Há um ano com solo sobre Lima Barreto, Hilton Cobra diz que autor não foi valorizado em vida por ‘questões raciais’

Luiz Maurício Monteiro

Hilton Cobra estreou o solo em 2017 para celebrar 40 anos de carreira Fotos: Andrea Adeloyá/Divulgação

Em cartaz no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, “Traga-me a Cabeça de Lima Barreto” estreava há cerca de um ano no Sesc do mesmo bairro celebrando os 40 anos de carreira de Hilton Cobra. Apesar de marcante pela data, porém, não se trata de seu primeiro trabalho ligado a Lima Barreto (1881-1922). Em 2008, ele já havia trabalhado em “O Triste fim de Policarpo Quaresma”, a convite de Luiz Marfuz, mesmo autor do solo atual. E se Lima e esta parceria são pontos comuns entre as duas peças, a grande diferença é o conhecimento do ator, de 61 anos, a cerca da trajetória do jornalista e escritor carioca.

Em entrevista ao RIO ENCENA, Cobra lembrou que à época de “Policarpo”, seus estudos ficaram mais restritos ao personagem em si. Mas agora, para o monólogo – que mostra uma fictícia autópsia na cabeça de Lima feita por médicos eugenistas a favor da higienização racial no Brasil – suas pesquisas foram mais profundas. Tal mergulho até lhe permitiu neste bate-papo opinar que o homenageado é mais reconhecido hoje do que quando vivo. E mais: o motivo para isso, segundo ele, seria o preconceito exacerbado da época.

— O Lima foi inviabilizado durante toda a vida… A gente não pode esquecer as questões raciais do Brasil no fim do século XIX e início de XX. Imagine um negro de personalidade forte, e inteligente, o quanto ele não foi perseguido? Por ser negro e por ter a escrita que ele tinha — explicou o ator.

A peça mostra uma fictícia autópsia na cabeça de Lima Barreto realizada por eugenistas

Além do maior reconhecimento atual de Lima, na entrevista abaixo, Cobra falou também sobre os perfis de público que costuma receber na peça e sobre escritores renomados na época que seriam adeptos da eugenia, ciência que teria como finalidade pesquisar o processo de aprimoramento genético da espécie humana:

A obra de Lima Barreto consegue se manter contemporânea?
É absolutamente atual. Fico imaginando ele vivendo nestes tempos de Operação Lava-jato, de uma constituição brasileira completamente vilipendiada e agredida. Com certeza, Lima estaria detonando o Supremo Tribunal Federa (STF)l, os governos corruptos. Se você for na obra dele, é possível fazer uma análise de conjunturas do que estamos vivendo hoje, sem dúvidas.

Acha que Lima Barreto é um autor esquecido ou muito pouco valorizado atualmente?
O Lima foi inviabilizado durante toda a vida. Uma das grandes mágoas dele era não ser reconhecido pelas editoras e pela nação em geral. A partir da biografia feita pelo Dr. Francisco Assis Barbosa (“A Vida de Lima Barreto/1952) começa a se conectar Lima à vida brasileira; a academia começa a fazer pesquisas, mesmo que ainda muito ralas; Policarpo Quaresma vai para o cinema (em 1998)… Enfim, Lima começa a reaparecer de fato. Então, ele não era reconhecido em vida, o que só muda nos anos 50 devido a essa biografia. A ponto de, graças a Deus, ser homenageado na Flip (Festa Literária de Paraty) do ano passado. Então, ele está sendo mais pesquisado hoje. Tardiamente, mas muito mais do que quando era vivo.

Em 2008, Cobra já havia feito uma peça com Policarpo Quaresma, personagem famoso de Lima Barreto

E com todo o seu estudo sobre ele, consegue uma explicação para isso?
Sim! A gente não pode esquecer as questões raciais do Brasil no fim do século XIX e início de XX. Lima nasce em 1881, sete anos antes da abolição. Imagine um negro de personalidade forte, e inteligente, o quanto ele não foi perseguido? Por ser negro e por ter a escrita que ele tinha. Ele criticava futebol, Carnaval, a americanização das coisas por aqui… Aliás, era um extraordinário cronista da vida brasileira e carioca. Metia o pau na imprensa e não abria concessões. Acabou banido e deixado de lado. Quem estudar Lima Barreto e esquecer a questão racial, estará deixando uma lacuna na sua pesquisa. A obra dele é recheada por questões políticas e raciais.

Que perfil de espectador você costuma receber na plateia?
Eu diria que é um público variado. O foco está na comunidade negra, no jovem, nos pré-vestibulares comunitários, mas é um espetáculo que tem que ser visto por todo mundo. Não estou separando branco de preto. No Sesc Copacabana, tive a maioria de brancos e espero que aqui no Glaucio Gill continue dividido. Porque Lima toca em qualquer ser humano. É importante que pesquisadores brancos pesquisem Lima, saibam das discussões dele com eugenistas da época. A Eugenia surge na época em que ele viveu. E se institucionaliza o racismo aqui no Brasil por causa desta pretensa ciência. Eu costumo dizer que se Hitler não perdesse a guerra, acho que nem eu estaria aqui, tamanha a violência do pensamento científico desses caras.

E, segundo o que você pesquisou, Lima batia muito de frente com os eugenistas?
Aqui, Monteiro Lobato (1882-1948) e Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), alguns eugenistas do Brasil, tinham a pecha de dizer que tratava-se de ciência. Mentira! Era a higienização da raça. Mas curiosamente, até o ponto que pesquisei, não vi ainda um embate de Lima com eugenistas da época. O que extraio é tudo dele que pode ir de encontro a essa teoria eugenista.

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