‘João o Alfaiate’ é infantil que conquista pelo simples: cenário, atuação e algumas boas ideias

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia, o espetáculo “João o Alfaiate”, da companhia Etc e Tal, é repleto de boas ideias, principalmente a partir da cenografia, e tem boas atuações, com destaque para o rei.

A história traz um alfaiate que, por um acaso, mata sete moscas que pousam em seu lanche. A notícia que o alfaiate matou sete (sem o complemento “moscas”) chega ao rei, que passa a chama-lo para realizar uma serie de tarefas de grande porte para o reino. Para a surpresa do público, o alfaiate dá conta de todas as tarefas, sempre de forma muito perspicaz e inesperada.

O cenário traz uma grande caixa de costura que se desdobra em todos os ambientes da peça. Muito criativo e prático. Mas a maior criatividade, na minha opinião, está na tridimensionalidade que se cria com a utilização da pintura do cenário junto com objetos manipulados pelos atores. Por exemplo: dos rolos de linhas pintadas no painel da oficina do alfaiate saem linhas reais que são manipuladas pelo ator; do buraco pintado tanto na alfaiataria quanto no palácio do rei, sai um rato; no banco pintado no painel da alfaiataria se apoia o lanche do alfaiate. Muito interessante! E de ótimo efeito cênico!

Os figurinos de Flavio Souza respeitam a suntuosidade do ambiente real e de corte. Alfaiate, bobo da corte e rei são distintos em cores e pompa, mas todos trazem o charme dos trajes de época, e se adaptam à linguagem de cada ator (bobo da corte e alfaiate, que tem maiores partituras corporais, tem figurinos mais leves e de mais fácil locomoção, por exemplo).

Os atores completam o carisma da peça, com linguagens diferentes entre si. O bobo da corte, com movimentos mais lentos e ilustrativos, é o mais próximo do que normalmente denominamos “mímica” corporal. O alfaiate, cuja única palavra que profere é “sete”, tem também grande trabalho corporal, mais voltado para a comicidade. E o rei é o único que fala, carregando assim o espetáculo e sendo responsável pelos momentos mais engraçados.

Muito interessante também esta diferenciação de modos de atuação em acordo com os papeis de cada personagem.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.