Mesmo com atuações e duração comprometedoras, direção de Gabriel Vilela faz ‘Boca de Ouro’ valer a pena

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Nelson Rodrigues é sempre um “peso” para se montar. A especificidade da realidade que retrata, a violência de seus enredos, seu humor característico, são aspectos que requerem não apenas grande entendimento de seus textos, mas também, e sobretudo, a inteligência cênica para conseguir traduzi-los para o palco. No caso de “Boca de Ouro”, em cartaz no SESC Ginástico, há ainda outro fator, que tenho certeza que deixa muitos fãs de teatro inquietos para conferir a montagem: a direção de Gabriel Vilela, também de digital fortíssima. E, mesmo diante do encontro de dois estilos tão marcantes, o resultado não é a diluição de ambos, mas seu realce, que chega a ofuscar problemas como as atuações e a duração do espetáculo, que alcança quase 2h.

O cenário tem, como fundo fixo, mesas com abajures que permanecem na penumbra, instaurando instantaneamente e constantemente durante o espetáculo o clima de um cabaret. Alguns atores assistem e interagem com as cenas dali, o que passa ainda mais a ambientação de um “inferninho”.

Os figurinos, como normalmente em se tratando de Gabriel Vilela, esbanjam cores e acessórios, e o que deveria ser talvez o maior ponto de choque com a digital rodriguiana, na verdade não incomoda nem um pouco, pelo contrário.

O elenco se perde, de modo geral, no exagero. Em uma fala ralentada e gritada, todos parecem querer enfatizar o que o universo de Nelson Rodrigues, por si só, já deixa em alto relevo. As exceções são Lavínia Pannuzio, que, em um registro menos escrachado, explora nuances muito interessantes, e Chico Carvalho, que leva o exagero às últimas consequências, conseguindo dar sentido à proposta.

Para além do deslumbre visual que é Gabriel Vilela, a escolha das músicas e sua execução ao vivo, a cargo do piano de Jonatan Harold e da voz de Mariana Elisabetsky, merecem uma menção a parte. São uma injeção de doçura e condução dramática em um palco tomado pelo apoteótico (no bom e no mau sentido).

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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