‘Marido Ideal’ – da arte de se fazer contemporâneo o que, a rigor, não deveria ser ‘recomendado à sociedade’ (SQN)

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Depois do sucesso de uma curta temporada, no Espaço Municipal Cultural Sérgio Porto, está em cartaz, agora, no Teatro Dulcina, uma deliciosa comédia, saída da mente brilhante, da genialidade de OSCAR WILDE. Falo de “MARIDO IDEAL”, que recebeu um tratamento todo especial, na excelente adaptação, de GILBERTO GAWRONSKI, que também assina a direção do espetáculo.

Diz GAWRONSKI que sempre desejou montar um texto de WILDE, em função do fato de “ele conseguir refletir, com humor (excelente e fino, diga-se de passagem) sobre as crenças que povoam a mente humana, mesmo escrevendo uma história que está sujeita às especificidades de uma época”.

Ainda que a trama se desenvolva em Londres, no final do século XIX, tudo o que marca o fio central do enredo e seus desenvolvimentos periféricos pode ser, facilmente, reconhecido, pela plateia, como aquilo que, infelizmente, estamos acostumados a ver exposto, diariamente, na mídia brasileira, nos dias de hoje, relacionado ao mundo político, sem falar na atemporal hipocrisia humana, que sempre existiu e só faz criar mais corpo, à medida que “evoluímos”.

Como bem diz o diretor da peça, “a própria situação social, política e financeira do texto permite que se estabeleçam analogias com o tempo atual…”.

No palco uma sucessão de intrigas, corrupção, conluios, traições, infidelidades e toda sorte de tudo o que é execrável, sendo posto em prática, sob uma conivência que diverte, mas, no fundo, nos incomoda e nos leva a uma reflexão: já está na hora de dar um “basta” a tudo isso.

O texto é um dos mais encenados em toda a Europa. Trata-se de uma “comédia de costumes, inteligente e romântica, que coloca em questão, através de diálogos com insinuações espirituosas, o que escondem os casamentos e a política”. Tudo gira em torno de valores materialistas. O jogo de interesses e a intenção de lucrar, a todo custo, desprezando-se tudo o que possa passar por perto da ética e da moral, permeiam a peça, da primeira à última cena, revelando uma sociedade – pode-se dizer – “doente”, carente de valores construtivos e edificantes.

Transitam, pelo espaço cênico, representantes de uma burguesia frívola, desprezível, desprovida de caráter e probidade.

SINOPSE:

O espetáculo tem, como assunto, uma situação que envolve o jogo de aparências da sociedade.

No final do século XIX, em Londres, um Ministro de Gabinete, SIR ROBERT CHILTERN (MARCELO MALVAREZ), um homem público, que, aos olhos da mulher e do resto do mundo, jamais cometeu um deslize, está prestes a ser denunciado publicamente, devido a atos que comprometem o seu passado.

Ele construiu sua fortuna e sua “boa” reputação de forma ilícita, vendendo um segredo de Estado, a respeito do Canal de Suez.

Agora, é chantageado pela fascinante LAURA CHEVELEY (TICIANA PASSOS), uma mulher de duvidosa moral, por conta disso, sombria, que tem, em seu poder, uma prova irrefutável contra a “honradez” do “marido ideal” e que poderá fazer cair a máscara da probidade de ROBERT.

LAURA, inimiga de LADY CHILTERN, de quem foi contemporânea, nos bancos escolares, deseja que ROBERT apoie um esquema fraudulento, para a construção de um canal na Argentina, o que não seria um bom negócio para o Governo da Inglaterra, mas excelente, para ela.

A chantagem fica por conta de, no passado, o Barão Arnheim, mentor e amante, já falecido, de LAURA, ter convencido ROBERT a vender um segredo do Gabinete, que consistia em comprar ações do Canal de Suez, três dias antes de o Governo Britânico ter anunciado sua compra.

ROBERT ganhou uma fortuna com aquele dinheiro ilícito e LAURA o tinha nas mãos, já que era detentora de uma carta que provava aquele crime.

Uma série de volteios improváveis da trama se sucede.

ROBERT acaba por se redimir, por meio de um heroico discurso ao público, e seu amigo, ARTHUR GORING (FELLIPE MESQUITA), salva, de vez, sua reputação, calando LAURA.

