‘Hamlet’ – Um Shakespeare instigante e atemporal numa leitura arrojada

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Arte milenar, o TEATRO precisa se renovar sempre, reinventar-se, sem se afastar de suas origens.

Gosto de ver grandes desafios, no TEATRO, que fujam da mesmice, mas que não sejam propostas absurdas, sem sentido; e que possam conduzir o público por labirintos cheios de surpresas; agradáveis, de preferência. Parece que eu e a ARMAZÉM COMPANHIA DE TEATRO pensamos parecido. Sim, pensamos!!!

A mais recente produção daquela gente, que sabe fazer TEATRO como poucos, neste país, está em cartaz, no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB)Rio de Janeiro e é, nada mais, nada menos que uma versão ousada de um dos maiores clássicos da literatura dramática universal, um ícone do TEATRO: “HAMLET”, de Shakespeare. A montagem marca os 30 anos de fundação da COMPANHIA. 

                                                                                                          SINOPSE           

Tudo tem início quando o jovem Príncipe da DinamarcaHAMLET (PATRÍCIA SELONK), recém-chegado de seus estudos universitários, na Inglaterra, lamenta a morte súbita de seu pai, assassinado.

Logo após essa morte, GERTRUDE (ISABEL PACHECO), a Rainha da Dinamarca, mãe de HAMLET, casa-se com CLAUDIUS (RICARDO MARTINS), seu cunhado,  irmão do falecido. Com isso, CLAUDIUS assumiu o trono do Rei morto.

HAMLET sofre muito, pela morte do pai, ao mesmo tempo que fica indignado com o precoce novo matrimônio da mãe.

Atormentado, o Príncipe, pelos guardas do castelo, fica sabendo que o fantasma de seu pai estaria rondando o local, o Castelo de Elsinore, durante a noite, na tentativa de falar com o filho. Decide, então, ir ao encontro do espectro, e ouve, de sua boca, uma terrível revelação: a de que o novo Rei, seu tio, havia matado o irmão, derramando-lhe veneno no ouvido, e casado com a cunhada. Não fica claro se a Rainha sabia do assassinato ou não, o que, talvez, não fizesse tanta diferença. O Príncipe, revoltado, jura vingança.

HAMLET passa a assumir o comportamento de louco, para despistar seus inimigos, passando a impressão de ser inofensivo ao novo Rei.

Preocupados e buscando entender se a loucura do rapaz é fingimento ou realidade, o Rei e a Rainha recorrem a POLONIUS (MARCOS MARTINS), um conselheiro da corte. Este acredita que a causa da loucura do Príncipe seja o amor, não correspondido, por sua bela filha OFÉLIA (LISA FÁVERO), e convence a moça a conversar com HAMLET, enquanto ficariam, POLÔNIUS e CLAUDIUS, escondidos, ouvindo a conversa.

HAMLET, porém, rejeita a ideia de casamento e destrata OFÉLIA, sugerindo que a moça procurasse viver num convento. Ele, na verdade, não tinha certeza de seu amor por ela, uma vez que alternava, com relação à pretendente, demonstrações de profundo afeto e de rejeição, e o momento era só de viver e planejar uma vingança.

A insegurança do Príncipe se estendia ao fato de o fantasma ser, realmente, de seu pai e que fosse verdade o que o espectro lhe tinha contado.

Para ter certeza daquela revelação macabra, arma um plano. Convida uma trupe de atores, para apresentar uma peça no castelo, na qual haveria uma cena em que um usurpador envenenaria seu irmão e se casaria com sua cunhada. A arte imitando, quem sabe, a vida. Queria testar a reação do tio.

Quando a cena do assassinato acontece, o Rei revolta-se e deixa a sala, o que, para o vingativo HAMLET, é a prova de que precisava, para ter a certeza do que acontecera na sua ausência.

GERTRUDE chama o filho aos seus aposentos, exigindo explicações pelo seu comportamento. No caminho, HAMLET flagra CLAUDIUS rezando, sozinho, e decide concretizar sua vingança, mas desiste de fazê-lo, por medo de que o Rei vá direto para o céu, por morrer durante a reza.

HAMLET discute, violentamente, com a mãe, enquanto POLONIUS escuta tudo por trás da cortina. Percebendo a presença de uma terceira pessoa naquele aposento, HAMLET pensa ser o Rei traidor e assassina, por engano, o Conselheiro.

Essa morte faz com que o CLAUDIUS passe a temer HAMLET, pois percebe que ele seria capaz de matá-lo também. Para salvaguardar a própria vida, envia, então, o Príncipe, novamente, à Inglaterra, supostamente em uma missão diplomática, acompanhado por dois amigos de infância, do rapaz, ROSECRANTZ (LUIZ FELIPE LEPREVOST) e GUILDENSTERN (JOPA MOARES), que seguiam suas ordens, para que, quando chegassem ao destino, entregassem o jovem às autoridades locais, para ser executado.

