‘Maria!’ é uma aula de como fazer teatro!

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no SESC Copacabana, “Maria!” é um monólogo que narra divagações de Antonio Maria (1921-1964), poeta, compositor e cronista carioca de meados do século XX. A peça é uma mistura de sensibilidade, beleza e escolhas cênicas inteligentíssimas! Tudo canalizado por Cláudio Mendes, um excelente ator, carismático e completamente à vontade em cena! Uma das melhores peças dos últimos anos!

A maneira como o espetáculo constrói a figura de Antonio Maria é uma aula de narrativa. Suas lembranças desenham o contexto externo: Copacabana e a boemia dos anos 1950. Entrelaçadas a estas lembranças, suas reflexões mostram seu humor, seu pragmatismo, suas tristezas e medos –interioridade imortalizada em canções conhecidas por muitos, e que se fazem presentes na montagem da maneira mais fluida possível, como poucos “musicais” conseguem fazer. O personagem está completo: vida e obra são uma coisa só, em um período referenciado como “os anos dourados” do Rio, época de Vinícius de Moraes, Dolores Duran e tantos outros expoentes letristas de nossa MPB.

Vale lembrar, aliás, não apenas do tempo que abrigou boa parte das melhores letras da música brasileira, mas também de uma geração teatral que tinha na palavra proferida sua mais forte aliada. Claudio Mendes saboreia cada uma delas, e também as pausas e as desvalorizações, não deixando de aproveitar uma tirada cômica sequer, e conduzindo sua emoção como a um cego. Não se vê mais isso no teatro carioca, muito menos com esta qualidade. Aproveitem!

A cereja do bolo é a direção de Inez Viana e a maneira como o espetáculo aproveita as qualidades de seu ator: tudo passa pela regência de Claudio Mendes, da música que emerge através da emoção de Antonio Maria à bandeja de alumínio que reflete a luz da ribalta, funcionando também como chuveiro. O ator, por sua vez, rebate para a plateia, escolhendo um espectador para acompanha-lo batucando, outro para segurar parte de seu figurino e objetos, outro para ler parte do programa. Sem falar nos momentos em que o público espontaneamente começou a cantar junto e o ator deixou, “foi na onda”…

Como feixes de luz que incidem em um prisma, Ricardo Góes (direção musical) e Paulo César Medeiros (iluminação) elaboram seus elementos para que adquiram total significado após a interação com Claudio Mendes. É de uma inteligência e sensibilidade impensáveis: contribuem de maneira brilhante para que tudo na encenação exista como parte do mundo (interno ou externo, como falamos antes) de Antonio Maria.

Menção honrosa à inclusão do programa da peça na experiência teatral como um todo: entregue pelo ator no decorrer do espetáculo, o programa inclui páginas lidas durante a encenação e um texto de Claudio Mendes (também idealizador do projeto e autor da dramaturgia feita a partir de textos de Antonio Maria) que pressupõe a leitura a posteriori.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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