‘Manhã’ não é um grande espetáculo, mas a discussão é importante e a abordagem é sensível

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

“Manhã” é um espetáculo do Grupo Domo, fundado em Brasília em 1994 por André Garcia – autor, diretor e ator da peça –, que fez passagem pelo Rio de Janeiro nas ultimas duas semanas no palco da Armazém Companhia de Teatro, na Fundição Progresso.

A peça narra uma noite na vida de um casal em crise. Ao longo desta noite, o casal discute, se entende, relembra momentos, enfim… Ao lado dos dois atores que incorporam o casal, há duas “sombras”, atores completamente cobertos que funcionam tanto como desdobramentos dos protagonistas quanto como contra-regras e personagens secundários na trama.

O cenário de Andre Garcia é bastante simples, constituindo-se basicamente de uma cama e cadeiras que entram e saem de cena. O mais interessante é a dobradinha que faz com a iluminação de Manuela Castelo Branco, que é quem delimita os ambientes, cabendo ao cenário apenas a composição. Funciona muito bem, e esta objetividade combina muito com o espetáculo.

Os quatro atores, Andre Garcia, Bruno Estrela, Leudo Lima e Guilherme Victor, estão muito bem, e em registros diferentes: enquanto os dois protagonistas são contidos fisicamente, dotando voz e texto de maiores nuances, as duas sombras esbanjam expressividade e comicidade corporal, com tipos bem codificados.

Apesar de nada estar exatamente fora de lugar, fiquei na dúvida do real objetivo (estético, não reflexivo) do espetáculo: no início, ele se desenha como uma reflexão profunda, franca e intimista com a plateia, que pretende sair do lugar comum. Em seguida, contudo, embarca não só em um enredo corriqueiro como adota fórmulas corriqueiras, e certo didatismo, como quando chama um espectador para opinar que decisão um dos personagens deveria tomar naquele momento.

Outra questão estética que me bateu foi o papel dos personagens-sombra: no início sugere-se que eles são dobras dos protagonistas, fazendo de fato o que aqueles só executam em pensamento. Mas este lugar não é mais retomado.

Deste momento em diante, as sombras incorporam estereótipos (sem conotação negativa aqui, entram muito bem no espetáculo como contraponto aos dois protagonistas de linguagem naturalista).
No final das contas, a própria reflexão em si, que abre como sendo o carro chefe da montagem, não é original nem propõe uma visão específica…

Mesmo assim, é uma bela montagem sobre as vicissitudes de um relacionamento, independente de sexualidade.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, escreva para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

SERVIÇO

Local: Espaço da Cia Armazém na Fundição Progresso
Endereço: Rua dos Arcos, 24 – Centro.
Telefone: (61) 99408-1000 (Grupo Domo)
Sessão: Domingo (03) às 20h
Elenco: Andre Garcia, Bruno Estrela, Leudo Lima e Guilherme Victor
Direção: Andre Garcia
Texto: Andre Garcia
Classificação: 16 anos
Entrada: R$ 20 (inteira); R$ 10 (meia)
Gênero: Drama

* Segundo informações do teatro e/ou da produção do espetáculo