Leandro Santanna reestreia tributo a Lima Barreto e critica governantes por ‘projeto de inviabilizar’ acesso à cultura

Luiz Maurício Monteiro

Leandro foi indicado ao Prêmio Shell 2018 por sua atuação em “Lima Entre nós”

Negro, carioca e ferrenho crítico do sistema político do Brasil. Este é um curto perfil de Lima Barreto (1881-1922), mas poderia ser também de Leandro Santanna, que está uma vez mais homenageando o escritor e jornalista Afonso Henriques de Lima Barreto com o solo “Lima Entre nós”, que reestreou nesta semana no Teatro Dulcina, no Centro. Em entrevista ao RIO ENCENA, para a seção “Perfis”, o ator de 39 anos falou sobre sua carreira de 23 e de como sempre foi complexo sustentá-la. E tal dificuldade – encarada, diga-se, pela maioria esmagadora de quem vive de cultura e arte no país – ele atribui aos governantes, de hoje e de ontem.

— O mais difícil é estar sempre em cena. E o que torna isto tão difícil é esse modelo de governo incendiário que temos no Brasil. Na verdade, a gente vem sofrendo há anos desgastes nos setores artístico e cultural que nos engessam, nos impossibilitam… Já é antigo este projeto de inviabilizar que as pessoas tenham um senso crítico de ver o mundo por outro viés — opina Leandro, que para levar o olhar crítico de Lima ao palco, debruçou-se sobre sua obra por cerca de três anos ao lado da diretora Márcia do Valle, até a estreia em 2018.

Indicado ao Prêmio Shell 2018 por seu papel no drama solo, Leandro, que tem cerca de 30 peças no currículo, admite que se sente mais confortável na comédia. No entanto, o espetáculo que ele sonha um dia levar aos palcos não pertence a nenhum dos dois gêneros. Trata-se de um musical sobre João Cândido (1880-1969), militar da Marinha de Guerra que liderou a Revolta da Chibata, movimento de 1910 que reivindicava benefícios aos marinheiros.

Mas enquanto este projeto não sai do papel, Leandro pretende seguir usando nos teatros – a próxima parada é dia 24 na Fita, em Angra dos reis –  a obra de Lima Barreto como trunfo para que a cultura brasileira viva dias melhores no futuro, e desabafos como o que fez na entrevista abaixo se tornem menos frequentes.

Espetáculo mais marcante da carreira?
O primeiro é muito importante pois significa uma mudança de uma época, que era de se apresentar em escolas e igrejas, para outra, a profissional. Se chamava “Com o Rio na Barriga” (1995), texto do Ricardo Blat e direção do Ernesto Piccolo, ficamos dois anos no Teatro Gonzaguinha, saiu na imprensa… Por isso, tenho esse carinho especial. A peça falava da urgência de todos nós cariocas ficarmos grávidos pelo Rio, nos apaixonarmos pela cidade como uma mãe se apaixona pelo filho. Falávamos sobre tudo o que estava errado lá atrás. E, infelizmente, os problemas são cíclicos, porque continuamos vivendo as mesmas coisas.

A ideia do monólogo é deixar a obra de Lima Barreto em evidência Fotos: Walter Mesquita/Divulgação

Um fracasso?
Fracasso… Não sei falar. Não é pretensão, mas, na verdade, como tenho conseguido fazer longas temporadas com quase todos os meus espetáculos, não vejo dificuldade de aceitação ou de público. Alguns ficaram mais tempo em cartaz, outros menos, mas não dá para chamar de fracasso.

Trabalho dos sonhos?
Tenho muito desejo de fazer um musical sobre a vida de João Cândido. Queria contar a história dele, mas não só no período da revolta, mas outras fases também. Retiraria a história do lugar comum, com um recorte histórico e traria uma relação diferenciada para a estética musical. E escolheria ser musical por se tratar de um desafio para mim, já que não me considero um ator/cantor. Isso me qualificaria.

Não se vê em que tipo de trabalho?
Não me vejo em trabalhos com relação direta com discursos de ódio e religiosidade judaica/cristã. A gente já está cercado de todos os lados de uma doutrinação, uma pregação diária desse tipo, numa busca por uma hegemonia…. Então, eu não teria interesse. Falo isso, porque já fui convidado para espetáculos relacionados a essa temática de religião e não aceitei.

Como recebe as críticas em geral?
Seria mentiroso dizer que recebo com sorriso. Óbvio que a gente pensa “poxa, será que é isso mesmo?”. Porque todo espetáculo é um filho, não é? Na verdade, não gosto de receber críticas, mas sempre lido com maturidade, porque sempre tento tirar o que pode ser realmente uma ponderação que pode melhorar o espetáculo. Claro que quando fazem crítica demonstrando que não entenderam a proposta, fico chateado. Penso: “Será que eu não soube passar a ideia?”. Recebemos boas críticas com “Lima”, mas certa vez, uma pessoa disse que teria que contar a história dele para ser uma homenagem. E eu não vejo assim. Fiquei p… (risos) Ficou uma crítica fora do lugar, e isso é o mais chato. Mas já aconteceu de mudar coisas no espetáculo por achar a crítica válida.

Um gênero de preferência?
Me sinto mais à vontade com a comédia. Mas tenho feito drama com certa regularidade. O “Lima” é um desafio, por ser um solo e por ser denso, e não um stand-up, por exemplo. Na verdade, fico mais à vontade na comédia, mas gosto de estar seguindo esta linha de drama. É ótimo pois não fico preso.

Leandro e a diretora Márcia do Valle debruçaram-se sobre a obra de Lima por cerca de três anos

Maior desafio na carreira de um artista de teatro?
É ser persistente diante da dificuldade enorme de se manter, dar continuidade à carreira. O mais difícil é estar sempre em cena. E o que torna isto tão difícil é esse modelo de governo incendiário que temos no Brasil. Na verdade, a gente vem sofrendo há anos desgastes nos setores artístico e cultural que nos engessam, nos impossibilitam. Todas estas amarras fazem com que a fruição do nosso fazer cultural seja sempre difícil. Sobre este episódio do Museu Nacional (que pegou fogo no último dia 02), li numa rede social que um governo que não investe em educação e saúde, também na investe em cultura. A pessoa colocou isso como se fosse de agora, mas já é antigo este projeto de inviabilizar que as pessoas tenham um senso crítico de ver o mundo por outro viés. E digo “projeto” porque vejo como um projeto de ter uma nação que caminha por esse lugar de não se permitir acesso à informação. Acho que é isso que torna o fazer artístico tão difícil.

Já pensou em desistir da carreira?
Desistir não. Já passei por dificuldades, momentos de questionamentos, mas desistir não.

Se não trabalhasse com teatro, seria…
Sou formado em história. O projeto era ter história como segunda profissão. Mas não se concretizou porque nunca nem tive tempo de investir, pois estava sempre tocando a carreira no teatro. Quando não tinha convite, eu mesmo me produzia. Mas se não tivesse carreira no palco, estaria dando aula, trabalhando como historiador…

Para encerrar, fale um pouco sobre seu trabalho atual…
Temos o título e o subtítulo: “Lima Entre nós – Estudo Compartilhado à Atualidade de Lima Barreto”. A gente pensou neste subtítulo para explicitar que nós pesquisamos a obra do Lima e tivemos interesse de compartilhar este estudo com espectadores. Nosso maior desejo era libertar as palavras dele no palco, não deixar que uma obra tão magnífica e atual como a do Lima ficasse mais uma vez esquecida, guardada. Então, a gente tem feito algumas temporadas e estamos fechando várias futuras porque nosso maior desejo é fazer com que o espetáculo seja visto pelo maior número possível de pessoas. Nos debruçamos sobre grandes obras do Lima, e nosso maior sofrimento foi ficar com algumas e retirar outras para a peça ficar com 50 minutos. Então, tivemos trabalho, mas valeu.

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