GERTRUDE CHILTERN (KARIN ROEPKE), a esposa de ROBERT, perdoa o marido, depois de perceber o quão, facilmente, o escândalo teria destruído a estabilidade de sua vida.

Ainda que eu não conheça o texto original de WILDE, tanto a tradução quanto a adaptação me parecem excelentes. A escolha das palavras e as construções frasais, nos diálogos, correspondem, bem próximo e paralelamente, ao estilo de WILDE e, quanto à adaptação, GILBERTO GAWRONSKI foi muito feliz, ao agregar, ao texto original, citações de outras obras de WILDE, assim como detalhes da biografia do grande escritor irlandês, que levou uma vida bastante conturbada e atormentada, principalmente em seus últimos anos de vida.

Nesta versão, estão presentes referências a “O Retrato de Dorian Gray”, sua obra máxima, “A Importância de Ser Perfeito”, “O Leque de Lady Winderme” e “Salomé”, dentre outras marcantes obras de sua bibliografia.

No que tange a informações pessoais e históricas da trajetória do consagrado autor, fala-se da sua condenação, por ter “cometido atos imorais com diversos rapazes”. Esse episódio, tristíssimo, que marcou o início da decadência, física e moral de WILDE, se refere ao processo, movido pelo Marquês de Queensberry, pai de um rapaz, Bosie, apelido de Lord Alfred Douglas, com o qual WILDE manteve um romance, apesar de ser casado e pai. Isso aconteceu em maio de 1895, quando, após três julgamentos, o escritor foi condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados.

Tive a oportunidade de assistir à peça duas vezes, em formatos diferentes. Na primeira temporada, foi utilizada uma “arena”; na segunda, em função do espaço, o espetáculo ganhou a formatação de “palco italiano”, o que, a meu juízo, fez com que ele perdesse um pouco de ritmo e naturalidade, embora isso não tenha gerado considerável prejuízo à atual versão, que se mantém tão interessante quanto a anterior.

O espetáculo segue a linha de um bom “vaudeville”, com sucessivas entradas e saídas dos personagens, numa sequência de cenas curtas e ágeis, recheadas de quiprocós, que prendem a atenção do espectador, divertindo-o à farta.

GILBERTO GAWRONSKI permitiu-se, em sua adaptação, que também se divertisse bastante – é a impressão que nos passa -, a ponto de brincar com os sobrenomes dos personagens, trocando-os por nomes de marcas de carro e de bebidas, o que funciona muito bem, dentro da proposta de humor debochado da peça. Depois do segundo ou terceiro sobrenome, como Chevrolet, Buchanan’s ou Mitsubish, por exemplo, cria-se, no público, uma expectativa pela próxima surpresa, sempre bem recebida por todos.

GILBERTO não deixa, também, de dar as suas estocadas na política atual, indiretamente voltadas a alguns dos nomes da atualidade, chegando até a questionar, pela boca de um personagem: “Não entendo essa mania moderna pelos pastores”. Fala, ainda, em “destruição de provas”, o que nos traz à mente algo dos nossos dias, e não deixa de abordar o fato de alguém abandonar a vida pública, abrindo mão de todas as benesses a ela ligadas.

No que concerne à direção, nenhuma grande novidade, dentro do que se espera de um espetáculo desse tipo, entretanto merece destaque o tom estabelecido, pelo diretor, para a atuação do elenco. Sem qualquer exceção, todos representam com uma proposital e exagerada artificialidade, extremamente afetados e cada um personagem deseja “aparecer” mais que o outro, o que exige bastante competência dos atores e é responsável por boas e justificadas gargalhadas.

Agrada-me bastante o conjunto das interpretações, que apresentam um nivelamento positivo.

O tom farsesco, burlesco, de um mordomo “gay” (Ou seria assexuado?) permite que TIAGO RIBEIRO se sinta muito à vontade no papel e explore as características grotescas do personagem. Muito divertido.

FELLIPE MESQUITA se destaca, em algumas de suas cenas, por conta da exploração de uma provocativa sensualidade cômica, em função de seu biotipo, muito alto e magro, com o reforço dos seus hilários figurinos. Aliás, o figurino da peça merecerá, adiante, um comentário todo especial. LORD ARTHUR GORING, seu personagem, “oscila da total indiferença à espécie humana ao carinho incondicional pelos amigos. Embora não negue a insensibilidade moral, a qual transcende os limites do grotesco, o personagem acaba, paradoxalmente, situando-se como a figura mais compassiva e coerente da história”.

