Grace Passô participa de movimento pela arte negra e comenta preconceito no teatro e na TV: ‘Existe’

Luiz Maurício Monteiro

Grace ganhou neste ano o Prêmio Cesgranrio de Melhor Texto Inédito por “Mata teu pai” Foto: Lucas Ávila/Divulgação

Conhecido por abrigar atividades artísticas desenvolvidas majoritariamente por negros, o Terreiro Contemporâneo, no Centro, foi o local escolhido para receber a primeira edição da Segunda Black, projeto dedicado à arte afro. Nessa segunda-feira (26), a partir de 19h, serão realizadas apresentações e performances voltadas para a diversidade estética e pesquisas sobre o tema, além de debates com a proposta de estimular uma interface crítica entre as produções negras e pensadores. Também estará aberto o bar do casarão para consumo de bebidas e comidas.

Léa Garcia será homenageada no evento Foto: Paulo Belote/TV Globo

Idealizada por Licínio Januário, Paulo Mattos, Reinaldo Junior, Rodrigo França e Sol Miranda, a Segunda Black homenageará nesta edição de estreia a atriz Léa Garcia, de 84 anos, conhecida não apenas pela longa carreira de mais de seis décadas, mas também pela militância na luta racial e de gênero. Já entre os convidados, estarão o Mc WJota, o comediante Yuri Marçal, o professor Maicon, a jornalista Eliane Almeida e a atriz e autora Grace Passô, com quem o RIO ENCENA conversou aproveitando o gancho da proposta do projeto.

Na conversa, a mineira Grace, ganhadora do Prêmio Cesgranrio 2017 de Melhor Texto Nacional Inédito por “Mata Teu Pai”, falou sobre preconceito no universo das artes cênicas. A artista, de 37 anos, comentou a notória ausência de negros em papéis de destaque nas produções televisivas – inclusive da maior emissora do país – e, com a experiência de quem tem cerca de 20 anos de palco, afirmou que é utópico acreditar que a discriminação seja menor no meio teatral.

— Acho que é uma narrativa menos convencional pensar que no teatro exista menos preconceito. Existe! O teatro faz parte da nossa realidade, e, assim como em todas as instâncias, tem preconceito — garantiu a atriz, que falou muito mais na entrevista abaixo:

No teatro, nós vemos mais artistas negros. Já na TV, é muito raro ver um artista negro papel de destaque, não é?
A grande mídia, inclusive a Globo, normalmente estão estruturadas de uma maneira racista, que impede sistematicamente a presença de negros em vários lugares. Existem muitos atores negros por aí, mas o racismo no Brasil ainda é grande.

Idealizadores e produtores da Segunda Black reunidos no Terreiro Contemporâneo Foto: Diogo Nunes/Divulgação

Como protagonistas de uma novela, por exemplo, é mais raro ainda. Lázaro Ramos e Taís Araújo são exemplos únicos. Existe explicação para isso?
Temos poucos artistas negros na TV porque essas grandes mídias não têm nenhuma contribuição ativa para o combate ao racismo estruturante brasileiro. Seu modo de operar é racista. Claro que existem muito mais atores negros do que Taís e Lázaro. A realidade é que a população brasileira é majoritariamente negra. Nesta grande mídia. No teatro, são muitos os artistas negros, não são poucos, mas existe uma certa elitização dos trabalhos. Tem pouco espaço para os trabalhos que são feitos com temáticas étnico-raciais.

E apesar deste sistema, você tem vontade de trabalhar na TV?
Tenho vontade de muitas coisas, de trabalhar com pessoas, independentemente de onde seja.Não tenho o desejo de trabalhar em TV, mas, sim, com pessoas. E elas podem estar na TV ou no teatro.

E no teatro, nos bastidores, no dia a dia, existe preconceito?
Acho que é uma narrativa menos convencional pensar que no teatro exista menos preconceito. Existe! O teatro faz parte da nossa realidade, e, assim como em todas as instâncias, tem preconceito. Se existisse um setor sem preconceito, com certeza, eu estaria nele. Acho que é romântica essa visão de que o setor da arte é isento de preconceito. Acho que, de alguma forma, até pela realidade brasileira, o teatro é um espaço de resistência, com as cias. Teatrais, os artistas, o que não corresponde à velocidade de um sistema capitalista muito opressor. O teatro é uma arte dificilmente decodificável por este sistema, é a arte da resistência. Sendo assim, reúne muitas pessoas que topam refletir de uma forma mais aprofundada sobre questões da realidade social. Mas isto não quer dizer que as pessoas não sejam preconceituosas.

E você já foi vítima de preconceito direto dentro do meio artístico?
Óbvio que sim. É impossível ser brasileira e negra e não ser vítima. O preconceito é um pouco mais complexo, então quando você me pergunta se já fui vítima, digo que me sinto vítima quando ligo a TV e vejo uma novela com o negro sendo estereotipado. No teatro, se assisto uma peça que reforça esta visão estereotipada da cultura negra, também me sinto vítima. Isto, para mim, é preconceito direto.

SERVIÇO

Local: Terreiro Contemporâneo
Endereço: Rua Carlos de Carvalho, 53 – Centro.
Sessão: Segunda (26) a partir de 19h (a casa abre às 18h30)
Classificação: 14 anos
Entrada: R$ 20 (inteira)

* Segundo informações da produção do evento

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