‘Minha’ – Uma comovente declaração de amor a alguém ausente

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Gosto, realmente, não se discute. Sobre um determinado espetáculo, é possível que se ouçam alguns comentários não muito favoráveis com relação a ele. Isso é muito natural. Às vezes, a pessoa não se identifica com o espetáculo, por um ou outro motivo, principalmente quando a peça é vista na estreia. Com o tempo, os necessários ajustes vão sendo feitos, tudo vai se azeitando, com o objetivo de aparar arestas e melhorar a montagem. Sempre, até o que é ótimo pode ser melhorado.

Na véspera de assistir à peça aqui analisada, tal fato se deu comigo (duas pessoas demonstraram não ter gostado dela). Isso, confesso, criou uma expectativa “não muito favorável”, no que concerne ao agendado espetáculo, porém não me fez desistir de cumprir um compromisso e, acima de tudo, fazer valer a minha vontade. Eu queria, mesmo, assistir à peça. Falavam, juntos, o meu desejo pessoal, a minha função decrítico de TEATRO e a minha condição de jurado de um Prêmio de Teatro (Botequim Cultural).

Na maioria das vezes, isso funciona como um mecanismo, até, de “desafio” e encorajamento, para mim. Quando me dizem que “não vale muito a pena assistir”, fico com mais vontade de ratificar ou retificar o que ouvi. Não assisto aos espetáculos ou deixo de fazê-lo por influência de comentários de terceiros – assim todos deveriam se comportar –, mas confesso que prefiro ir ao Teatro com uma baixa expectativa, pois,caso ela não seja ratificada, minha alegria se torna maior.

Foi, exatamente, o que ocorreu, quando fui ao Teatro Dulcina, para ver “MINHA”, que, desde sua estreia, vem agradando ao público que a procura.

Segundo o “release”, enviado por LU NABUCO (ASSESSORIA EM COMUNICAÇÃO)“a peça convida o público a reflexões sobre temas do cotidiano humano, como solidão, inadequação social, preconceitos, casamento e a iminência da morte. O texto, profundo e arrebatador, trata de assuntos que, muitas vezes, não são falados, não são discutidos e não são expurgados. Mas, também, e sobretudo, a importância do companheirismo e do amor”.

 

SINOPSE

 

Um homem, HENRIQUE (OSVAN COSTA), casado, pai de dois filhos, funcionário público, divide seu tempo entre o trabalho, a casa e compromissos sociais com as visitas diárias à sua esposa, que se encontra em estado de coma num leito de hospital, devido a uma cirurgia mal sucedida.

Numa dessas visitas, esse marido revela-se, como, talvez, nunca houvesse feito.

Apresenta-se, assim, sem máscaras e sem qualquer disfarce social, que até ali havia conduzido a sua vida, travando um “diálogo” com essa mulher em coma, amor de sua vida, que, no entanto, no estado em que se encontra não ouve, não fala, não vê e não sente.


texto, de WILSON SAYÃO, ainda que escrito no final da década de 1990, é inédito e atemporal. Toda a ação se desenrola num quarto de hospital e conta com algumas inserções musicais totalmente pertinentes e de uma grande beleza.

Gosto de coisas simples, descomplicadas, que toquem o coração logo de saída, que provoquem sentimentos, quaisquer que sejam eles. No caso deste monólogo, tudo isso acontece. Uma profusão de emoções mexe com o espectador, chegando a provocar-lhe uma enorme comiseração pelo personagem HENRIQUE, um sentimento de piedade pela dor alheia, que ninguém consegue aliviar; menos, ainda, fazer com que desapareça.

Um homem sozinho, já que, segundo ele, os filhos parecem não se importar muito com o estado clínico da mãe; ou, talvez, já tenham se acostumado com aquela ida sem volta, e continuam a tocar suas próprias vidas, estas, sim, ainda “vivas”, com muito, ainda, a viver. Um homem com sua solidão, sua dor e sua desesperança.

texto é muito bem construído, de fácil assimilação pelo mais simples dos espectadores e remete a fatos da época, como a morte da Princesa Diana, em 31 de agosto de 1997, e da Madre Teresa de Calcutá, em 5 de setembro do mesmo ano, menos de uma semana depois, traçando um paralelo entre o aspecto humanístico das duas.

