Infantil sobre vida e obra de Milton Nascimento estreia na Gávea e autor exalta mensagem: ‘Todos somos iguais’

Luiz Maurício Monteiro

“Bituca” conta os preconceitos que Milton sofreu na infância por ser negro adotado por uma família de brancos

Entre simplesmente divertir e/ou contar uma história, “Bituca – Milton Nascimento para Crianças”, infantil sobre o cantor e compositor carioca, prefere ir além. Com estreia marcada para este sábado (05), às 17h, no Teatro dos Quatro, na Gávea, a terceira peça do projeto Grandes Músicos Para Pequenos quer – assim como os antecessores ‘Luiz e Nazinha – Luiz Gonzaga para Crianças’ (2013) e ‘O Menino das Marchinhas – Braguinha para Crianças” (2016) – apresentar a obra de um grande artista brasileiro ao público mirim e também passar uma mensagem construtiva baseada em sua vida. No caso desta produção mais recente, o assunto é igualdade.

Entre o real e o fictício, a peça mostra o bebê Milton ficando órfão aos dois anos de idade e sendo adotado pelos patrões de sua avó, que eram brancos. Ao chegar a Minas Gerais, o menino, que ganhou o apelido de Bituca, passa a ser alvo de atos preconceituosos por fazer parte de uma família de cor diferente da sua. E é aí que entra uma das propostas da montagem.

– “Bituca” tem isso, de mostrar que as pessoas são iguais, ninguém é melhor do que ninguém. Branco, negro… Todos somos iguais – ressalta o autor e ator Pedro Henrique Lopes, que está repetindo pela terceira vez uma parceria com o diretor Diego Morais.

Os dois são os mentores do Grandes Músicos Para Pequenos, que como o nome já deixa claro, busca também resgatar perante a criançada a obra de artistas muito populares entre as gerações mais velhas. Essa valorização da cultura nacional, aliás, poderia ser mais explorada no teatro infantil carioca, na visão de Pedro Henrique.

– O teatro pode ser um lugar de aproximar a criança da nossa cultura, e não apenas apresentar uma Branca de Neve que ela já vê em casa. Não tiro o mérito, sei da importância dos contos de fada, mas só pela questão financeira, isso não engrandece o teatro, não gera conteúdo novo para a criança – opina o são gonçalense de 30 anos, que recentemente trabalhou num musical adulto: “Vamp, o Musical”.

Confira abaixo a entrevista completa que Pedro Henrique deu ao RIO ENCENA. Só não é recomendável curiosidade quanto às próximas empreitadas do projeto, já que sobre essa questão, ele preferiu ser econômico nas palavras.

A grande sacada das peças do projeto Grandes Músicos Para Pequenos é contar a vida do personagem, mas sempre o apresentando na infância?
Sim, questão de identificação. Mas colocamos tudo o que julgamos importante da vida do artista. Não são espetáculos biográficos, nós pegamos recortes e criamos uma história que consiga apresentar a essência do cantor, um pouco da realidade que ele viveu. Por exemplo, no “Luiz e Nazinha”, pegamos um amor impossível, que ele não viveu com oito anos, mas com uns 16. Trouxemos também a questão da falta d’água no Nordeste, algo que permeou a vida dele toda. No caso do Braguinha, ele quando virou músico de verdade, não queria misturar vida de artista com a de estudante. Aquilo não acontece na infância, mas a gente puxa por essa questão para provocar identificação na criança, porque o pai era contra a carreira na música…

Pedro (E) é um dos idealizadores projeto Grandes Músicos Para crianças Foto: Andrea Rocha/ZBR1/Divulgação

E no caso do Milton Nascimento, qual foi o grande gancho?
“Bituca” começa com ele bebê, porque a história é sobre adoção. Tem a questão da identidade racial, do preconceito que vem porque ele é negro e acaba adotado por brancos. Então, a peça começa no momento em que ele conhece a mãe adotiva, e é a partir desse recorte da adoção, da inserção negra numa família branca, que a gente constrói nosso Milton, inspirado no Milton de verdade, mas não necessariamente sendo a mesma pessoa.

As peças falam da vida destes artistas, mas também da obra. Acha que falta um número maior de infantis que falem sobre as coisas do Brasil no teatro?
Acho que há espaço para todo mundo. Eu mesmo já trabalhei na Disney… Sou criado pela Disney (risos). Mas acho que o movimento tem que ser o de resgatar nossa cultura. Não se deve fechar para o quê vem de fora, porque na minha opinião nem deveria existir divisão entre países. Mas para coisas muito globalizadas, o acesso já é grande na Internet, no cinema… Então o teatro pode ser um lugar de aproximar a criança da nossa cultura, e não apenas apresentar uma Branca de Neve que ela já vê em casa. Não tiro o mérito, sei da importância dos contos de fada, mas só pela questão financeira, isso não engrandece o teatro, não gera conteúdo novo para a criança. Quando fizemos “Luiz e Nazinha”, poderia ter até virado filme e ser exportado, pela forma como contamos a história dele. Mas quando você pega “Frozen” e só transforma… Quando vai mais pelo lucro do que pelo engrandecimento artístico do Brasil, é ruim. Essa é só uma ressalva (risos).

Sobre o projeto, qual é o critério que vocês usam para escolher os homenageados?
O projeto, na verdade, começou por acaso. “Luiz e Nazinha” seria independente e não parte de um projeto. Queríamos fazer parte das homenagens pelo centenário dele (comemorado em 2012). O Diego é pernambucano, tem a obra do Gonzaga presente na infância dele, e nós no Rio não temos tanto. Então achamos que seria interessante levar isso para crianças, que às vezes conhecem a música, mas não sabem de quem é. E o projeto tem essa proposta também. Depois, com o Braguinha, queríamos algo mais do Rio, e ele era um carioca da gema, com presença forte no Carnaval. Quisemos mostrar para as crianças um pouco do Rio antigo, os bailes dos anos 20, para elas entenderem melhor essa época. Já o Milton é porque nós adoramos e também queríamos falar de adoção, preconceito… Que, aliás, é algo que precisamos falar cada vez mais. Além da força dele, essa é uma proposta importante para a gente tentar criar melhores cidadãos, fazer a criança ser melhor a partir de agora. Porque “Bituca” tem isso, de mostrar que as pessoas são iguais, ninguém é melhor do que ninguém. Branco, negro… Todos somos iguais. Na Zona sul, a criança acaba crescendo numa bolha, achando que todos os negros são babás, porteiros… Eles não entendem a inserção do negro na sociedade. Infelizmente, ainda existe essa divisão no Brasil, e muito no Rio. Então essa é uma forma de mostrar para a criança, já desde pequena, que não existe diferença pela cor da pele.

E já existe um favorito para a próxima montagem?
Já temos quatro. Mas não posso adiantar porque ainda estamos conversando sobre questões de direitos… Na verdade, são três. É que um dos espetáculos será sobre uma dupla. Já é uma dica (risos).

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