‘MAKURU – UM MUSICAL DE NINAR’ – Um colírio, para os olhos; um bálsamo, para os ouvidos

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

O primeiro semestre de 2017 se despediu e contam-se, nos dedos de uma das mãos – e vão sobrar dedos –, o que foi montado, de qualidade, no nicho Teatro Infantojuvenil, no Rio de Janeiro.

É com muito pesar que me vejo obrigado a dizer isso, entretanto é a mais pura verdade. Raríssimos espetáculos, endereçados a um público tão especial e importante, como as crianças e os adolescentes, puderam ser apreciados no semestre que se finda.

Felizmente, como uma luz no fim do túnel e uma esperança de que possamos ter um segundo semestre melhor, nesse sentido, estreou, no dia 24 de junho, para uma temporada no OI Futuro Flamengo (VER SERVIÇO) o musical “MAKURU – UM MUSICAL DE NINAR”, mais uma grande obra da dupla JOSÉ MAURO BRANT e TIM RESCALA.

Não se trata, na verdade, de um espetáculo infantil ou infantojuvenil; é para todas as idades, como bem está registrado no “release”, enviado por MÁRCIA VILELLA (TARGET ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO), com o acréscimo de que os autores promovem um vibrante encontro da cultura popular e do afeto”.

JOSÉ MAURO e TIM TESCALA retomam uma excelente parceria, que já rendeu dois lindíssimos espetáculos, do nível deste “MAKURU”: “Era Uma Vez…Grimm!” e “O Pequeno Zacarias”.

No atual trabalho, os autores focam nas cantigas de ninar, para contar uma história um pouco hermética, para os miúdos, como as duas anteriores, mas de uma beleza ímpar, especialmente do ponto de vista da plasticidade.

De acordo com o “release”, “Cantigas de ninar fazem parte das nossas mais remotas lembranças da infância. A música, assim como as histórias, transforma, cria laços e vínculos para toda vida. As cantigas de ninar e o universo da cultura popular são a grande fonte de inspiração para ‘MAKURU – um musical de ninar’”.

Quatro atores/cantores dão conta do espetáculo. São eles o próprio JOSÉ MAURO BRANT e as fabulosas ESTER ELIAS, JANAÍNA AZEVEDO e LILIAN VALESKA. “Juntos, evocam imagens poéticas, numa sutil dramaturgia, entremeada pelas canções originais de Brant e Tim”.

Completa o elenco um conjunto de quatro músicos: PAULA MARTINS (flauta), DÉBORA CHEYNE (viola), CÁSSIA MENEZES (violoncelo) e TIBOR FITTEL (acordeão).

Segundo TIM RESCALA, que assina a direção musical, compôs a música original e é responsável pelos arranjos, o espetáculo “foi uma ideia do ZÉ MAURO, que eu, imediatamente, encampei. Ela é ótima, pois as cantigas de ninar fazem parte do inconsciente coletivo e, no Brasil, temos uma bela coleção de cantigas tradicionais, que sempre merecem ser lembradas. Como sabemos, a música está presente em nosso dia a dia, de diversas formas. Mas, em alguns casos, como na canção de ninar, nos ajuda a deixar um pouco o mundo real, lógico, previsível, e nos leva para outros mundos, sobretudo o da imaginação, por intermédio do afeto, do carinho e de tudo aquilo que está no campo da sensibilidade”.

JOSÉ MAURO, que também assina o texto e a direção do espetáculo, diz: “Eu sempre tive um desejo de trazer, para os palcos, os temas com os quais me identifico e foram objeto de pesquisa. Neste espetáculo, coloquei esse mundo onírico – a TUTU, a MURUCUTUTU, o JOÃO PESTANA – no telhado da casa, esquecidos. E a família vai descobrindo que lembrar deles pode ser legal, uma maneira de trazer e descobrir a nossa identidade. Por isso, cada personagem da família acaba trazendo um universo que tem a ver com a sua cultura. Por exemplo, a BARTIRA traz a herança africana; a AVÓ, a herança indígena, por meio da MURUCUTUTU;  e o JOÃO PESTANA, a herança portuguesa. Juntamos essas três culturas formadoras, para chegarmos a essa família, por meio das canções de ninar. É disso que fala, basicamente, o ‘MAKURU’, um espetáculo sobre a importância da memória na construção da nossa identidade, renovando as tradicionais cantigas de ninar, resgatando o valor do afeto nas relações familiares”.

