‘Justa’ – Mais que uma ‘peça-manifesto’, um espetáculo necessário e oportuno

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Ainda que, infelizmente, já em final de temporada (termina no próximo domingo, 19 de novembro de 2017), não poderia deixar de escrever sobre um espetáculo de que gostei muito, nos últimos tempos: “JUSTA”, em cartaz no Teatro III, do CCBB do Rio de Janeiro.

O “marketing” vende o espetáculo como uma “peça-manifesto”, entretanto ela representa muito mais do que isso. Se fosse, “apenas”, um “manifesto”, já seria muito importante, porém acrescentem-se, ao substantivo, os adjetivos “necessário” e “oportuno”, por sua natureza, por sua contemporaneidade, pela brilhante ideia de sua composição, pelo excelente texto e por tantos e tantos motivos outros.

                                                                                   SINOPSE

Num palco, um casal de atores. Ela se multiplica em vários personagens. Ambos estão em busca de uma reflexão sobre o momento ético em que vive a sociedade brasileira.

Na história, políticos corruptos (praticamente, um pleonasmo) passam a ser assassinados em Brasília (Por um “serial killer”?), e, prestes a se aposentar, um INVESTIGADOR (RODOLFO VAZ) é incumbido de descobrir quem está cometendo os homicídios.

As pistas o levam a um bordel, chamado “O Colégio”, muito conhecido entre senadores e deputados, que o frequentavam com grande assiduidade (mais, talvez, do que compareciam àqueles que deveriam ser seus locais de trabalho).

Enquanto segue o curso das investigações, novos assassinatos acontecem, mas o INVESTIGADOR tem sua atenção desviada para uma prostituta em especial, que é cega e atende pelo nome de JUSTA (YARA DE NOVAES).

Ironicamente, é amor à primeira vista – da parte dele.

Segundo o “release”, enviado pela assessoria de imprensa (CÍNTIA MAGALHÃES), “‘JUSTA’ é um romance policial, com suspense e muito crítico, que trata da investigação de uma série de assassinatos contra políticos corruptos. Durante a investigação, um oficial justiceiro (…) encontra um amor improvável (…) e se depara com a questão da corrupção brasileira encontrada em diversos níveis”.

O espetáculo, escrito por NEWTON MORENO e dirigido por CARLOS GRADIM, segundo este, “é uma tentativa de criar uma alegoria cênica do esgotamento ético em que estamos mergulhados. É um berro. É uma forma urgente de reencantamento com a beleza da justiça”.

Por essa declaração, podemos sentir quão necessário e oportuno é o espetáculo, uma grata contribuição, para que possamos refletir acerca do mar de lama no qual Brasília e outras praças nos obrigam a afundar, funcionando, a peça, como aquela corda, atirada, na qual possamos nos agarrar e escapar da morte.

Curioso é que o processo de criação da peça partiu de um pedido do diretor e da atriz do espetáculo ao autor, no sentido de que “escrevesse um texto que tratasse da prostituição”. Durante o referido processo, os três, juntos, “começaram a desvendar um cenário político conturbado e em momento de exaustão e chegaram à brilhante conclusão de que os dois universos se uniam”.

Sim, prostituição e política caminham juntas; no Brasil, pelo menos.

Devemos, no entanto, entender que, neste espetáculo, a prostituição é tratada de forma diferente. Ganha um “up”. “Vai além da conotação sexual, da mulher que troca sexo por dinheiro, pois engloba a troca de votos por propina, entre outros aspectos da prostituição”. Prostituição rima com corrupção. Brasília é, metaforicamente, transformada num grande bordel, com o perdão dos cidadãos honestos e decentes que habitam a capital do país. É só uma metáfora. E lembremos que a história se desenvolve em Brasília, mas ela é, apenas, um símbolo, um microcosmo, uma vez que o que é tratado, na peça, respinga em várias outras cidades, sejam elas capitais ou não.

O público sai do teatro num misto de vingado e desesperançado. Vingado, porque todos se põem no lugar da prostituta JUSTA. Eu, com a maior convicção, queria ser a PUTA JUSTA, não pelos prazeres da carne – se é que ela goza deles, ou com eles – entre lençóis, mas por sua atitude de tentar resgatar a dignidade do povo brasileiro. Ao mesmo tempo, deixei o Teatro III do CCBB desesperançado, frustrado, por saber que, infelizmente, os assassinados parecem Fênix e, se não renascem de suas próprias cinzas, chocam seus ovos, antes de morrer, e deixam seus descendentes como sucessores na “carreira”, tais quais eles, para darem prosseguimento aos seus roubos e desmandos, de uma forma geral. Mas vale, pelo desabafo. Pelo menos, por 90 minutos, experimentamos um “orgasmo moral”.

A peça, vencedora de inúmeros prêmios, dentro e fora do Brasil, chega ao Rio de Janeiro sob a chancela da ODEON CIA. TEATRAL, fundada por CARLOS GRADIM e YARA DE NOVAES, e trata, basicamente, de corrupção e justiça, dois ingredientes que fazem parte, nos dias atuais, do cardápio do brasileiro. O amor fica num plano muito distante.

O texto, de NEWTON MORENO, é um primor. Parece ter sido escrito e terminado um pouco antes do terceiro sinal, tamanha é a sua relação com os dias atuais. Não poderia ser mais pertinente à triste realidade brasileira do momento. Ainda que, na maioria do tempo, seja narrativo, muito bem narrado pelo personagem de ROFOLFO VAZ, com poucos diálogos, nem de longe passa pela monotonia. Muito pelo contrário, há muita ação na narrativa. À medida que os fatos são narrados, o espectador vai construindo um filme, em suas mentes. Isso é, por demais, excitante e válido.

No papel do INSPETOR, RODOLFO VAZ “abusa” do direito de ser um grande ator, assim como o faz YARA DE NOVAES, como atriz, a qual se multiplica em várias personagens, com destaque para a que dá título à peça, JUSTA, a PUTA NORDESTINA, dona do bordel, e a PUTA MANCA.

Ambos estão vivendo, em cena, uma plenitude profissional de fazer inveja, com um certo destaque para YARA, que representa dentro e fora da cena, enquanto RODOLFO é o alvo das atenções. Ela, porém, jamais perde o foco. Sem recorrer a figurinos diferentes e / ou a recursos de maquiagem, YARA interpreta várias personagens nos detalhes, principalmente na mudança da voz e com a expressão corporal. Um trabalho digno de premiação.

Devemos louvar a ótima direção, de CARLOS GRADIM (mais uma), por conseguir uma encenação teatral com o formato de um manifesto. GRADIM decodificou todas as intenções do texto e soube conduzi-lo com total maestria, explorando todos os elementos fornecidos pela cenografia. Mantém o caráter de “peça-manifesto”, sem se afastar dos elementos teatrais.

Trata-se de uma “peça-manifesto”, sem ser panfletária, na conotação negativa da palavra.

É digno de elogios o fantástico cenário / instalação, de ANDRÉ CORTEZ, que nos deixa à mostra uma extensa mesa, como um balcão de tele-jornal, equipada com material sofisticado de transmissão, como microfones, equipamentos de som – os mais variados – e nove aparelhos de TV de tela plana, por meio dos quais o espectador tem acesso a cenas de exposição da genitália feminina, seios, cenas de sexo explícito e algumas emblemáticas frases de efeito, de protesto. A tecnologia a serviço do TEATRO; não sobrepondo-se ao TEATRO.

Nos figurinos, de FÁBIO HITOSHI, não há o que se destacar, a não ser dizer que eles me pareceram bastante ajustados aos personagens e à proposta do espetáculo.

Acho que a iluminação, de TELMA FERNANDES, que optou por não revelar, com ênfase, todos os setores da cena, alternando-os, de acordo com a necessidade, e com parcimônia, possa ter uma relação, ou melhor, uma ligação com o fator “críptico”, ou seja, com o desejo de não mostrar aquilo que foi desenvolvido para esconder alguma coisa, que não pode ou que não deve ser revelada. O adjetivo vem de “cripta”, que, entre outras acepções, significa a laje de pedra que serve para selar os túmulos, ocultar o que não deve estar em contato com o público, a sociedade. Será que viajei muito alto e vou conseguir aterrissar?

Deve ser citada a boa trilha sonora, assinada por DR. MORRIS, que comporta uma bela interpretação de Laila Garin, do “Hino de Ninar”.

É uma pena que a temporada tenha sido tão curta e, até onde sei, não há perspectivas para outra, no Rio de Janeiro; para este ano, pelo menos. Também continuamos órfãos de um outro espetáculo da companhia, que cumpriu um curtíssima temporada, no OI Futuro Flamengo, logo no início do ano: “Love, Love, Love”, que considero uma das melhores montagens do primeiro semestre de 2017, assim como “JUSTA” está para o segundo.

Intervenham, DEUSES DO TEATRO! Ponham as “garalhufas” para funcionar!

Corram, senhores, e comprem seus ingressos antecipadamente, pois eles esgotam e, todos os dias, formam-se filas, esperando por desistências.

Este espetáculo deveria ser filmado e passado, em horário nobre, em cadeia de TV, para ACORDAR OS BRASILEIROS ANESTESIADOS, COM RELAÇÃO À SITUAÇÃO POLÍTICA EM QUE ESTAMOS MERGULHADOS, NO BRASIL.