‘Memória d’Alma’ – Uma peça que toca, profundamente, qualquer ser humano. Mas é preciso ser humano

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Há quase três semanas (7 de maio de 2018), vivi uma experiência que, há bastante tempo, não sentia no TEATRO. Poucas vezes, uma peça mexeu tanto comigo e com os demais espectadores, como “MEMÓRIA D’ALMA”, à qual assisti, no Teatro Candido Mendes, em sessão para convidados.

É mais um daqueles casos em que o efeito que o espetáculo provoca em mim, com o “fechar do pano”, supera, em muito, a expectativa que me levou a assistir a ele. Como não tinha recebido, ainda, o “release” da peça, posteriormente chegado às minhas mãos, via GUILHERME SCARPA, um dos seus diretores, ao lado de CAMILO PELLEGRINI, e não havia lido nada sobre a montagem, fui, completamente, “no escuro”, sem saber o que encontraria. Nem a temática eu conhecia. Uma total surpresa para mim, o que, muito raramente, me ocorre.

 

SINOPSE

 

Baseada em histórias reais, a peça “MEMÓRIA D’ALMA” expõe um acerto de contas entre uma mulher, vivida por JULIANA TEIXEIRA, e seu filho mais velho, personagem de NIAZE NETO.

Numa minúscula e rudimentar cela de cadeia, de uma pequena cidade interiorana, eles passam suas histórias a limpo e relembram episódios marcantes de assédio, crueldade, omissão e o abuso que o menino sofreu, por parte do pai, o qual ele assassinou, na idade adulta, motivo de sua prisão.


Recomendo muito que assistam ao espetáculo, mas que estejam preparados para ver e ouvir coisas muito duras, acusações e agressões mútuas, cobranças, tudo girando em torno de um eixo temático, que, só por se saber possível de acontecer, nos causa um misto de revolta e medo; impotência, também, e comiseração. E o pior é que, como diz a sinopse, o enredo é baseado em fatos reais e, infelizmente, tão atual. É só nos reportarmos às recentes denúncias contra um ex-técnico da seleção de atletismo do Brasil, acusado de molestar dezenas de crianças e adolescentes, o que vinha fazendo, segundo as acusações, há cerca de duas décadas.

Nada mais cruel, perverso, doloroso e inadmissível do que a pedofilia, principalmente se ela, que já é uma extrema violência, física e psicológica, vem acompanhada de outros crimes, como assassinatos.

A trama se dá num lugarejo do interior do nordeste brasileiro, mas, guardadas as devidas proporções, pode estar muito mais próxima de nós, nos grandes centros urbanos, do que possamos imaginar. A cada dia, tomamos conhecimento de violência sexual contra os indefesos menores, muitas vezes iniciadas no próprio lar (“Lar”?), como ocorre nesta peça.

Para tornar esta crítica mais interessante e informar o leitor da triste e verdadeira realidade brasileira, fiz uma breve pesquisa e encontrei, na edição “on line”, de 22 de abril de 2017, do “Diário de Pernambuco”, assinada pela jornalista Aline Moura, dados estatísticos de estarrecer. Sobre eles, faço um resumo.

Pernambuco detém o terceiro lugar, dentre os estados nordestinos, nas estatísticas de 2016, com relação aos casos de violência sexual contra menores, sendo antecedido, no horroroso “ranking”, por Bahia e Rio Grande do Norte, respectivamente, os primeiro e segundo lugares.

Pesa, também, saber que muitos casos são omitidos pelos menores, por medo ou vergonha, e pelas próprias famílias, dentro das quais estão 90% dos covardes agressores ou amigos e conhecidos delas. Acrescente-se o fato de que “o abuso é a violência sexual mais denunciada contra meninos e meninas”.

Vamos aos números! Se compararmos os dados de 2011, que apontavam 82.139 denúncias de violência contra crianças e adolescentes, com os números em 201676.171, notamos uma redução de 7,26%, o que, até, poderia ser comemorado, por força da atuação das autoridades que se propõem a combater esse tipo de crime e punir os criminosos. No fundo, porém, não é para ser aplaudido, porque o ideal seria que as estatísticas apontassem 0% desses casos.

De acordo com os números oficiais, publicados em 2016São Paulo é o estado que registra o maior número de casos (16.193), seguido do Rio de Janeiro (8.486), a metade.

Caminhando junto com o abuso sexual, vêm a nefasta exploração sexual e a ultrajante pornografia infantil, dois outros cânceres, a destruir e consumir a infância brasileira.

