Hugo Bonemer estreia peça sobre intolerância e explica por quê se assumiu gay: ‘É indiferente se o mundo sabe’

Luiz Maurício Monteiro

Hugo (D) e Daniel encenam quatro situações sobre diferenças e convivência pacífica Fotos: Cadu Silva/Divulgação

A Casa de Cultura Laura Alvim abriu suas portas nesta sexta-feira (15) para receber a estreia da nova temporada do espetáculo “Frames, Nossa Diferença Liberta”. No palco, são encenadas quatro histórias que tratam de intolerância, preconceito e desentendimentos entre as pessoas, questões com as quais um dos atores se identifica intimamente. No último mês de março, Hugo Bonemer – que contracena com Daniel Rocha – se assumiu gay e depois tornou públicas situações constrangedoras com as quais sempre conviveu devido à homossexulidade.

Em entrevista ao RIO ENCENA, o ator, que tem no currículo trabalhos como “Hair”, “Rock in Rio – O Musical”, “Yank” e “Ayrton Senna, o Musical”, explicou que a decisão de assumir a sua estrutura biológica – termo usado por ele próprio – foi consequência de um estado de espírito.

— Quando você decide que não quer mais mentir, que está em em paz consigo mesmo, que está tudo certo com você, apesar de ter ouvido a vida toda que sua existência está errada, é indiferente se uma pessoa sabe ou o mundo sabe, através da mídia. Vão dizer “mas o mundo todo sabe que você é viado”. Ok, não estou nem aí — reforça Hugo, opinando que a intolerância na sociedade atual, apesar dos avanços da humanidade, não é menor em relação a épocas passadas: — Nesta geração, pode se fazer tudo, desde que eu não seja em público. Nossa geração fala: “você está maluco?!”. Por isso, acho que tem intolerância. Nossos pais e avós conheceram bem menos pessoas do que a gente. Não tinha internet, não tinha esta quantidade de informações que temos. Então, para eles é surreal imaginar tanta gente diferente. Mas não é o caso desta nossa geração.

A experiência de vida do ator, inclusive, rendeu uma história a mais ao espetáculo, que quando estreou em 2009, tinha apenas três. Após ler o texto, ele conversou com o autor Franz Keppler sobre a inclusão de temas mais atuais. Daí, surgiu o novo recorte que tem inspiração no atentado à boate gay Pulse em Orlando (EUA), em 2016, e em conteúdos que Hugo tem consumido mais nos últimos tempos.

— Esta cena é sobre a convivência pacífica entre dois amigos, um hétero e um gay. Vi um filme recentemente que tinha uma situação assim — relembra Hugo, completando: — Vi outro filme que mostrava que sexualidade é uma descoberta e não uma construção. Mas isso está longe de ser entendido pela sociedade. Tentamos explicar, mas quem tem estrutura biológica diferente, nunca vai entender. Eu, por exemplo, não brincava de boneca. Só tinha bonecos da coleção Comandos em Ação. Mas todos os meus bonecos namoravam, formavam casais (risos). Só quando digo isso, as pessoas começam a entender a estrutura biológica.  Mas é possível conviver legal.

Uma das histórias encenadas entrou no texto por sugestão do próprio Hugo

Aliás, esta convivência pacífica entre pessoas de ideias diferentes é uma das principais bandeiras levantadas por “Frames”, que tem direção da dupla Camila Gama e Sandro Pamponet. O espetáculo retrata intolerância e preconceito, mas sempre pontuando uma coexistência leve, com afeto e amor, independentemente de divergências. Apesar da proposta que pouco bate com a realidade, porém, Hugo não vê a peça como uma utopia.

— Estamos longe dessa convivência pacífica, mas não é uma utopia. Vivemos num país polarizado por ideologias políticas. Você não pode ficar no meio do caminho, porque tem que ser “petralha” ou “coxinha”. Numa das histórias da peça, duas mulheres estão num engarrafamento indo para um aeroporto. Uma quer alcançar o amor da vida dela que está embarcando com outra. E a segunda precisa resolver uma questão financeira. São urgências diferentes! Apesar disso, elas entram num acordo, pegam um carro só e vão na contramão, porque uma urgência não precisa anular outra. É uma solução moral que elas têm. Não é uma solução ética, porque não queremos cagar regras, mas, sim, explorar as possibilidades de entendimento. Por isso, não acho que seja utopia — explica.

Diante deste desejo de uma convivência mais afetuosa para a sociedade, Hugo revela que reflexões a equipe torce para que o espetáculo leve aos espectadores.

— A gente espera que o público passe 55 minutos de bons momentos e saia querendo viver a vida com mais afeto e entendimento — encerra.

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