‘Memórias do Esquecimento’ – O que era para ser esquecido, mas não pode nem deve ser

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Eu queria muito assistir à peça. Queria muito, mesmo, embora soubesse que sofreria demais e que não conseguiria impedir que filmes em preto e branco, alguns com imagens distorcidas, me viessem à mente, invadindo e fustigando a minha memória, a memória do que eu também gostaria de esquecer, mas não consigo. Ninguém, que viveu no tempo da ditadura militar, no Brasil, iniciada com um golpe, em 1º de abril de 1964, é capaz de apagar, para sempre, o que viveu, sentiu ou, “simplesmente”, testemunhou, durante aqueles negros anos de chumbo, “página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações…” – Chico Buarque de Holanda). E, assim mesmo, eu fui, porque sabia que iria assistir a um espetáculo de altíssimo nível, como pude comprovar, logo nos primeiros minutos de longos 90, cronológicos, que é a duração do monólogo, que mais parecem, do ponto de vista do tempo psicológico, os 21 anos de duração daquela maldita ditadura.

Eu tinha quase 15 anos, quando o golpe militar derramou litros de sangue sobre o livro da História do Brasil. Era, porém, muito maduro, politizado e engajado nas causas sociais, o que me fazia diferente dos adolescentes da minha época. Só andava com gente um pouco mais velha e, embora nunca tivesse militado, na linha de frente, sempre estive ao lado de pessoas que vi morrer, depois de serem torturadas; gente que vi desaparecer, como num truque de mágica; homens e mulheres, de todas as idades, que sobreviveram à barbárie, a tudo, mas guardam sequelas das torturas, no corpo e na alma.

Acompanhei, de perto, os passos do meu pai, que, também, graças a Deus, não foi preso nem sofreu tortura física, mas psicológica a nossa família conheceu um pouco. Como o personagem da peça, ajudei meu pai a incinerar, numa cova, escavada no nosso quintal, livros “subversivos”, sempre com medo de que uma “visitinha” dos “gorilões” pudesse acabar com a nossa família.

Num dia de passeata, contra a ditadura, em plena avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, para fugir dos milicos e seus cavalos, corri para dentro da Galeria dos Empregados do Comércio, com dezenas e dezenas de pessoas, e fiquei encurralado, porque os “caçadores de comunistas” também entraram, pelos dois lados, e ficamos cercados, aguardando as agressões físicas, as prisões e sei lá mais o quê. Eu e mais algumas pessoas fomos salvos por um homem, que nos jogou num elevador, levando-nos para o seu escritório, num dos andares daquele prédio. Até hoje, não sei o seu nome, mas, não fosse aquela atitude, talvez, eu não estivesse aqui, escrevendo esta crítica. Meu amigo Carlinhos, de 17 ou 18 anos, não teve a mesma sorte. Ficamos dias à sua procura, até que seus pais, por intercessão de um militar (NÃO MILICO), oficial do Corpo de Bombeiros, amigo da família, conseguiu localizá-lo, duas semanas depois, num quartel da Vila Militar, totalmente sem memória e profundamente debilitado e depressivo. Viveu mais uns dois anos, ou melhor, “vegetou”, tempo suficiente para sabermos que também se tornara impotente e estéril, pelos chutes que levou na região genital.

Na véspera da “Passeata dos Cem Mil”, após a sessão de “Cordélia Brasil”peça de Antônio Bivar, encenada no antigo Teatro Mesbla, com Norma Benguel como protagonista, livrei-me de ser preso, aos 18 ou 19 anos, pois fui o único, na primeira fila, a me levantar e aplaudir, de pé (Outros também aplaudiram, mas sentados.), o discurso da atriz, ao término da sessão, no qual ela destilava todo o seu repúdio ao autoritarismo dos milicos e conclamava o público a participar da referida passeata, no dia seguinte. Quando Norma, que não me conhecia, notou, de pé, ao fundo do Teatro, meia dúzia de “homens estranhos”, de terno, me levou para o seu camarim e só saímos de lá quase duas horas depois, por uma saída “secreta”, depois de um contrarregra ter-se certificado de que aquelas pessoas suspeitas haviam ido embora, e ela me embarcou num táxi, no qual fui, até a minha casa, sempre olhando para trás, receando uma perseguição.

