‘Irmãozinho Querido’ – Uma bela metalinguagem do teatro pelo teatro

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Um nome respeitado, no TEATRO brasileiro, como tradutorautor teatraldiretorcrítico teatral e roteirista do cinema e da TVFLAVIO MARINHO chega aos 31 anos de atividades artísticas, com um longo e representativo currículo, assinando o texto e a direção do espetáculo “IRMÃOZINHO QUERIDO”, em cartaz no Teatro SESC Ginástico (VER SERVIÇO.), que já vem colhendo as melhores considerações, por parte da crítica e do público, o que é mais importante.

peça é apresentada, no SERVIÇO, como uma comédia, gênero que contém, por excelência, implicitamente, críticas, pessoais e sociais. Quando, porém, em grande quantidade, desembocando num final que flerta, ainda que de leve, com o cheiro de tragédia, a classificação genérica do texto poderia ser rotulada como uma tragicomédia, talvez o que melhor coubesse ao espetáculo em tela. Nem tanto, mas não devemos desprezar os versos do grande poeta e compositor Billy Blanco“O que dá pra rir dá pra chorar / Questão só de peso e medida”.

 

SINOPSE

 

LÉO (LEONARDO FRANCO) e RAUL (MARCOS BREDA) são dois irmãos bem diferentes: LÉO é  divorciado, ator e autor de TEATRO, talentoso, inteligente, autocentrado e bem sucedido. RAUL é casado, pai de dois filhos, dono de uma cadeia de lojas de eletrodomésticos (“ROBERTÃO”, se não me equivoco), um sujeito generoso e solidário.

O relacionamento entre os dois, que já não era saudável, se complica,  quando RAUL descobre que LÉO está ensaiando uma peça, intitulada, justamente, “IRMÃOZINHO QUERIDO”.

RAUL não gosta nada da ideia, uma vez que não queria ter sua vida devassada no palco, como acontecera, dez anos atrás, quando da encenação de outro texto de LÉO, intitulado “Família Pouco Família”, no qual a intimidade da família de ambos era exposta, publicamente, com todas as suas mazelas, o que gerou o rompimento dos dois e seu afastamento por uma década.

Disposto a impedir a realização da peçaRAUL invade o ensaio, para um ajuste de contas com o irmão, que, por sua vez, está determinado a seguir em frente.

No meio da contenda familiar, sem ter nada a ver com o problema entre os irmãos, está a diretora MUNIZ (ALICE BORGES), que acaba virando, involuntariamente, juíza de um embate, repleto de lembranças e antigos ressentimentos.

“IRMÃOZINHO QUERIDO” é uma comédia que passeia pelas contradições, amor e rivalidade da relação entre irmãos.


Num breve esforço de memória, tentando me lembrar de todos os textos teatrais anteriores, escritos por FLAVIO MARINHO, acredito ser este o meu favorito, aquele no qual, a meu ver, ele consegue mergulhar mais fundo numa temática, por demais, interessante e que desperta a atenção de qualquer pessoa, tenha ela um irmão ou não.

A literatura universal está cheia de exemplos de histórias em que o foco recai sobre a rivalidade entre irmãos, a começar pelo bíblico episódio do assassinato de Abel, por seu irmão Caim, primogênito de Adão e Eva. E de onde pode surgir essa rivalidade? Qual a sua origem e que proporções ela pode atingir? E suas consequências?

texto desta peça, do início ao fim, destaca um embate fraterno acerca de acusações mútuas de quem era o preferido do pai ou da mãe, acarretando uma sombra para o outro. Até que ponto essas acusações são procedentes? Os exemplos e “justificativas” apresentados por LÉO e RAUL existiram, de verdade, ou servem como “muletas”, para responsabilizar alguém por possíveis fracassos e perdas?

Com muita sabedoria, FLAVIO põe em xeque, e testa, passando aos espectadores tal função, os limites tênues entre o exercício da fraternidade e da rivalidade. O autor/diretor provoca, em quem assiste ao espetáculo, um constante questionamento a respeito do papel de um irmão na vida de cada um. “A partir da rivalidade entre irmãos, a peça fala, através de um olhar bem-humorado e amoroso,  sobre o limite tênue que separa a verdade da mentira e de como a passagem do tempo atua sobre nossas lembranças” (extraído do “release”, envidado por JOÃO PONTES e STELLA STEPHANY – JSPONTES COMUNICAÇÃO).

Com um texto descomplicado, que flui com muita facilidade, utilizando diálogos ágeis e provocativos, tocando no âmago do espectador, FLAVIO não perde a oportunidade de, também, provocar uma discussão sobre até que ponto uma pessoa pode invadir a privacidade de outrem, apropriando-se de sua vida, de detalhes íntimos, em nome de uma criação artística.

