‘Isaac nos Mundo das Partículas’ – Didatismo, sim, mas com leveza, beleza e humor

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Assisti a um espetáculo infantojuvenil surpreendente: “ISAAC NO MUNDO DAS PARTÍCULAS”, em cartaz no Teatro OI Futuro Flamengo.

A peça é uma adaptação do livro da professora de Física ELIKA TAKIMOTO, feita, para os palcos, por JOANA LEBREIRO, que também dirige o espetáculo. A montagem tem estética inspirada no personagem Ziggy Stardust, de David Bowie.

Trata-se de um lindo e didático projeto, que une TEATROciência“rock” e tecnologia, bem ao gosto das novas gerações. Durante o período de duração da temporada, estará exposta, no térreo do OI Futuro Flamengo, uma instalação, que recebeu o nome de “Os mundos de Isaac”, dos irmãos videoartistas RICO e RENATO VILAROUCA, os quais criaram cenários virtuais, usando óculos de realidade virtual, e que criaram e executaram toda a parte de videografismo da peça.

 

SINOPSE

 

A história começa quando o protagonista ISAAC (JOÃO LUCAS ROMERO) vai à praia de Copacabana, segura um pequeníssimo grão de areia e começa a se interessar pelos mistérios universais.

GRÃO DE AREIA (CLÁUDIO MENDES) ganha vida e, na tentativa de responder a dezenas de perguntas, leva o menino para uma viagem no tempo, que começa na Grécia, em contato com os grandes filósofos Leucipo e Demócrito, e acaba no CERN, com sede em Genebra (European Organization for Nuclear Research – Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear).

Tudo isso é narrado por um enigmático personagem: a partícula subatômica BÓSON DE HIGGS (JÚLIA GORMAN), um dos mais fundamentais elementos do universo.

No elenco, também estão ANDRÉ ARTECHE e JÚLIA SHIMURA, que vivem MÚSICOS-PARTÍCULAS e CIENTISTAS.


Extraído do “release”, enviado por RACHEL ALMEIDA (RACCA COMUNICAÇÃO – ASSESSORIA DE IMPRENSA)“Todo bom cientista deve ser criativo, ter espírito investigativo e uma certa obsessão pelo desafio. Mas como será que nasce esse cientista?  Ou melhor: será que existe um cientista desses em cada um de nós?”

O espetáculo, chamado de um “musical quântico” (novamente, extraído do “release”) “trata de um tema nada fácil – a física de partículas – de maneira envolvente, divertida e informativa. O músico David Bowie e seu lendário personagem Ziggy Stardust inspiram a estética e a proposta da encenação, que propõe transformar o palco em um show de rock”.

diretora e adaptadora do livro, JOANA LEBREIRO, teve uma atitude muito corajosa, completamente oposta à que seria a minha, se estivesse em seu lugar. Confessa JOANA que “Física era uma das matérias de que menos gostava na adolescência” e, quando tomou conhecimento do livro de ELIKA, teve o interesse despertado para torná-lo uma peça para crianças e adolescentes, com o objetivo de introduzi-los nesse universo, só conhecido pelos mais velhos.

Eu, “inexplicavelmente”, odeio Física, sem nunca ter tido uma aula dessa disciplina. Justifica-se o “inexplicavelmente”? Na minha época escolar, o, então, chamado 2º Grau era dividido em dois segmentos: Científico e Clássico. Tendo optado pelo Clássico, por querer, depois, cursar a Faculdade de Letras e, também, TEATRO, jamais tive uma aula de Física, matéria que não fazia parte do currículo referente à minha opção. Conheço, apenas, o básico do básico do básico do básico… Sou quase um analfabeto no assunto. Eu disse “quase”? Fui modesto.

Eu jamais teria, como JOANA, me interessado pelo livro da ELIKA, não por sua qualidade, é óbvio, na qual creio, piamente, mas pelos motivos já, então, revelados.

Mas que bom que JOANA se sentiu provocada e nos brinda com um lindo espetáculo que, além de bonito, lúdico e alegre, cumpre seu objetivo didático, sem ser “chato”; muito pelo contrário. Não é, propriamente, para crianças pequenas. Eles entendem alguma coisa e ficam sem entender outras, entretanto o que observei, no dia em que assisti à montagem, é que elas saem do teatro muito curiosas, fazendo perguntas aos pais e demonstrando interesse por pesquisar sobre o assunto e se aprofundar nele. Isso é maravilhoso, se considerarmos que são crianças.

O livro, que deu origem à peça, surgiu em função das muitas perguntas que Yuki, o filho caçula de ELIKA TAKIMOTO, lhe fazia “seguidas de infinitos pontos de interrogação”, segundo a própria autora, à medida que ela ia contando, em casa, as suas experiências no CERNo maior laboratório de Física do mundo, onde ELIKA fizera um curso de física das partículas. Ainda é a mãe do menino quem afirma que, “na essência”, Yuki é o próprio ISAAC; ou seja, deu origem, na ficção, ao simpático e carismático personagem.

A minha sinceridade me obriga a dizer que fui assistir à peça com uma grande expectativa, em função dos nomes dos profissionais que compõem a ficha técnica do espetáculo, porém sem muita de vontade de fazê-lo, tudo pela minha implicância e quase total ignorância, com relação a um “bicho-papão”, para mim (continua sendo), chamado Física. Meus neurônios, por mais que eu tivesse atento ao texto, não colaboraram. Devem estar muito cansados, de forma que não agreguei mais tantos conhecimentos sobre a matéria, além dos parcos que levava comigo. Chegou um momento em que abandonei qualquer tentativa de apreender Física e me detive nos aspectos técnicos da montagem, um conjunto de acertos, resultando numa interessantíssima produção.

Estou falando por mim, pobre e assumido ignorante em Física, porém JOANA LEBREIRO soube encontrar, metaforicamente, uma fórmula de despertar o interesse dos pequenos pela matéria, a ponto de eles saírem bem satisfeitos da peça, como pude apurar, entre alguns com os quais conversei. Todos disseram ter entendido o que viram e ouviram e que gostaram muito da peça, o que é um bom sinal, porque criança não mente; pelo menos com relação a TEATRO. Quando gostam, aplaudem; quando não gostam, vaiam. Todos aplaudiramE eles são o público-alvo.

Não conheço o livro e, provavelmente, não o conhecerei, mas confio no acerto da adaptação, feito por JOANA. O que sei, sobre ele, é que ELIKA também encontrou uma maneira simples de explicar, ao filho pequeno e a todos os seus leitores, os mistérios da Física (das partículas), sobre os quais ela mesma se encarregava de fazer seus questionamentos.

direção de JOANA LEBREIRO também facilita, aos pequenos espectadores, a assimilação dos conceitos, principalmente pela utilização dos apelos para o visual (estéticos) e a música. Transpor o material do livro, para um palco, sob a forma de um musical foi uma jogada de mestre.

Enganam-se, redondamente, os que ainda pensam que, “se é para criança, qualquer coisa serve”Estupidez total!!! A criança, além de merecer todo o nosso respeito, porque é um ser humano e será o público do futuro, é muito exigente e sincera. Na sua ingenuidade, ela sabe distinguir o joio do trigo. Ela sabe reconhecer o que é bom, o que tem valor. Nesse sentido, aplaudo, de pé, a escalação do time que entrou em campo, nesta peça, do elenco a todos os criadores e técnicos. São eles, além do texto e da direção, que fazem deste “ISAAC…” um espetáculo digno de abrir o ano teatral infantojuvenil de 2018, no Rio de Janeiro, com o pé direito.

No elenco, não há falhas; há, sim, apenas alguns pequenos destaques, o que, no total, nos faz atribuir a ele adjetivos, como competentecoesoniveladoamalgamadoengajado (na proposta), produzindo um excelente resultado final.

protagonistaJOÃO LUCAS ROMERO (ISAAC), já teve várias oportunidades de mostrar seu talento, em trabalhos para crianças, e, aqui, só faz ratificar essa qualidade. Carisma é algo indispensável, para um ator agradar aos petizes, e isso JOÃO tem de sobra. Excelente trabalho!

CLÁUDIO MENDES, grande ator, acostumado a ser visto em ótimos trabalhos “para adultos”, como no recente e excelente “AGOSTO”, por exemplo, aqui, na pele de ARGO, o GRÃO DE AREIA, brinca com o texto e as situações, caindo no gosto das crianças, por saírem de sua boca algumas das falas que provocam humor no espetáculo. É muito bom o seu trabalho!