TICIANA PASSOS compõe uma LAURA CHEVROLET bastante convincente, no papel da chantagista e exploradora da fraqueza alheia. Perspicaz, sabe como articular seu jogo, em busca de vantagens próprias, ainda que por meios escusos e trabalha muito bem as máscaras faciais.

MÁRCIO MALVAREZ encarna o “marido ideal”, um homem de caráter “ilibado”, no lar e na vida pública. ROBERT sabia como conservar a casca de um homem extremamente respeitável, adorado pela mulher e admirado pelos amigos. Ao se ver na iminente situação de ser desmascarado, fragiliza-se e o ator sabe tirar partido de seu personagem nesses momentos, gerando situações de bom humor.

KARIN ROEPKE, como GERTRUDE CHILTERN; PAULA JUBÉ, MABEL CHILTERN, irmã de ROBERT; e ZÉ WENDELL, LORD CAVERSHAN, pai de ARTHUR, também executam, com correção, as suas funções em cena.

LADY CHILTERN, incrivelmente devota às virtudes de seu marido. MABEL extrapolava em ironias. O personagem de ZÉ WENDELL chama a atenção, por querer, obsessivamente, ver o filho casado, longe das frivolidades da vida mundana, de solteiro, e sempre a exaltar as virtudes do casamento e os perigos de uma vida desregrada, que o rapaz levava.

Uma atração à parte, no elenco, fica por conta de GILBERTO GAWRONSKI, que encarna LADY MARKBY, batizada, por ele, de OLÍVIA LAND ROVER, o protótipo da frivolidade, fútil e falsa, ao extremo, sempre a fazer comentários desabonadores com relação ao marido. GILBERTO está irreconhecível e engraçadíssimo, na caracterização da personagem. Ele substitui STELA FREITAS, que defendeu o papel na primeira temporada e que também fazia um excelente trabalho.

Antes de falar nos elementos técnicos do espetáculo, devo render um preito a todos os envolvidos neste projeto, pela coragem e resistência que o levaram a existir concretamente. O espetáculo foi feito sem qualquer patrocínio, contando com a garra de todos e a criatividade, que, em momentos de crise, parece aflorar com mais intensidade.

Dito isso, falemos do cenário e dos figurinos da peça, perfeitamente adequados à proposta e tudo – absolutamente tudo – conseguido por meio de um trabalho de garimpagem e de reciclagem, resultando, porém, em ótimas resoluções.

O cenário é da excelente MINA QUENTAL, utilizando pouco material, o mínimo necessário para ajudar a compor os ambientes. Basicamente, duas poltronas e um canapé, tudo em veludo vermelho. Na parede, algumas molduras, que servem para a projeção de ótimos videografismos, de RENATO KRUEGER, um nome já respeitado nessa área. Um ar de cabaré, talvez, onde, no original, era esperado um ambiente de luxo.

Os figurinos foram “determinados” por TICIANA PASSOS e TIAGO RIBEIRO, contando com a colaboração de ROSA EBEE e TALYSSON RAMON. Oito mãos selecionam melhor o que se tem à disposição, para se “inventar” figurinos. Uma vez de posse das peças, o trabalho foi “combiná-las”, de modo a criar trajes hilários e completamente “descombinados”, gerando conjuntos, propositalmente, ridículos e desprovidos do menor bom senso. Tudo funciona muito bem, dentro da proposta da peça.

ANA LUZIA DE SIMONI e JOÃO GIOIA são responsáveis pela iluminação, acertada e funcional, sem detalhes que mereçam destaque.

O espetáculo mereceu a adição de algumas canções, formando uma pequena trilha sonora. A direção musical é de FELLIPE MESQUITA, que, seguindo a linha estabelecida pela direção da peça, soube escolher as canções, com destaque para uma, “NÃO RECOMENDADO”, de Caio Prado, cuja letra se encaixa, perfeitamente ao texto e a seu autor. Vejo isso como uma grande, justa e merecida homenagem à genialidade de OSCAR WILDE, de quem sou fã incondicional.

Quem estiver à procura de uma boa comédia, nos moldes do que era feito antigamente, porém com boas pinceladas de modernidade e bastante irreverência, assistia a este espetáculo. É para quem deseja se divertir, sem medo de economizar gargalhadas.

Dúvidas, críticas ou sugestões, escreva para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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