Gustavo Paso revela sonho de inaugurar sede e critica falta de investimento no teatro no RJ: ‘Não se tem compromisso’

Do Rio Encena

Gustavo Paso já trabalhou em cerca de 40 peças em 20 anos de carreira Foto: Divulgação

Paso já trabalhou em cerca de 40 peças em 20 anos de carreira Foto: Divulgação

Há 25 anos, desde que iniciou sua carreira, Gustavo Paso sente na pele as dificuldades de se fazer teatro no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro. Apesar do currículo farto, com cerca de 40 peças – como “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, “Race” e “Oleanna”, com a qual tem rodado diferentes cidades do país – o diretor, de 48 anos, ressalta que só é possível manter o circuito teatral carioca ativo graças aos esforços de quem trabalha diretamente com a Quinta Arte, casos de autores, diretores, atores e produtores. Como parte dessa engrenagem, ele admite o desejo particular de abrir uma sede a fim de diminuir a dependência do incentivo de terceiros, incluindo os governantes.

– Tudo o que acontece só existe pela pressão de alguns da classe. Quem assume a pasta da cultura, em sua maioria, não se importa – critica Paso, que tem a experiência de já ter dirigido o Teatro Glaucio Gill, em entrevista ao RIO ENCENA.

Ainda de acordo com o diretor, essa falta de investimento respinga não apenas nos artistas, mas também no público. Para ele, os espectadores, em sua maioria, acabam privados de prestigiar espetáculos “mais inteligentes”, já que é mais comum, segundo sua visão, os patrocinadores apostarem mais em textos “fáceis”. Além de fazer este desabafo, Paso revelou ainda um pouco mais de si, como o gosto por criar no teatro, a admiração por Bibi Ferreira e muito mais. Está tudo na entrevista abaixo:

Cite um espetáculo inesquecível que você tenha participado.
“Dois Perdidos Numa Noite Suja”, de 1992.

Tem algum fracasso na carreira? Pode nos contar?
Se falarmos de público, sempre passamos por esse tipo de fracasso. O fracasso como produção da companhia existiu quando realizamos uma estreia num festival de teatro muito mal organizado. A peça deveria partir dali para uma carreira longa, como são nossas produções. Mas a estreia virou uma gincana. Estávamos lutando de maneira excessiva para estar em cena. Pouco dinheiro, figurinista abandonou o elenco na mão com mais de 50 figurinos inacabados, semana de estreia ensaiando numa sala com uma aula de capoeira ao lado… Lembro que para ouvir os atores precisava estar dentro da cena acompanhando os movimentos de cada um. Na apresentação, uma total falta de comprometimento dos técnicos do teatro… No final da apresentação no tal festival, sumiram as duas cases com figurinos no caminho até o Rio. Mensagem mais forte que essa? Acabou a peça.

O que ainda deseja fazer para considerar sua carreira completa no teatro?
Conseguir ter uma sede para poder desenvolver mais profundamente projetos que não saem do papel, que não tem aceitação de mercado para conseguir patrocínio… Não se tem o menor compromisso com o teatro na cidade do Rio. Tudo o que acontece só existe pela pressão de alguns da classe. Se deixarmos “para lá”, nada aconteceria e todos os teatros fechariam. Quem assume a pasta da cultura, em sua maioria, não se importa. Não existem leis que ajudam verdadeiramente cias de teatro independente.

Prefere produzir, dirigir ou atuar? Por quê?
A produção só existe em nossa vida porque ela proporciona criar o que se quer. Não tenho preferência, desde que eu esteja criando.

Ator ou atriz você que tem como referência no teatro?
Bibi Ferreira.

Cite um diretor (a) que você admira?
Antunes Filho.

Um gênero em que prefere atuar?
Sem preferência.

Um profissional com quem tenha mais afinidade para trabalhar no teatro?
Tenho enorme afinidade com pessoas de bom caráter que prezam uma sala de ensaio saudável.

Na sua opinião, qual é o maior desafio na carreira de quem trabalha com teatro?
Subsidio para fazer o que realmente é importante para o público, conseguir fugir da mecânica de peças “fáceis” para o mercado. O público tem total atração por textos inteligentes, que o desafiam.

Se não trabalhasse com teatro, que profissão teria escolhido?
Design, arquiteto, desenhista…