Sagaz, HAMLET percebe a trama e troca as cartas, enviando os amigos traidores à morte, na Inglaterra, em seu lugar.

Enquanto isso, OFÉLIA sofre tanto com a rejeição de HAMLET e a morte violenta do pai, que enlouquece, caminhando, sem rumo, pelo castelo, cantando e declamando poemas.

Seu irmão mais velho, LAERTES (JOPA MORAES), retorna da França e fica horrorizado, ao deparar-se com a irmã louca e o pai morto, e vai falar com o Rei, para cobrar-lhe explicações.

Nessa hora, CLAUDIUS vê a oportunidade perfeita para resolver dois problemas: aplacar a fúria de LAERTES e livrar-se de HAMLET, sem sujar as próprias mãos. Sugere ao ofendido e infeliz LAERTES que desafie HAMLET para um duelo, sabedor de que aquele era um ás, com a espada.

A ideia é aceita, prontamente, e CLAUDIUS ainda acrescenta que colocaria veneno, na ponta da espada, para tornar a morte de HAMLET certa. Enquanto confabulam, a Rainha adentra, desesperada, comunicando que Ofélia se suicidara, afogando-se.

O clímax da história começa com o duelo entre LAERTES e HAMLET. O Rei acredita, piamente, que aquele derrotará este, facilmente, mas, por via das dúvidas, para garantir seu intento, traz um cálice de vinho envenenado, para oferecer ao Príncipe, antes da luta, entretanto, a Rainha adianta-se e decide brindar à saúde de seu filho, bebendo um pouco do veneno.

HAMLET também é envenenado pela lâmina de LAERTES, porém, antes de morrer, fere, mortalmente, seu rival, com a mesma espada envenenada, que fora trocada, acidentalmente, durante a contenda.

Fazendo as pazes com o Príncipe, LAERTES, antes do suspiro final, revela-lhe as tramas assassinas de CLAUDIUS, a quem HAMLET obriga que beba o resto do vinho envenenado.

O castelo é invadido por Fortinbras, o príncipe da Noruega, país com o qual a Dinamarca estava em guerra, e este fica chocado com toda aquela destruição.

Resta a HORACIUS (LUIZ FELIPE LEPREVOST), amigo de HAMLET, que sobreviveu à tragédia, narrar a trágica história do Príncipe da Dinamarca.

Notadamente conhecida, no meio teatral e pelos amantes do TEATRO, por desenvolver processos baseados numa dramaturgia própria ou calcada em ótimas adaptações, algumas mais próximas aos originais, outras mais livres, detentora de tantos prêmios, dos mais importantes no país e, também, no exterior, desta vez, a ARMAZÉM COMPANHIA DE TEATRO nos sacode, na plateia, com uma versão atemporal e criativa, uma leitura bastante arrojada de “HAMLET”, trazendo, inclusive, no papel do protagonista, que é um rapaz, uma mulher, PATRÍCIA SELONK, com a idade bem acima do jovem HAMLET, o primeiro indício de que o diretor, PAULO DE MORAES, não estava preocupado com detalhes cronológicos e obediência cega ao roteiro original.

O fato de o papel masculino, do protagonista, ser representado por uma atriz não é nenhuma novidade. Muitas outras já pisaram, antes, os palcos, como o Príncipe da Dinamarca, como, por exemplo, Sarah Siddons, considerada, talvez, a primeira a desempenhar tal função, e a diva Sarah Bernhardt, que encenou o Príncipe, em sua popular produção londrina, de 1899. Eu nunca tive a oportunidade de testemunhar tal façanha e confesso que muito me agradaram tanto a ideia como o trabalho de PATRÍCIA.

Diz o “release” da peça, enviado pela assessoria de imprensa (NEY MOTTA), que “Partindo da obra fundamental de SHAKESPEARE, a ideia geral da COMPANHIA é encontrar um HAMLET do nosso tempo. Um HAMLET cheio de som e fúria. Não numa atualidade forçada, mas ressaltando aspectos da obra que dialogam com esse coquetel de conflitos contemporâneos, que vemos, todos os dias, jorrando nas grandes cidades do mundo”.

O texto se presta a uma leitura representativa contemporânea, porque, na sua essência, também o é. Quantas semelhanças podemos notar entre a corte dinamarquesa do século XVI e os bastidores dos palácios presidenciais de hoje, inclusive no Brasil, onde vigora um sistema político corrupto, onde há espaço para mortes suspeitas, de pessoas importantes no sistema governamental, possíveis assassinatos, traição, manipulação, luta desenfreada e inescrupulosa pelo poder?

