‘LTDA’ tematiza ‘fakenews’, mas não se desenvolve para além da ideia inicial

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Eva Herz, dentro da Livraria Cultura, na Cinelândia, “Ltda”, do Coletivo Ponto Zero, debate um tema atual: as notícias falsas, ou “fakenews”. O mote da peça é consistente, mas acaba não se desenvolvendo para além da ideia inicial.

A dramaturgia de Diogo Liberano narra a contratação de um funcionário por uma empresa criadora de notícias falsas. O funcionário, já em sua entrevista de emprego, percebe a antiética envolvida no trabalho, mas aceita o cargo devido a necessidades financeiras. A peça se desenvolve mostrando essa relação desconfortável do funcionário com suas convicções, de um lado, e seu emprego, de outro.

A direção de Débora Lamm consegue criar excelentes momentos, assim como seu cenário, que faz uma dobradinha ótima com o desenho de luz de Ana Luzia de Simoni: um tablado quadrado no centro do palco ambienta o espaço de um escritório onde todos estão insatisfeitos, mentem, não gostam de estar ali ou conviver entre si. A claustrofobia física e ética é instaurada também por uma iluminação que simula luz fria (aquele branco brilhante insuportável) e recorta focos estreitos.

Os figurinos discernem bem os diferentes papéis e lugares de fala, mesmo através do padrão de escritório.

Os atores estão bem, fundamentalmente separando-se entre dois grupos de atuações: os donos da empresa, vividos por Brunna Scavuzzi e Lucas Lacerda, seguem uma linha mais “robotizada”, com voz e movimentos firmes e poucas nuances; Leandro Soares, que vive o jornalista em crise ética, tem atuação mais humanizada e desenhada, o que é interessante.

Brisa Rodrigues e Orlando Caldeira tem papéis híbridos:a primeira vive uma funcionária antiga da empresa, horas resignada, horas irritada. Não entendi muito bem… me pareceu destoar do todo; Orlando Caldeira personifica uma espécie de narrador / raisonneur, em parte autor das ações da peça, em parte porta-voz de um “povo” que comenta estas ações, expressando sua visão.

“Ltda” invoca imediatamente a reflexão a partir da pintura de um retrato claro da questão. A não evolução deste quadro e a existência de um papel que expõe a leitura do autor, sobretudo no final da peça, acabam, por um lado, imprimindo um didatismo, e, por outro, induzindo o pensamento do espectador.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE