Inspirada em memórias do autor, ‘Alice Mandou um Beijo’ estreia tratando de família: ‘Não é comercial de margarina’

Luiz Maurício Monteiro

O espetáculo retrata um ambiente familiar modificado após a morte da caçula Fotos: Danilo Sabino/Divulgação

Nas propagandas de TV, pessoas sentadas ao redor de uma mesa trocando sorrisos e gentilezas. Já na vida real, uma realidade um pouco diferente, uma vez que, assim como em qualquer outro ambiente de relações humanas, diferenças e problemas ali existem. É justamente o vão entre estes dois cenários que o drama “Alice Mandou um Beijo” volta a retratar na nova temporada que começa nessa quarta-feira (17), às 19h, no Teatro Dulcina, no Centro. E a fonte de inspiração para tal abordagem é das mais reais: as memórias de infância do próprio autor e diretor Rodrigo Portella.

Em entrevista ao RIO ENCENA, Portella relembrou sua infância em Três Rios, no Centro-Sul Fluminense, onde vivia com alguns parentes numa casa antiga, inclusive seus pais, muito pobres na época. Após a morte de sua avó, conta ele, aquela sensação de perfeita harmonia deu lugar a um racha na família a respeito da venda do imóvel, o que fez com que sua família e sua visão sobre família nunca mais fossem as mesmas.

Portella assina também a direção Foto: Renato Mangolin/Divulgação

— Acho que não é aquele universo familiar da campanha de margarina. Essa utopia está mais no imaginário da população. Aos poucos, a gente se dá conta que essa família é feita por pessoas com problemas iguais aos nossos. E a peça fala da delicadeza dessas relações familiares. Acho que minha família é igual a tantas outras por aí — opina Portella, recordando uma cena marcante no episódio da casa: — Vi um tio meu, que achava maravilhoso, dar um tapa no meu pai. Meu mundo virou de cabeça para baixo.

Além desta dose de realidade, “Alice”, uma montagem da Cia. Cortejo, carrega algumas pitadas de ficção. Entre elas, o nome da protagonista, uma referência a “Alice no País das Maravilhas”, e a forma como o comportamento e a rotina dos demais familiares mudam após seu falecimento. Recorrer ao lúdico, aliás, ajudou Rodrigo Portella a não fazer da peça uma terapia.

— Penso que o dramaturgo trabalha com a memória como matéria prima. Mas quando se trabalha com algo que se viveu, algo tão particular, separar as coisas fica mais difícil. Com “Alice”, aconteceu um desejo quase terapêutico de colocar minhas questões ali. Mas algumas coisas guardei para mim, porque aquilo é uma peça de teatro, algo que precisa fazer as pessoas refletirem e se identificarem — pondera.

A montagem é da Cia. Cortejo

Mas e depois de tantas decepções, ainda é possível acreditar na instituição família? Portella acredita que sim, desde que não se fantasie a “família perfeita”.

— Ainda confio na instituição. Existem as situações que você não quer passar ou sentir, mas faz parte. É a sua raiz e a sua origem que estão ali. Só não acredito na obrigação de ter uma relação sempre positiva. Por exemplo, só porque tenho um primo, preciso tratar sempre bem, independentemente de qualquer coisa? Mas pode haver a afinidade, sim. Família é um lugar que de alguma forma, por mais que seja difícil, é ali que que está a sua origem — encerra.

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