É isso que muitos dizem ser invenção. MAS NÃO FOI!!! Para gente como eu, “MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO” tem um sabor especial, mais amargo, mais ácido, um algo a mais do que para os espectadores em geral.

Enquanto assistia à peça aqui analisada, sofrendo dores físicas, em função de uma recém-cirurgia de fêmur (fazia três semanas), vez por outra, conseguia desviar o meu olhar, que não piscava, de BRUCE GOMLEVSKY, o qual quase nos hipnotiza e nos atrai, como um ímã, e via, nas demais pessoas da plateia, talvez, alguém que, de certa forma, conheceu aquele horror, relatado, detalhadamente, pelo ator, em trabalho brilhante e inesquecível. As expressões faciais do público demonstram o quanto a peça nos toca, o quanto ela nos incomoda, no sentido de provocar uma dor, uma comiseração, por gente que nem chegamos a conhecer pessoalmente, para a maioria naquela plateia.

TEATRO tem inúmeras funções e uma delas é a de educar, pela informação e pelo exemplo. TEATRO nos remete, via de regra, à ficção, a uma história inventada por alguém, com o objetivo de divertir ou emocionar, mas tudo “de mentirinha”É TEATRO; não é verdade. Mas ali, no Teatro Poeirinha (VER SERVIÇO.) era de verdade; ou melhor, era uma verdade ficcional, porque o tempo era outro, a vítima era outra, mas TUDO ACONTECEU DE VERDADENÃO É BASEADO EM FATOS REAISERAM OS FATOS REAIS, CONTADOS POR SEU PROTAGONISTANÃO É FICÇÃO, INVENÇÃO. Muito pelo contrário, embora quiséssemos que fosse. Seria bom se um autor genial tivesse tanta imaginação, para inventar tudo o que sai da boca do ator BRUCE GOMLEVSKY, na pele do jornalista FLÁVIO TAVARES, sobre cuja biografia vale a pena destacar alguns fatos importantes (Material extraído, com adaptações e cortes, da Wikipédia.).

FLÁVIO TAVARES, nascido em 1934, estando, portanto com 84 anos de idade, é um ex-militante da esquerda partidária da luta armada, um dos presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado, no Rio de Janeiro, em 4 de setembro de 1969, por integrantes das organizações clandestinas Dissidência Comunista da Guanabara e da Acão Libertadora NacionalFLÁVIO formou-se em Direito, mas nunca atuou como advogado, trabalhando, desde cedo, na área de jornalismo, chegando a ser comentarista político do jornal “Última Hora”, de Samuel Wainer, quando cobriu eventos importantes pelo jornal, como a Conferência da Organização dos Estados Americanos, em Punta del LesteUruguai, em 1961, onde e quando conheceu Ernesto Che Guevara, que era o delegado de CubaTAVARES foi preso, pela primeira vez, logo após o golpe militar de 1964, mas foi solto um pouco depois. Não demorou, porém, para que FLÁVIO passasse a conspirar contra a ditadura, na luta armada. Entre 1967 e 1969, foi, novamente, preso, acusado de participar de uma ação armada, para libertar presos políticos, na Penitenciária Lemos de Brito, no Rio de Janeiro. Em setembro de 1969, foi enviado para o exílio, no México, no grupo de prisioneiros trocados pelo embaixador Elbrick. Nos anos 1970, durante o exílio, trabalhou no jornal mexicano “Excelsior”, pertencente a uma cooperativa de trabalhadores. Como correspondente do “Excelsior”, a partir de 1974, foi viver em Buenos Aires, onde também escrevia para o jornal “O Estado de São Paulo”, assinando sob o pseudônimo de Júlio Delgado. Sua permanência na Argentina terminou em 1977, quando foi ao Uruguai, a fim de contratar um advogado para outro jornalista do “Excelsior”, que fora preso lá. Em julho daquele anoFLÁVIO foi sequestrado, por militares dos órgãos de repressão dos uruguaios, passando 195 dias preso. Foi libertado, graças à solidariedade do “Excelsior” e do “Estadão”. O jornal brasileiro mobilizou toda a imprensa, para denunciar a prisão ilegal de FLÁVIO. Sob pressão de uma campanha internacional, o governo do Brasil pediu sua libertação às autoridades uruguaias. O problema era que o jornalista não podia voltar a seu país nem possuía passaporte, uma vez que fora banido do Brasil em 1969. O impasse foi resolvido, em janeiro de 1978, com a sua expulsão do Uruguai e a oferta de asilo, feita pelo governo de Portugal, que havia passado, recentemente, pela Revolução dos Cravos. Assim, FLÁVIO TAVARES foi morar em Lisboa e só voltou ao Brasil com a anistia de 1979. Atualmente, o jornalista vive e trabalha em Búzios. É professor aposentado da Universidade de Brasília e articulista dominical do jornal “Zero Hora”. Autor de alguns livros de sucesso, seu trabalho mais famoso é o que dá título a este monólogo, pelo qual ganhou o Prêmio Jabuti 2000, na categoria “Reportagem”.

