José Mauro Brant estreia ‘Makuru – Um Musical de Ninar’ e explica relação com teatro infantil: ‘Quase um gesto político’

Luiz Maurício Monteiro

Brant (E) atua na peça, além de assinar direção e texto Fotos: Marian Starosta/Divulgação

“Makuru – Um Musical de Ninar”, que estreia neste sábado (24), às 16h, no Oi Futuro Flamengo, é mais um fruto da relação estreita entre José Mauro Brant e o teatro infantil. Protagonista, autor e diretor no espetáculo que fala do afeto nas relações familiares, ele não ficava à frente de uma produção voltada para o público mirim há cerca de uma década. Agora, em entrevista ao RIO ENCENA, o carioca de 45 anos – que curiosamente não tem filhos, apenas sobrinhos – comemora o retorno, mas lamenta o que enxerga como um momento de carência do teatro voltado para crianças.

– Acho que cada vez mais devemos incrementar essa área, que anda tão empobrecida… O teatro infantil é importante porque é ele que forma a plateia de amanhã. Então, é quase um gesto político trabalhar com inteligência e seriedade, e não como caça-níquel, como a maior parte dos espetáculos que vemos nos shoppings, que são apenas cópias de desenhos animados – critica Brant, com a experiência de quem em 30 anos de carreira, já trabalhou em mais de 30 peças infantis.

Sobre a trama de “Makuru”, o personagem título, a criança da casa, vem dando trabalho para a família na hora de dormir. A missão de fazê-lo adormecer é compartilhada entre pai, mãe, avó e babá, personagem, aliás, que Brant considera uma homenagem àquelas que se dedicam à missão de dar atenção e carinho aos filhos de outras mães.

Entre as tentativas de pôr o menino para dormir, eles não se dão contam das presenças de Murucututu, Tutu e João Pestana, seres mágicos que vivem no telhado da casa e temem cair no esquecimento. Com esse contexto, além da trilha sonora original assinada por Tim Rescala, de bonecos e projeção de imagens, a montagem não apenas dá uma nova roupagem às tradicionais cantigas de ninar, como também passa uma mensagem de resgate do valor do afeto nas relações familiares.

Estas relações, claro, foram o ponto de partida para a construção do musical e um dos temas abordados na entrevista abaixo:

Acha que essas canções de ninar caíram em desuso? E mais: os laços mais estreitos entre pais e filhos já não são mais os mesmos?
Na verdade, acho que algumas modernidades na educação dos filhos vêm no sentido de fazer a mãe passar menos tempo com o filho, a coisa da praticidade. Mas o gesto de acalentar não morre nunca. Pensando sobre isso, com essa peça, a gente pode estar estimulando que pais e filhos tenham mais tempo juntos. Isso é da cultura popular, só mudou o repertório. Hoje, os filhos são acalentados de maneira diferente, mas o gesto é eterno. O espetáculo fala de coisas novas, mas também de como é legal você descobrir coisas do passado, de tudo o que essas cantigas guardaram ao longo do tempo.

José Mauro Brant tem mais de 30 espetáculo infantis no currículo

Mas a peça vai mais a fundo e chama atenção para essa questão de pais e filhos estarem menos tempo juntos ou não tem essa pretensão?
Tem um pouco disso, sim. A babá na trama é importante por essa realidade de muitas crianças serem acalentadas por babás, e é com elas que as mães aprendem. Tem até um estudo no folclore que diz que quem inventou as cantigas de ninar foram as amas negras, de outras classes, que é o grande momento em que as classes se unem e aprendem umas com as outras. Tem cantigas mais assustadoras, porque enquanto a escrava acalenta um filho que não é dela, o dela espera na senzala para ser acalentado mais tarde. Então, a gente também faz uma grande homenagem às babás, até porque fui criado por uma e aprendi muito com ela. Tem gente que não acredita que exista mais essa figura da babá, mas existe e com o mesmo comprometimento e afetividade.

E esse é o tipo de espetáculo para pais e filhos de verdade, porque fala de canção de ninar, relações afetivas familiares…
Meu sonho é sempre fazer trabalhos para a família. Acho ruim a criança gostar, mas os pais ficarem de saco cheio. Esse é um espetáculo nível de adulto, pela qualidade musical, elenco, produção, texto… O objetivo é agradar ambos, para que saiam do teatro falando sobre a peça. Tenho certeza de que vão sair mais unidos. E as músicas têm um lado clássico, com instrumentos eruditos… Tem um encantamento para todas as idades.

No palco, têm os atores, os músicos tocando ao vivo, bonecos… É uma montagem complexa, com muitos elementos.
Esse já é o terceiro espetáculo que faço com a mesma equipe. Então, temos uma grande afinidade, o que torna as coisas mais fáceis. Agregar todos esses elementos, inclusive, foi o mais fácil, porque a peça fala de afeto, então todo mundo chegava muito amoroso, dando o máximo. Mas todos estes elementos estão a serviço da história, chegam porque têm que chegar. Não é adorno, é tudo muito necessário. É bonito e grandioso, mas também há simplicidade. E juntar tudo isso fica fácil quando se tem uma boa história para contar.

Você tem uma longa trajetória no teatro infantil. Há um motivo especial para isso ou foi natural?
Sempre gostei. Meu primeiro infantil foi em 1989. É uma missão, uma escolha, tenho atração pelo universo infantil. Antes de tudo, sou um contador de histórias, um narrador. Todo mês, estou em escolas fazendo trabalhos educativos de promoção de leitura. Acho que cada vez mais devemos incrementar essa área, que anda tão empobrecida. E esse espetáculo vem trazer esse discurso de que podemos fazer coisas de qualidade para as crianças, mesmo sem espaço para que o público saiba disso. Não existe crítica de teatro infantil nos jornais. O teatro infantil é importante porque é ele que forma a plateia de amanhã. Então, é quase um gesto político trabalhar com inteligência e seriedade, não como caça-níquel, como a maior parte dos espetáculos que vemos nos shoppings, que são apenas cópias de desenhos animados. Hoje, o teatro infantil está massacrado, asfixiado. Esse é o primeiro infantil que dirijo em 10 anos. Senti que era a hora de voltar. O que tem faltado no que se faz para crianças é inteligência e bom gosto. Queremos esse diferencial. Um trabalho bem pensando, digerido e trabalhado, com essa responsabilidade de formar plateia. Tive a sorte de frequentar teatro desde cedo, então gostaria que as pessoas também tivessem essa oportunidade.

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