“Isaura Garcia – O Musical”: Elementos não musicados fazem espetáculo ir além dos musicais tradicionais

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, “Isaura Garcia – O Musical” tem roupagem de musical tradicional, mas modificações sutis, quase imperceptíveis, transformam o que poderia ser uma experiência comum em algo realmente ímpar, regido pela qualidade dos atores e do texto, o que raramente se vê nos grandes musicais cariocas.

O texto de Júlio Fisher dosa muito bem evolução e clímax. Vemos a personalidade de Isaura Garcia se construindo em cenas leves e despretensiosas, e se moldando em momentos chave, os conflitos. Nestas cenas, a montagem dirigida por Jacqueline Laurence não teve medo de se alongar, deixando-as devidamente proporcionais ao que representam dentro da narrativa. Além do mais, o uso de palavrões colore o espetáculo pela veracidade e comicidade que imprimem.

Completando este quadro, os atores impõem-se em uma encenação que lhes dá espaço. Com embocadura particular, que imita sotaques e gírias, não se acanham: com texto e cenas permitindo um desenho de personagens, todos os atores se saem muito bem, criando nuances, surpreendendo o espectador, e assim tornando o “eixo não musicado” o protagonista absoluto do espetáculo. Destaque merece ser dado ao trio protagonista, Rosamaria Murtinho (que canta ao vivo lindamente, com voz única), Soraya Ravenle e Kiara Sasso.

O lado “musical americano tradicional” da montagem ralenta um pouco o espetáculo, mas nada comprometedor.
O cenário, por exemplo, é formado por um imenso painel ao fundo do palco que recebe projeções, além de inúmeros elementos que entram e saem a cada mudança de cena (e, assim, produzem cenas sobressalentes, necessárias para ocupar as transições). É bonito, mas pouco prático e sem muito diálogo com a linguagem mais naturalista que transpira do texto e das atuações. Da mesma forma, também há algo “não humano” no canto(com exceção de Rosamaria Murtinho), em algumas músicas, mas felizmente minimizado pela qualidade dos atores, especialmente Kiara Sasso.

A balança final é extremamente favorável. É um espetáculo que merece ser visto como exemplo do que podemos fazer mesmo sob a tutela da estética musical americana.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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