Tudo isso, e muito mais, está presente no excelente texto da peça.

“O QUE SERÁ?” (“À FLOR A PELE”.)

(CHICO BUARQUE DE HOLANDA e MILTON NASCIMENTO)

(…)

SERÁ, QUE SERÁ?

O QUE NÃO TEM CERTEZA NEM NUNCA TERÁ,

O QUE NÃO TEM CONSERTO NEM NUNCA TERÁ,

O QUE NÃO TEM TAMANHO.

(…)

SERÁ, QUE SERÁ?

O QUE NÃO TEM DECÊNCIA NEM NUNCA TERÁ,

O QUE NÃO TEM CENSURA NEM NUNCA TERÁ,

O QUE NÃO FAZ SENTIDO.

(…)

O QUE NÃO TEM GOVERNO NEM NUNCA TERÁ,

O QUE NÃO TEM VERGONHA NEM NUNCA TERÁ,

O QUE NÃO TEM JUÍZO.


 

SINOPSE

 

espetáculo, que comemora os 25 anos de carreira de BRUCE GOMLEVSKY, conta, em primeira pessoa, a história do jornalista FLÁVIO TAVARES, cujo livro homônimo foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura no ano de 2000.

O livro é um relato, descarnado e cru, sobre a prisão e a tortura, após o golpe militar de 1964, no Brasil.

TAVARES foi preso três vezes, entre 1964 e 1969. Passou por sessões de tortura e foi um dos presos trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick, sequestrado em 1969, episódio que, em 2019, completa exatos 50 anos de ocorrido.

Seu livro foi escrito muito tempo depois de suas experiências traumáticas, num intenso trabalho de memória, em que faz uma reflexão sobre a tortura, o exílio e a sua segunda experiência extrema, fora do país. Reflete, entre outras coisas, sobre os limites existentes para contar aquilo por que passou. Uma voz, ainda que trêmula, tentando esboçar possibilidades para o futuro, a partir de um presente massacrado pelo passado.


Nesta crítica, ao contrário do que sempre faço, não vou entrar em detalhes sobre os elementos técnicos, até porque o meu envolvimento emocional com a peça foi tão grande, que nada mais me interessava ou me chamava atenção do que o texto e o trabalho do ator. Assim mesmo, em poucas palavras, posso externar a minha impressão sobre o que vi.

texto e a interpretação magnífica de BRUCE têm de ser analisados juntos. FLÁVIO vai contando, cronologicamente, a sua “via crucis”, com muita verdade, detalhe por detalhe, e o ator, traz, para a flor de sua pele, toda a sua emoção interior e se torna a voz do autor. Não o vejo nem como um personagem, interpretando, mas como alguém conversando com um seleto e afortunado grupo de 50 pessoas, ávidas por tomar conhecimento daqueles fatos e prontas a serem solidárias com seu sofrimento. Não há quem não se comova extremamente, alguns chegando às lágrimas, com o brilhante texto, muito bem adaptado por BRUCE e DANIELA PEREIRA DE CARVALHO, e o primoroso trabalho do ator.

