‘Lugar Nenhum’ é uma reflexão necessária sobre o vazio atual

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro III do CCBB, “Lugar Nenhum” coloca em questão a nossa apatia diante do mundo. Somos extremamente críticos em relação a diversos aspectos de nossa época e lugar, mas não agimos, não fazemos nada além de constatar os problemas, e por vezes à luz de uma ideologia tão profunda que mais nos cega do que ilumina.A reflexão sobre nossa inação se faz fundamental, e mesmo com sua densidade, a peça corre fluida e divertida.

A começar pelo seu título e subtítulo, “Lugar nenhum – Uma peça-ensaio da Companhia do Latão” opera um olhar incansável, que enfoca e ironiza tudo e todos. O espetáculo acontece em uma casa de veraneio de uma atriz, onde diversos personagens se encontram para passar o fim de semana. Nenhum deles é estereotipado: todos são assolados por uma questão, sobre a qual refletem e procuram atribuir o maior relevo possível; permanecem, no entanto, cegos ao problema ou à opinião do outro. A própria peça se passa durante o regime militar no Brasil, cujas características são retomadas diversas vezes, mas a casa em si não sente seus efeitos na prática; segue isolada do mundo, assim como os personagens e seus discursos. Dentre todos, apenas a protagonista estranha a alienação generalizada, diante da qual também ela permanece sem ação. Esta alienação produz uma estagnação no enredo (cujo efeito dramático é imediatamente evidente, espelhando o marasmo político e social brasileiro). A relação entre os personagens, no entanto, evolui muito! E é muito interessante de ver!

O cenário traduz os vetores opostos para onde o espetáculo aponta: um telão ao fundo que lembra os cenários de tantas montagens “tradicionais” dos séculos passados contrasta com elementos muito presentes no teatro contemporâneo, como o piso do proscênio e a tridimensionalidade e mobilidade das mesas, cadeiras e bancos que entram e saem do palco.

Em um contexto político onde tendemos a separar direita e esquerda, patrão e empregado, rico e pobre, bem e mal, “Lugar nenhum” nos mostra como estas categorias são arbitrárias, ideológicas, e geram muito mais uma bola de neve discursiva (que se retroalimenta da demonização da outra “classe”) do que uma ação que poderia contribuir para uma solução.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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