Se tivermos de apontar um destaque, aplicado ao canto, neste musical, ele vai para JÚLIA GORMAN, que sola a maioria das canções, com uma linda e potente voz, além de narrar boa parte da história e atuar com correção.

Em papéis de menor destaque, na trama, porém de excelente qualidade profissional, estão ANDRÉ ARTECHE e JÚLIA SHIMURA, os dois MÚSICOS-PARTÍCULAS e CIENTISTAS, que dão sustento aos arranjos vocais em grupo, mas também têm seus momentos solo e funcionam muito bem, atuando.

Agradou-me muito a opção de NATÁLIA LANA, por um cenário simples, dispensando o luxo e as peças de grandes dimensões – até porque o palco do OI Futuro Flamengo é bem pequeno –, limitando-o a um praticável, ao fundo, sobre o qual se instala a banda, formada por ARTECHE, GORMAN e SHIMURA, liberando o resto do palco, do centro ao proscênio, para as ações de ISAAC e ARGO. Além disso, apenas duas tapadeiras e duas colunas laterais, feitas de tiras de elástico largo, esticado, do teto ao chão (foi a impressão que tive) branco, assimilando todas as cores, fartamente utilizadas por PAULO CÉSAR MEDEIROS, no seu belo projeto de iluminação, que colabora bastante para a beleza estética da peça.

BRUNO PERLATTO, acertadamente, criou interessantes figurinos, seguindo uma linha meio futurista e psicodélica, para os personagens de ANDRÉ ARTECHE e as duas atrizes / instrumentistas / cantorasJÚLIA GORMAN e JÚLIA SHIMURA. Para ISAAC, ficou nos trajes do dia a dia de um menino. Abusou da criatividade e da brincadeira para o difícil, indecifrável (no bom sentido) e exótico traje de ARGO. Como vestir um GRÃO DE AREIABRUNO sabe.

Antes de pôr em evidência os dois pontos altos do espetáculo, a trilha sonora e o videografismo, quero registrar os ótimos trabalhos dos maquiadores DIEGO NARDES, DIVA CORREIA e LUCAS SOUZA; o visagismo, assinado por DUOELO VISAGISMO; e a direção de movimento e as coreografias, de BRUNO CEZÁRIO.

Este bolo não tem apenas uma cereja. São duas: uma, para ser saboreada durante o espetáculo, e outra idem, mas que, também, nos acompanha no caminho de casa.

A primeira é o magnífico trabalho de videografismo, criado pelos mais competentes profissionais do ramo, que eu conheço. Há outros profissionais, atuando, também de comprovada competência, mas me vejo na obrigação de elevar os nomes dos irmãos RICO e RENATO VILAROUCA ao mais alto patamar de sucesso e competência. As imagens garimpadas pela dupla e as criadas por eles são belíssimas e ilustrativas, colaborando para a pronta assimilação dos conhecimentos transmitidos. Uma pérola de trabalho!!!

A segunda diz respeito à parte musical, começando pela excelente trilha original, que comporta 10 ótimas canções, com letras de JOANA LEBREIRO e melodias de RICCO VIANA, também responsável pela ótima direção musical, estendendo-se à perfeita execução das canções. O público sai do teatro com trechos de algumas delas na cabeça, aquilo que, popularmente, é chamado de “música chiclete” só que no bom sentido São fáceis de serem assimiladas e as letras contêm informações, as quais, mais facilmente são captadas pelo pequenos público.

“ISAAC NO MUNDO DAS PARTÍCULAS” é daqueles espetáculos infantojuvenis que encantam as crianças, de todas as idades, incluindo os adultos que se propuserem a libertar sua porção guri.

É um espetáculo que dignifica o teatro infantojuvenil, por ter sido criado por um grupo, dedicado e competente, de profissionais, exigentes consigo mesmos, visando a oferecer um produto de primeiríssima qualidade, como é este musical, o qual eu recomendo com o maior empenho.

VIDA LONGA A “ISAAC NO MUNDO DAS PARTÍCULAS”!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

DIVULGUEM O TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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