Mesmo com linguagem confusa, ‘Ana Fumaça Maria Memória’ cria lindas imagens

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Oi Futuro do Flamengo e dirigida por Marcela Andrade, “Ana Fumaça Maria Memória” aborda a noção sensível da perda, em diferentes esferas, dentre as quais a perda de memória e a morte. Mesmo com um acúmulo de códigos que por vezes dificulta o acompanhamento, a peça consegue percorrer a sua ideia central e deixa imagens bonitas para o espectador.

O texto de Marcela Andrade narra um pouco da vida de Maria e sua tentativa de recuperar a memória de sua avó. Graças a seu avô, ela entende a memória como um grande trem, que a partir de certo momento não coube mais na cabeça de sua avó, com muitos vagões tendo escapado pela orelha. Achei linda e muito lúdica essa analogia.

A cenografia de Elsa Romero ambienta uma casa humilde que, a partir da metade da peça, mais ou menos, se expande como uma porta de correr, simulando uma transformação no trem da memória e seus vagões. Solução espetacular, que traduz com perfeição a imagem criada pelo texto.

Os figurinos de Arlete Rua compõem algo entre o mundo real e o fantástico, o que me parece fundamental, dado que, de fato, esses mundos intercalam-se, sobretudo a partir da metade da peça.

Os atores esbanjam carisma e carregam a peça com sensibilidade e delicadeza características do que me pareceu ser a estética da montagem, mais dedicada à expressão de sensações. Destaque merece ser dado a Marina Hodecker, que consegue construir uma avó plena de sentido através apenas da partitura corporal, e Gé Lisboa, que consegue ir além do papel de “melhor amigo”, confidente e/ou consorte, e elabora uma curiosidade e personalidade próprias, independentes da protagonista.

Mesmo com a qualidade de seus elementos, “Ana Fumaça Maria Memória” parece perder-se na própria profusão criativa e desejo de criar uma linguagem calcada em emoções. Muitas passagens ficam confusas, ou pouco claras, entre elas uma que julgo potencialmente expressiva: a(s) passagem(s) do mundo real para o mundo da fantasia, os vagões da memória. A montagem, à exceção do cenário, não marca essa virada, e o que poderia expandir o enredo transcorre quase que indistintamente, do ponto de vista poético. As partituras corporais também destilam originalidade, em um sem número de movimentos que colorem a narrativa mas não operam conjuntamente, seja na criação de uma imagem deste mundo, seja no ato específico de contar a jornada de Ana.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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