‘Merlin e Arthur’ traz leitura profética e sombria do mito inglês

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

“Merlin e Arthur: um Sonho de Liberdade”, em cartaz no Teatro Riachuelo e embalada por músicas de Raul Seixas, imprime clima sombrio às lendas celtas associadas à origem do povo inglês. Em alguma medida, se assemelha ao filme “Excalibur” (1981), de John Boorman, talvez a obra cinematográfica mais célebre na tradução cênica do livro de Thomas Malory (“Le Morte d’Arthur”, 1485), por sua vez um dos mais populares da literatura arturiana.

A estória, de tom absolutamente épico, é narrada por Merlin, aqui personagem feminino (vivido por Vera Holtz) que se faz presente apenas por meio de projeções. Presente e passado intercalam-se, “Arthurs” jovem e maduro conversam. Tudo se constrói como fora do tempo e do espaço, e existe um senso de importância, de peso, a tudo o que acontece.

O cenário elabora uma grande estrutura no centro do palco, que se assemelha a uma enorme pedra e permite uma variação de planos fundamental para a estética do espetáculo. Assim como os figurinos e as projeções, também o espaço é escuro, algo entre o negro e o cinza.

Os figurinos e a caracterização são os elementos de maior digital, mesclando aspectos urbanos contemporâneos (sobretudo os penteados) com adereços que remetem a trajes medievais, como armaduras de metal.

Os atores mergulham na noção de um mundo épico, onde cada palavra proferida é de extrema importância. À exceção de Kacau Gomes e Patrick Armstalden, que vivem os antagonistas, todas as cenas tem um tom semelhante, sem quebras de ritmo ou intensidade.

Essa foi a impressão geral que tive, na verdade. A gravidade toma conta de tudo, instalando um clima que não abriga nuances. Nem a relação de Arthur e Lancelot, por exemplo, que nasce em uma brincadeira de luta, consegue ser leve. E sem leveza para se opor ao peso presente em todos os elementos – a começar pela escuridão geral e culminando num Merlin que se assemelha ao Deus onipresente cristão – o mundo fica sem relevo…. Mesmo a música de Raul Seixas entra nesse bolo, com novos arranjos que lhe conferem densidade em detrimento da ironia tão característica.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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