Por muitas vezes, ao longo do tempo, HAMLET” foi, continua sendo e ainda será encenada com tons políticos da época. Embora escrita, ao que se presume, entre 1599 e 1601, ainda é muito atual. A peça traça um mapa do curso de vida na loucura real e na loucura fingida — do sofrimento opressivo à raiva fervorosa — e explora temas como a traição, a vingança, o incesto, a corrupção e a moralidade. Um prato cheio, principalmente, para os estudos e teorias de psicólogos e psicanalistas de plantão.  Não é, porém, esse o viés que escolhi para analisar a montagem em tela.

Trata-se da peça mais longa de SHAKESPEARE. O texto integral contém 4.042 linhas, num total de 29.551 palavras, tudo distribuído cinco atos, incluindo uma cena de total metalinguagem, “o TEATRO dentro do TEATRO”. Possivelmente, tenha sido seu texto mais trabalhoso. Esses dados valorizam a boa tradução, de MAURÍCIO ARRUDA MENDONÇA, parceiro habitual de PAULO DE MORAES, em muitas dramaturgias montadas pela COMPANHIA, e pela ótima adaptação, em cerca de 130 minutos, com intervalo, sem a perda do conteúdo.

Creio ser oportuno afirmar que o bardo inglês, com sua obra, principalmente as tragédias, exerceu considerável influência sobre grandes nomes da literatura universal, que surgiram muito depois, como Göethe, Charles Dickens e James Joyce, sem falar no nosso grande mestre Machado de Assis.

Já tendo dissertado sobre o texto, resta-me falar dos demais elementos da montagem, iniciando pela ótima e arrojada direção, de PAULO DE MORAES, que consegue, dentro de uma atemporalidade proposital, levar o espectador a perceber todo o drama existencial do protagonista e a identificar as estocadas no que deve ser criticado na atualidade. PAULO não perdeu a mão, ao conservar os ingredientes da trama original, entretanto, fazendo uso de elementos hodiernos, como um HAMLET jogando golfe, por exemplo, uma ideia genial, estendida a outras, que abarcam a cenografia e o figurino.

Quanto à cenografia, mais uma vez, vemos uma das marcas registradas da ARMAZÉM, que não poupa ousadia e tecnicidade na construção cenográfica. Um enorme painel, uma parede, aparentemente de vidro opaco, translúcido, quando necessário, com intervenção da excelente iluminação com duas portas, é, algumas vezes, içado, por um dispositivo controlado pelos próprios atores, deixando à mostra o fundo do palco, ampliando o espaço cênico. Além disso, duas sequências de poltronas grudadas, como as de um teatro, uma mesa e mais poucos outros objetos, circulam em cena.

É bastante interessante o figurino, assinado a quatro mãos, por CAROL LOBATO e JOÃO MARCELINO, por vezes muito elegante; em outras, um pouco mais despojado, sem a preocupação de marcar uma época.

Funciona muitíssimo bem a iluminação, de MANECO QUINDERÉ, estabelecendo, distintamente, as cenas, principalmente guardando, para os momentos de maior mistério e suspense, ao tons e intensidade ideais de luz.

Para instigar o público, RICCO VIANA preparou uma competente e muito bem ajustada trilha sonora original, como tão bem vem atuando em outras produções da COMPANHIA.

O elenco se mostra perfeitamente engajado na proposta, todos com excelente atuação, inclusive nas participações mais coadjuvantes.

O protagonismo de PATRÍCIA SELONK deve ser reverenciado, desde sua primeira aparição. PATRÍCIA consegue, a meu juízo, atribuir ao personagem características que o valorizam, com destaque para algo próximo ao cinismo do vingador, sem falar do seu jeito próprio de representar o personagem, da forma mais ambígua possível, com relação à sua real ou verdadeira loucura. Impecável atuação!

Quer em personagens fixos, quer em alternantes, todos os demais, do elenco, executam excelentes trabalhos, entretanto gostaria de chamar a atenção para LISA EIRAS, principalmente nos momentos de loucura de sua personagem. Admirável trabalho!  

Aqueles mais conservadores, não abertos a novas concepções e linguagens teatrais, poderão fazer restrições a esta montagem. E eu as respeito. Não faço parte, porém, desse clube e confesso que, ainda que já fosse ao CCBB, com a certeza de que assistiria a um grande espetáculo, o que vi superou bastante a minha expectativa, o que basta para que eu recomende, com empenho, o espetáculo. “O RESTO É SILÊNCIO.”

Dúvidas, críticas e sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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