Por ser um monólogo, o espetáculo é sempre um desafio maior, a meu ver, para quem o dirige, uma vez que, para cair no enfadonho, não custa muito. FÁTIMA LEITE leva o mérito de trabalhar corretamente o potencial do atorOSVAN COSTA, criando ótimas marcações e pausas necessárias ao aprofundamento de cada ação, gerando um ritmo adequado ao momento. O trabalho de direção ganhou um suporte, com a supervisão de um mestre: AMIR HADDAD.

OSVAN, cujo trabalho eu não conhecia, salvo engano, e me agradou bastante, interpreta, da forma mais correta e natural possível, o papel de um homem que, a partir de um percalço, um imprevisto na vida, sente a sua própria escapando pelo ralo, enquanto a mulher ainda resiste ao suspiro final. Sua impotência diante do imponderável fica bem estampada e marcada no trabalho do ator, que se doa ao personagem e nos convence de seus sentimentos por aquele corpo inerte.

Por se tratar de um espetáculo bastante intimista, com a plateia distribuída no palco do Teatro Dulcina (80 pessoas apenas), os elementos técnicos deveriam se ajustar à proposta, como ocorre, representados pela bela e aconchegante iluminação, de AURÉLIO DE SIMONI, e a fria, no bom sentido, como convinha mesmo, cenografia, de FERNANDO MELLO DA COSTA, contando, somente, com uma cama de hospital, coberta por um dossel, que pende de uma altura elevada, provocando um belo efeito plástico e estético, e duas cadeiras, colocadas uma em cada lado da cabeceira.

LILIAM BUTINI assina um figurino adequado ao personagem: um terno, “uniforme” de um funcionário público. Um detalhe interessante é que HENRIQUE não carrega uma maleta, uma pasta, que poderia completar o figurino, ainda que um acessório, mas, sim, uma mala, de onde retira objetos que usa em cena e que prefiro não revelar, para manter a surpresa aos que ainda irão assistir à peça. É uma “mala” pesada, que ele carrega e de onde extrai memórias, simbolizadas por aqueles objetos.

TONI RODRIGUES é o responsável pela coreografia. Sim, não se trata de um musical, mas, em duas cenas, o personagem dança e vale a pena guardar essa surpresa.

A mulher, em estado de coma, fica deitada, na cama hospitalar, durante toda a peça, imóvel, evidentemente, e é com ela que o protagonista “conversa”. A diretora poderia ter optado por outra solução, artificial, porém achou por bem colocar em cena uma atriz, CYNTHIA C., o que confere mais realidade à ação. Trata-se, no fundo, de uma segunda personagem, sem voz, mas com vez, apesar de sua condição vegetativa, de morta-viva.

Na ficha técnica, consta uma rubrica que, nesta montagem, merece bastante atenção: Consultoria, Pesquisa e Colaboração Musical: ALESSANDRO PERSAN. Isso está ligado às belíssimas canções executadas durante a peçaALESSANDROlevava, para os ensaios, o produto de uma garimpagem e o próprio autor e a diretoraforam responsáveis pela seleção de seis delas, as quais pontuam, brilhantemente, algumas cenas: “A Grande Ausente”, de Francis Hime e Paulo César Pinheiro, na voz do inesquecível compositor e cantor Taiguara“Dio Come Ti Amo”, de Domenico Modugno“Minha”, de Francis Hime e Ruy Guerra, que dá titulo ao espetáculo;“Mia” (uma versão, para o italiano, de “Minha”); “Toque dos Degregados – Cantiga de Pedinte” (autoria não apurada); e a belíssima “Melodia Sentimental”, de Heitor Villa Lobos Dora Vasconcelos.

Pincei, do texto, algumas frases e pensamentos que julgo interessantes e muito apropriados a reflexões:

“O AMOR É TRISTE, POIS ADIVINHA QUE VAI ACABAR UM DIA.”

“O AMOR É A PESSOA DE QUEM VOCÊ SE LEMBRA, QUANDO LHE É PERGUNTADO O QUE É O AMOR.”

“MERECE A FORCA QUEM DEIXA QUALQUER PESSOA SOZINHA NUM DOMINGO.”

“AMAR É SENTIR QUE NUNCA SE É E NEM NUNCA SE FAZ NINGUÉM FELIZ O BASTANTE.”


“MINHA” é uma bela e comovente peça, que mexe muito com o espectador sensível e atento à dor alheia. É só deixar a empatia fluir e aplaudir bastante no final.

Recomendo o espetáculo!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

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Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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