Luísa Thiré comenta sensação de interpretar personagem que foi da avó Tônia Carrero: ‘Me senti conectada com ela’

Luiz Maurício Monteiro

Luísa Thiré como a prostituta Neusa Sueli, personagem que já foi da avó Tônia Carrero Fotos: Divulgação

A prostituta Neusa Sueli é mais do que uma personagem para Luísa Thiré. A protagonista de “Navalha na Carne” está mais para um canal a mais de conexão entre a atriz de 45 anos e a sua avó, Tonia Carrero, que faleceu em 2018, aos 95. Mais de 50 anos depois, ela está em cartaz no Sesc Copacabana, com uma remontagem do drama escrito por Plínio Marcos (1935-1999) interpretando o mesmo papel que foi de sua progenitora na versão original de 1967.

Há mais de 50 anos, em plena ditadura militar, Plínio Marcos escreveu a peça que reúne num quarto de bordel a prostituta, seu cafetão, o violento Vado, e um faxineiro gay, conhecido como Veludo – interpretados, respectivamente por Nelson Xavier e Emiliano Queiroz em 1967; e por Alex Nader e Ranieri Gonzalez na versão atual, dirigida por Gustavo Wabner.

Um tenso conflito entre os três, recheado de palavrões, violência física e preconceitos, se dá por uma quantia em dinheiro que sumiu. A trama, como qualquer um pode supor, acabou censurada pelo governo. Foi então que Tônia Carrero, muito conhecida não só pelo talento, mas também pela beleza e pela classe, foi à luta fora dos palcos para conseguir a liberação da obra e, enfim, adentrá-lo para interpretar a meretriz – que, desde 2018, quando a atual montagem estreou em São Paulo, é um elo entre neta e avó.

— Não a assisti fazendo a Neusa Sueli, vi só fotos. Nos ensaios, eu tentava imaginar como ela faria isso ou aquilo… Tinha esta curiosidade e ficava me perguntando. Estas respostas, eu não vou ter, mas sinto a voz dela presente dentro de mim. E é emocionante quando faço a peça. Me sinto conectada à minha avó. Adoraria que ela estivesse aqui para assistir, mas, na verdade, acho que ela está assistindo de algum lugar — diz Luísa, emocionada, em entrevista ao RIO ENCENA.

Mas e se Tônia Carrero assistisse, de fato, à neta fazendo a personagem que foi sua há tanto tempo? O quê diria? Luísa acredita que a avó repetiria a reação que tinha ao acompanhar outras peças suas.

Com cenas fortes, “Navalha na Carne” fala de machismo, violência contra mulheres e outros males da sociedade

— Tinha um grito que ela dava da plateia sempre que me assistia: “Ma-ra-vi-lha” (risos). Fiquei até emocionada agora só de lembrar (Luísa faz uma pequena pausa). Eu acho que ela ia me aplaudir muito, ia torcer… – imagina Luísa que, curiosamente, nunca conversou com a avó sobre um dos trabalhos mais marcantes da carreira dela: — A peça é de 67 e eu, de 70. A primeira lembrança que tenho dela é “Constantina”, em 75. Na adolescência, eu ia assistir a todos os espetáculos dela. Mas “Navalha” já estava lá atrás.

Lá atrás em 1967, sim, mas com cara de atemporal. A discussão entre os três personagens suscita machismo, homofobia, violência contra a mulher e outros tipos de males da sociedade que não foram erradicados pela passagem do tempo.

— A peça não perdeu em nada com tempo. E do ano passado para agora, nossa missão cresceu muito com esta peça. Ela virou grito de guerra, uma bandeira. Antes das eleições tinha uma cara, agora tem outra. Ganhou uma dimensão gigante, porque é intolerável, inadmissível… Quantas Neusas e Veludos a gente vê por aí? São mulheres mortas, estupradas, gays idem… O texto é sobre miséria, vidas desgraçadas, mas estes personagens, a gente vê em todas as classes. É impressionante como esta peça deveria estar datada, como uma coisa do passado apenas, mas não é assim — lamenta Luísa, que teve a ideia de um vídeo de seis minutos com depoimentos de Tônia e Plínio para servir como uma espécie de prólogo para a montagem.

Esta contemporaneidade de “Navalha na Carne”, aliás, foi um dos motivos que fizeram Luísa querer montá-lo como tributo à avó. No segundo semestre de 2017, já com Tônia Carrero longe dos holofotes pela idade avançada, a atriz pensou em homenageá-la. Entre diversos textos de espetáculos que a avó fez, o de Plínio Marcos surgiu chamando sua atenção pela familiaridade com os dias atuais.

— O texto de 1967 mais parecia ser da semana anterior. O caso de uma mulher morta esfaqueada tinha acontecido um dia antes, o da (vereadora) Marielle Franco, dois meses antes… Ele fala de violência contra mulheres, matança de gays, machismo… É muito contemporâneo — observa.

Foi então que sua mãe Norma lhe falou sobre o esforço de Tonia para a liberação da obra, que a contemplou posteriormente com o tradicional Prêmio Moliére. Diante da relevância de “Navalha na Carne” tanto para a sociedade, como para a história de Tônia, esta parecia para Luísa ser a peça perfeita para um tributo. Um mês depois da escolha, porém, sua avó faleceu. Já a vontade de homenageá-la só se fortaleceu.

— Estreei em 23 de agosto do passado, dia em que ela completaria 96 anos — recorda Luísa, que para completar a homenagem, teve a ideia de uma exposição de fotos da avó: — A exposição está no Theatro Municipal de Niterói e também no Sesc Copacabana. É uma forma de abranger toda a dimensão da trajetória dela. Minha avó fez uma carreira forte no teatro, mas também fez muita TV, cinema, liderou movimentos, foi uma das mulheres mais fotografadas do mundo, eleita a mais bonita do século. Ela deixou muitas marcas, e minha ideia foi pincelar um pouco disto tudo.

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