De forma inteligente e simples, o texto mostra o óbvio, que sempre pode ser retomado, sem cair na mesmice. Refiro-me à difícil arte de viver, de se relacionar, num grupo social, seja entre irmãos, como na peça, seja entre pais e filhos, amantes, amigos, colegas de trabalho… “Viver é perigoso”, já dizia Guimarães Rosa, e a peça ratifica isso.

Neste ótimo textoFLAVIO, dentro da metalinguagem eleita, abusa, no melhor sentido da palavra, de referências ao universo do TEATRO brasileiro, algumas delas captadas somente por quem transita por esse “métier”, mas a plateia acompanha as gargalhadas de quem entendeu ou se identificou com tais referências. E ainda presta uma linda homenagem a um dos nomes mais representativos do nosso TEATRO, a atriz e diretora, falecida em 2004Myrian Muniz, ao batizar uma personagem da peça, a diretora teatral, vivida por ALICE BORGES, com seu inesquecível e consagrado nome.

FLAVIO MARINHO acerta no texto e na direção, esta bem leve, deixando os atores muito à vontade, num clima de representação bem naturalista. Tudo em cena soa real, dentro de um ensaio de uma peça, interrompido por alguém, um estranho ao meio, que não deveria estar ali, naquele instante, muito menos pelo propósito da “visita”, de “impor uma censura” e de “lavar roupa suja”, provocando um desfile de mágoas, acusações e ressentimentos.

Dentro da proposta de encenaçãoFLAVIO, que também assina a ambientação cenográfica, optou, muito acertadamente, por manter o palco nu, “no osso”, sem rotunda e tapadeiras, deixando à mostra a geografia cênica que não é, habitualmente, revelada à plateia, incluindo um detalhe interessantíssimo da cena final, que não revelo, para não dar “spoiller”. Como objetos cenográficos, estes se resumem à presença de três cadeiras, uma das quais no modelo “diretor” (mais para cinema); quatro refletores, apoiados em tripés; um pequeno móvel, um aparador, sobre o qual estão café, biscoitos e outros objetos; uma arara, com algumas peças de roupas, quase não utilizadas em cena; e uma escada alta, aberta, pronta a ser utilizada, o que não acontece, porém; é apenas um elemento decorativo para a ambientação.

Os figurinos, definidos por NEY MADEIRA, vestem, harmoniosamente, os três personagens, seguindo-lhes as características.

PAULO CESAR MEDEIROS assina mais uma de suas acertadas iluminações.

Contribuem, também, para o acerto desta montagem, os trabalhos de ÂNGELA DE CASTRO, na preparação vocal, ainda FLAVIO MARINHO, na escolha da trilha sonora, e BETO CARRAMANHOS, responsável pelo visagismo.

Reservo o destaque final para o excelente trio de atores que dão vida aos personagens, cada um ratificando seu já reconhecido talento, em carreiras de grande sucesso.

ALICE BORGES, que estreou, ainda criança, em 1977 e já atuou em 34 peças, além de trabalhos para o cinema e a TV, é dona de uma veia cômica que sempre funcionou bem em qualquer personagem que já viveu. Aqui, não é diferente. Sua MUNIZ consegue arrancar gargalhadas do público, até quando trata de seus problemas familiares, com os filhos pequenos e uma certa Ingrid, talvez sua assistente ou produtora, numa outra direção teatral, uma peça infantil, os quais vivem ligando para ela, atrapalhando o ensaio e levando-lhe mais e mais problemas. Sua personagem faz um contraponto com a dureza imposta pelos dois irmãos, em seus textos, se bem que RAUL, o personagem de BREDA, este com quase 40 anos de carreira, dedicados ao TEATRO, ao cinema e à TV, também consegue nos fazer rir, talvez mais de nervoso, pelo patético de suas intervenções e exigências e, também, quando sua vida conjugal é trazida à tona. LEONARDO, com mais de 30 anos de carreira, como seus dois colegas de palco, atuando no TEATRO, no cinema e na TV, também nos diverte bastante, por sua dose de ironia e sarcasmo, diante da tentativa de imposição, por parte de RAUL, de embargar aquela montagem. Ambos se saem incrivelmente bem e eu seria leviano, se incensasse mais um do que os outros. Estou falando de um trio de atores premiadíssimos, cujos trabalhos, no espetáculo ora analisado, estão no mesmo excelente nível de interpretação, um elemento enriquecedor da peça.

“IRMÃOZINHO QUERIDO” é um espetáculo que pode tocar em feridas, mas é bem divertido e provoca uma reflexão no público. Tenho a certeza de que muitos deixam o Teatro SESC Ginástico com a determinação de reatar laços fraternais, de abrir seus corações e resgatar uma história de amor por um irmão, perdido no tempo e tão importante para qualquer pessoa.

Trata-se de um espetáculo que vale muito a pena ser visto, recomendação que faço com o maior prazer, por seu merecimento e pelo que ele pode trazer de construtivo para o espectador.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvida, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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