‘Minha Vida em Marte’ – Foi para lá que ela foi… e se deu bem mal. Ou não?

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Se há um comentário que me irrita, quando o assunto é TEATRO, é o de que “comédia é uma arte menor”. Isso é pura prova de ignorância e preconceito, ambos no mesmo campo semântico.

Infelizmente, até em determinados “prêmios de TEATRO”, verifica-se uma certa “má vontade”, em reconhecer o talento de artistas e técnicos, mais daqueles que destes, envolvidos em grandes projetos de TEATRO, que sejam comédias. Isso é uma lástima, mas existe, sim; acreditem! E tanto é verdade, que até Fábio Porchat, em boa hora, teve a feliz ideia de criar um prêmio destinado, única e exclusivamente, à comédia.

Em primeiro lugar, todos sabemos – e, aqui, terei de repetir o óbvio – que é mais difícil fazer rir que chorar. Se for monólogo, então, a responsabilidade do(a) ator/atriz mais que dobra. É preciso muito talento, para encarar, solitariamente, de um palco, um público de cerca de 400 pessoas, que superlota (lotação esgotada, desde a estreia) o teatro e ser aplaudida, em cena aberta, várias vezes, e ovacionada, ao final, no caso aqui analisado.

Estou falando de “MINHA VIDA EM MARTE”, COMÉDIA (com todas as maiúsculas) que está em cartaz no Teatro dos Quatro. E a atriz em questão é a bela e talentosa MÔNICA MARTELLI, que, além de interpretar o monólogo, foi quem o escreveu.

Acho – ou quase tenho certeza disso – que MÔNICA não tinha noção do potencial de seu talento, como redatora e atriz, quando resolveu encenar, há 12 anos, um espetáculo nos mesmos moldes que este, “Os Homens São De Marte… E É Pra Lá Que Eu Vou”, que fez uma grandiosa carreira, de anos, com sucesso absoluto de público e de crítica, chegando a levar cerca de 2,5 milhões de espectadores, ao Teatro Vannucci e a tantos outros, por onde viajou, Brasil a fora. Foram, ao todo, 40 cidades, em 20 estados, com uma esticada a Portugal.

Naquela peça, ela se lamentava por não conseguir, a despeito de tanta procura, encontrar um homem que a completasse, que fosse a “metade da sua laranja”, já um pouco madura demais. Aqui, encontramos uma espécie de continuação da saga de FERNANDA, a protagonista, que passa a relatar as aventuras e desventuras de um casamento.

Em 2005, quando lançou o monólogo anterior, MÔNICA MARTELLI  tinha 36 anos e não poderia prever o sucesso que a peça, protagonizada e escrita por ela, alcançaria. Nem, tampouco, esperava a reviravolta que FERNANDA, a personagem que criou, para falar de amor e discutir o empoderamento feminino, muito antes de a expressão cair no gosto popular, faria em sua trajetória pessoal.

O sucesso foi tão retumbante, que virou filme e série de TV, sempre com elogiável aceitação.

Doze anos depois, aos 48 anos, MÔNICA está de volta, com sua nova obra, “MINHA VIDA EM MARTE”, e FERNANDA, agora com 45 anos, vê-se à procura de respostas para a sobrevivência conjugal. MÔNICA fala, de cadeira, sobre o assunto explorado na peça, por conhecer de perto, na própria carne, as situações de sua personagem, o que agrega bastante credibilidade a seu texto.

Trata-se de um espetáculo muito bem-humorado, apoiado num texto extremamente bem escrito, que, explorando, inteligentemente, o riso, leva, facilmente, todos, homens e mulheres, a várias reflexões. Cada um se vê espelhado na personagem viva, em cena, ou no marido, que só é citado, insistente e devidamente.

MÔNICA mergulha fundo no universo feminino, o que não é fácil nem para uma mulher, e aborda as idiossincrasias da personagem, sem poder evitar alguns lugares-comuns, é claro, porém sem as mesmices que estamos acostumados a ver, sem ser repetitiva nem vulgar.

Sobre o ótimo texto, nada a acrescentar, a não ser o fato de que MÔNICA escreve para que todos, de qualquer nível cultural, ouçam e compreendam o que ela põe na boca da personagem, e que isso possa conduzir os espectadores, após o riso, a boas reflexões.

SUSANA GARCIA, irmã de MÔNICA, que assina a direção, faz um bom trabalho, muito correto, com a difícil tarefa de conduzir uma só pessoa em cena, com a preocupação de manter a coerência da personagem, durante toda a peça, como também criar boas marcações, que nem de longe possam gerar monotonia, trabalho reforçado pela contribuição, sempre brilhante, de MÁRCIA RUBIN, na direção de movimento.

O cenário, de FLÁVIO GRAFF, é bastante interessante, porém de pouca funcionalidade, para a peça. Já que toda a ação se passa num consultório de uma terapeuta, o único elemento de cena que serve à encenação é um banco, localizado no centro do palco. Ao fundo, embora sem muita razão de existir, um quarto numa perspectiva vista de cima, com alguns objetos aplicados, tudo muito “clean”. Esteticamente, muito bonito, sem dúvida; na prática, pouco, ou nada, a dizer. Mas isso não compromete o trabalho. Talvez eu é que não tenha captado a intenção do artista.

Como aconteceu no monólogo anterior, o figurino, novamente saído da criatividade de MARCELA VIRZZI, é um elemento de grande destaque. MARCELA cria umas inovações muito interessantes nas trocas de roupa, em cena, aproveitando peças, ao avesso, em expansões ou reduções, transformando-as em outras, tudo acompanhando e emoldurando os diversos momentos da personagem. Um belíssimo trabalho!

MANECO QUINDERÉ também está presente, na ótima ficha técnica, dando a sua boa contribuição na luz, sem grandes mudanças na iluminação, de cena para cena, além das necessárias.

Um detalhe que cai muito bem, na peça, é a excelente trilha sonora, a quatro mãos, de LUCAS MARCIER e FABIANO KRIEGER.

Falar de MÔNICA MARTELLI não requer muitas palavras. É uma atriz que, por seu belo porte físico, já tem uma grande presença em cena. É uma ótima atriz, que atua com muita naturalidade, e com um “up”: uma grande atriz cômica, com um excelente e particular tempo de comédia, indispensável, na difícil arte de fazer rir. Suas entonações e seus silêncios, sempre nos momentos exatos, seus súbitos cortes no texto são sempre motivo para que a plateia gargalhe. Claro que tudo isso é valorizado, quando apoiado num ótimo texto. MÔNICA é dona de um carisma muito forte e sabe como estabelecer a comunicação com uma plateia.

Não tenho a menor dúvida, a julgar pelo que vi, por todos os comentários que tenho ouvido sobre a peça e, também, pelo borderô diário, de que “MINHA VIDA EM MARTE” cumprirá a mesma trajetória do espetáculo anterior; quiçá, por mais tempo. E é o que desejo, pela excelente qualidade do trabalho que se vê no palco do Teatro dos Quatro.

Pretendo rever a peça, sem a menor dúvida, mais vezes.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE