‘Kalú e a Lua’ é infantil obrigatório por uma infinidade de razões

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, em Santa Teresa, “Kalú e a Lua”, que tem idealização, realização e trilha original da companhia Corre Cutia, é espetáculo infantil que soma inúmeras qualidades, e de diferentes naturezas. Mais importante do que conter todas elas é organizá-las em um discurso uno e fluido.

Em primeiro lugar, o enredo da peça é uma fábula nacional: Kalú, uma lobo-guará, assim que nasce e vê a lua, se apaixona, e elege o astro como sua mãe. A peça narra a saga da carismática lobinha de ir ao encontro da lua, e nesse trajeto ela interage com outros animais da fauna brasileira.

Como já expus em outras críticas, não tenho vocabulário para descrever a importância que vejo na tematização do que é nosso, em especial fenômenos e espécies especificamente regionais, como o lobo-guará e a arara-azul. Já passou da hora de orbitarmos nosso próprio imaginário, e não (ou não só) o importado.

Em segundo lugar, a peça é musicada, em ritmos nacionais, e executada por quatro mulheres que acumulam as funções de tocar e cantar com total domínio de ambas. Enquanto cantam e tocam, caminham, dançam, interagem entre si e com a plateia. A música se dá com tamanha naturalidade, dentro da peça e para as atrizes, que a ideia de “espetáculo musical” está colocada aqui de forma muito mais concreta do que aquela que denomina o “musical americano”.

Assim como a música, a interação com o público também permeia o espetáculo, mas não de forma ostensiva, não buscando a graça, não forçando ninguém a participar. Quem se manifesta, espontaneamente, recebe atenção carinhosa das atrizes, mais detida do que normalmente ocorre em outros espetáculos.

A iluminação de Paulo Denizot entra nessa dinâmica, pontuando diversas reações no andamento da montagem. Cenário e figurino também são excelentes, ambos retratando o Cerrado de forma não figurativa (a partir de elementos humanos e urbanos), o que tem tudo a ver com o clima fabular proposto pela peça.

Por último, os objetos cênicos, entre eles instrumentos musicais, são artesanais, o que denota não só o investimento da Corre Cutia na criação de algo único, como também, e sobretudo, o cuidado do grupo na busca do que melhor traduzia o que eles queriam exprimir, em termos visuais e sonoros. Destaque para o objeto que simboliza a lua: instrumento, caldeirão, astro que varia de humor… uau!

As atrizes, enfim, transitam super à vontade por tudo que a peça abriga, daí resultando um carisma e leveza que não só conquistam o público como permitem a interação com ele e a execução musical da forma mais orgânica possível, como descrito acima.

OBS: infelizmente só pude assistir ao espetáculo no fim de sua temporada no Parque das Ruínas. Esta é a razão, inclusive, para esta crítica estar sendo publicada, excepcionalmente, durante a semana: sábado agora, dia 25/08, é a última sessão da peça em Santa Teresa. Vamos torcer para que ela volte em cartaz em breve. Fiquem ligados e não percam!

Um abraço e até domingo!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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