Mas é TEATRO, não é mesmo? E por que não falar dos elementos técnicos da montagem? Sem, absolutamente, desfazer de nenhum deles, eu diria que não fariam falta neste espetáculo. Entendam, por favor, o que estou querendo dizer. A cenografia, assinada por BRUCE, se resume a uma cadeira, poucas vezes utilizada. O figurino é um discreto terno escuro, meio preto, meio cinza, cores simbólicas, mas que poderia nem existir, Nu ou vestido, a plateia só iria prestar atenção ao texto e à interpretação. A direção, também de BRUCE, optou por uma postura predominantemente de um ator parado, olhando, fixo, nos olhos do público e pondo para fora suas “memórias do esquecimento”. Poucos são os seus deslocamentos pelo palco, o que, curiosamente, não entedia o público. Ninguém está interessado em marcações e deslocamentos. A todos, só interessam os relatos e seus desdobramentos.

Merece um destaque, esta sim, a iluminação, sob a criatividade de RUSSINHO, que trabalha com pouca luz, como se quisesse trazer à cena os porões claustrofóbicos da ditadura, com vários focos direcionados ao ator, que vão se alternando ou se multiplicando, em intensidades diferentes, seguindo o curso da narrativa. Esse é um detalhe plástico que não pode deixar de ser observado e elogiado.

Para encerrar, aproprio-me de um trecho do “release” da peça, enviado por JSPONTES COMUNICAÇÃO – JOÃO PONTES e STELLA STEPHANY“O espetáculo chega, para a plateia, de forma seca, crua, colocando em pauta até que ponto a memória fragmentada de alguém, igualmente fragmentado pela violência, consegue dar contorno a essa experiência nos seus relatos. Esse gênero de literatura trabalha numa tênue fronteira, quase imperceptível, entre história e memória, entre o ‘real’ e a ficção, entre a denúncia e uma espécie de necessidade pessoal de escrever. “MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO” não expõe a ferida apenas do ponto de vista particular; ela faz parte de uma memória coletiva, que habita na história brasileira, porque, até hoje, apresenta resquícios sociais, que nos atingem direta ou indiretamente. O espetáculo busca o pensamento crítico, a reflexão sobre a história contemporânea do país, quando a democracia, lema base para a vida em sociedade, não se fazia presente. É importante relembrar isso, nos dias de hoje, em que vivemos numa sociedade polarizada, com discursos de ódio e intolerância, para que não se repitam os erros do passado”.

No mais, nada a acrescentar, a não ser dizer que este espetáculoum dos melhores deste ano, no Rio de Janeiro, deveria ser levado às escolas, aos clubes, aos templos religiosos, às praças públicas… Deveria ir até onde o povo está, para que um maior número possível de pessoas, principalmente, os das gerações mais novas, pudesse ter uma ideia do que, realmente, nos fez, e faz, até hoje, doer o período da ditadura militar no BrasilQUE NÃO QUEREMOS NUNCA MAIS VIVER, ainda que estejamos, infelizmente, numa quase iminência de um novo golpe nas instituições democráticas deste país.

“Pergunto-me o que me angustiou mais: ter vivido o que eu vivi ou ter rememorado, aqui, tudo o que eu quis esquecer?

Do que contei, tentei não tirar conclusões e preferi que a narrativa concluísse por si mesma, nessas histórias que não inventei e que foram tão-só refeitas, cosidas no tempo e no espaço, numa fiação paciente e dolorosa.”

(FLÁVIO TAVARES, “MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO”)

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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