O número de casos que envolvem meninos (47.181) chega próximo ao de meninas (53.344).

texto da peça é inédito e foi escrito por um jovem dramaturgo, chamado FABIANO BARROS, recifense, atualmente morando em Porto Velho, É fortíssimo, tenso e denso, à exaustão, reproduzindo, num linguajar regionalista, próprio dos dois personagens, um diálogo duro, que fere, na alma, como a dor física e interior, experimentada pelo FILHO (RAPAZ) e por sua MÃE (MULHER). Os personagens são anônimos, representando uma certa “universalidade”. As suas identidades civis pouco importam; eles podem estar até na poltrona ao lado da nossa. A curva dramática, por vezes, parece estar meio desajustada, mas é só impressão. Talvez possa ser, inclusive, algo intencional, por parte do autor, para manter a atenção do espectador. Não faltam surpresas, uma após a outra. Quando pensamos que o ser humano tenha chegado ao limite da maldade e da perversão, o autor nos surpreende com fatos e falas mais chocantes, perturbadores.

Extraído do “release” da peça“Acima de tudo, o texto mostra um drama familiar muito potente. Com isso, faz uma denúncia sobre um assunto que não pode mais ser silenciado, varrido para debaixo do tapete. É uma história que revela a hipocrisia, a doença, e crimes que acontecem diariamente, não só em regiões inóspitas do país, como em grandes capitais”, diz o diretor GUILHERME SCARPA.

hipocrisia permeia toda a trama, uma vez que o grande “monstro” da história, o vilão, o pai, era considerado um exemplo de cidadão e chefe de família, pelos vizinhos, a ponto de sua morte brutal ter provocado uma grande comoção e revolta entre todos, os quais queriam fazer justiça com as próprias mãos. Geralmente, esse tipo de “gente” passa uma imagem falsa, não correspondente à sua real personalidade. Muitas vezes, até, chegam a desempenhar, na sociedade em que vivem, uma falsa condição de pessoas muito religiosas.

MÃE também é uma fanática religiosa, mas deseja todo o mal do mundo ao FILHO, até a morte, da forma mais cruel possível, para que ele purgasse a alma de todos os crimes que lhe eram atribuídos. Também, como é comum acontecer, quase sempre, ela sabia das barbaridades cometidas pelo marido e acabava por se tornar uma espécie de sua cúmplice, por acomodação e medo.

direção da peça, boa, por sinal, é compartilhada: GUILHERME SCARPA e CAMILO PELLEGRINI, ambos simplificando tudo e permitindo que a dupla de atorespudesse extravasar seus sentimentos, dando vida a dois seres miseráveis, cheios de imperfeições, mas, no fundo, dignos de nossa piedade, por mais cruéis que se mostrem, principalmente o FILHO, uma vítima, no fundo.

interpretação, muito além de visceral e impactante, é de JULIANA TEIXEIRA (MÃE) NIAZE NETO (FILHO).

JULIANA é uma grande atriz, cujo carreira acompanho faz tempo. Uma mulher muito bonita, que, no palco, neste palco, se deixa transformar numa criatura feia, sofrida, desgastada, física e emocionalmente, pelas agruras da vida.

Não conhecia o trabalho de NIAZE e já me confesso seu fã. A menos que a memória me traia, creio nunca, antes, ter visto um trabalho do ator. É emocionante a maneira como ele se entrega ao personagem, o que, da mesma forma, também ocorre com JULIANA.

Há uma cumplicidade tão grande entre os dois, em cena, e um esbanjar de talento, que toca cada espectador profundamente.

Para dar apoio ao trabalho dos atores, merece crédito o simples, porém suficiente, cenário, de VANESSA ALVES, que conta apenas com uma parede de bambus, ao fundo, ao estilo pau a pique, um leito tosco e pobre, um catre, constituído de um estrado de madeira, sobre o qual há uma esteira bem rudimentar, e um pequeno tronco, que serve de banco, de assento. Tudo sobre uma espécie de lona de caminhão, cobrindo o piso.

Bem ajustado aos personagens é o figurino, de CAROLINA MONTE e IVÃ RIBEIRO (REVERSE), bem tosco.

iluminação, criada por MAURÍCIO CARDOSO, não apresenta nenhum detalhe que mereça destaque, mas está dentro das exigências do ambiente e das ações, algumas destacadas, com mais luz, outras menos. Não precisava ser diferente.

Agradou-me, sobremaneira, o visagismo, de TAINÁ LASMAR, principalmente a caracterização do FILHO, com um olho destruído por uma facada. É bastante impactante.

A consagrada cantora e compositora DANNI CARLOS assina uma boa trilha sonora original, que ajuda a criar os momentos de tensão da peça.

“MEMÓRIA D’ALMA” é um espetáculo franciscano, uma boa produção, que só conseguiu ser levantada como muito amor e garra, sem contar com nenhum patrocínio, o que já se tornou, infelizmente, uma constante no Rio de Janeiro. Tudo foi feito numa verdadeira “ação entre amigos”, cada um colocando o seu tijolinho. Todos os envolvidos no projeto estão de parabéns e merecem todo o nosso respeito e apreço.

É PRECISO QUE TODOS VEJAM ESTA PEÇA E PRESTIGIEM UM TRABALHO FEITO COM TANTO EMPENHO E COMPETÊNCIA!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA A DIVULGAÇÃO DO BOM TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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