Reforço que o espetáculo é voltado para um público mais crescido, ainda que também possa agradar aos menores, pela riqueza plástica que ele reúne.

O cenário, de NATÁLIA LANA, é um primor. Uma casa, praticamente “oca”, de objetos, preenchida pelas belíssimas projeções, criadas pelos irmãos RICARDO e RENATO VILLAROUCA, os dois craques do videografismo, que jamais erraram a mão em algum trabalho do gênero.

Ainda sobre o cenário, ele representa uma casa, com destaque para o telhado, elemento importantíssimo na história, e duas cadeiras brancas, que se transformam num berço. Num dos lados do palco, fica uma miniatura daquela mesma casa, do tipo “casinha de boneca”, mobiliada. Tudo feito com o maior requinte e delicadeza.

Requinte, delicadeza e muita criatividade também são características que podem ser aplicadas ao excelente figurino, criado por CAROL LOBATO, reforçado, em alguns casos, pelos fantásticos adereços, de BRUNO DANTE, também responsável pelo boneco que encarna MAKURU.

A beleza plástica do espetáculo é completada pela competente iluminação de PAULO CÉSAR MEDEIROS.

Ainda sobre o detalhe da plasticidade, merece destaque a interessante maquiagem, a cargo de MONA MAGALHÃES, tão rica em detalhes e de difícil realização, creio eu.

O texto, apesar de bem escrito, merecia, a meu juízo, um tratamento mais ao nível do entendimento das crianças. A classificação da peça é “livre”, porém com recomendação a maiores de seis anos, entretanto – pode ser que eu esteja errado – não creio que os dessa faixa etária conseguirão atingir as sutilezas e a poesia que o texto contém. Acho, contudo, válido que o dramaturgo tenha escolhido esse caminho, que pode provocar uma interação entre pais e filhos; estes questionando aqueles, acerca do que não conseguiram entender. De qualquer forma, louvo o cuidado e o bom gosto na escolha do tema e na preocupação de não escrever um texto tão evidente e raso.

A parte musical é uma jóia das mais raras, não tivesse sido composta por um dos mais competentes nomes da música, popular e erudita, principalmente esta, TIM RESCALA. As canções são lindíssimas e comoventes, as melodias enriquecidas pelas letras, de JOSÉ MAURO, e a partitura é bastante difícil de ser executada, na visão deste leigo no assunto (é apenas um palpite), o que valoriza o trabalho dos músicos e dos atores/cantores.

Acho muito válido apresentar, às crianças, desde cedo, uma música de qualidade, despertando o seu gosto musical, desviando-as do que existe de má qualidade, em execução nas mídias. Iniciar, musicalmente, uma criança pelas mãos de TIM RESCALA é um privilégio e uma grande sorte.

Sobre o elenco e sua atuação, todos os adjetivos seriam insuficientes para incensá-los. Todos, sem exceção, têm um rendimento acima da categoria “excelente”, com destaque para o trio feminino, sabidamente formado por três dos maiores nomes do TEATRO MUSICAL BRASILEIRO. Reunir, num só espetáculo, três cantrizes do nível de ESTER, JANAÍNA e LILIAN é uma “covardia”. Em conjunto e nos seus solos, o público se delicia com as vozes das três, valorizando o que já é belo: as canções. JOSÉ MAURO BRANT também se entrega, plenamente, aos personagens que faz.

À exceção de ESTER ELIAS, os outros se revezam em dois papéis, com ótimo rendimento em todos.

Um aplauso também deve ser reservado ao trabalho de SUELI GUERRA, na direção de movimento e na coreografia.

Que bom termos em cartaz, na categoria Teatro Infantojuvenil, uma obra da qualidade deste “MAKURU”!

Recomendo, com bastante empenho, o espetáculo, na certeza de que aqueles que aceitarem a minha sugestão haverão de fazer coro comigo, nos elogios, que não poupo à peça.

Dúvidas, críticas e sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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