. Achei brilhante essa ideia, que, obviamente, já deve estar no texto, bem como a resolução do diretor, em comunhão com o trabalho do cenógrafo.

A irreverência é a tônica dos fantásticos e exuberantes figurinos, criados por KARLLA GIROTTO, a qual se vale de uma ampla mistura de tudo, desde elementos concernentes à época em que se passa a história até peças e adereços que mais lembram fantasias de escolas de samba de hoje, tudo numa “salada cultural”, apoiada numa paleta de todas as cores e brilhos, resultando numa grande brincadeira séria. Um verdadeiro primor!!!

BETO GRUEL e NADJA NAIRA seguem a proposta da direção e se integram na brincadeira, com uma luz alegre, bem variada, pondo em destaque tudo o que se encontra no espaço cênico, na hora certa e na proporção devida.

Já que o tropicalismo está em cena, nada melhor que uma trilha sonora caetaneana (Ou seria caetanesca?), selecionada, a dedo, por GILSON FUKUSHIMA, responsável pela correta direção musical. A trilha é toda executada ao vivo, por uma banda, que ocupa a lateral esquerda do palco.

“MOLIÈRE” é, antes de tudo, uma peça política, na qual as instituições, como a Igreja e o Governo, não são poupadas e as críticas a elas feitas se aplicam, perfeitamente, aos dias de hoje, o que faz dela uma peça atual. Atualíssima. Divertida. Uma OBRA-PRIMA, que recomendo e gostaria de encontrar tempo para rever.

Sem a menor dúvida, é um dos melhores espetáculos, dos que vêm ocupando os palcos cariocas, neste ano de 2018, até o momento, e um dos melhores a que já assisti nos últimos anos.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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