Ganhadora do Prêmio Aptr, Juliana Guimarães aponta maior desafio para artistas: ‘Fazer pessoas irem ao teatro’

Luiz Maurício Monteiro

Juliana já fez mais de 15 peças em 30 anos de carreira Foto: Flavia Fafiães/Divulgação

Em abril deste ano, Juliana Guimarães viveu um dos momentos mais especiais de sua carreira ao ganhar o Prêmio Aptr (Associação dos produtores de Teatro do Rio de Janeiro) de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação no espetáculo “Sucesso”. Sem dúvida, fundamental para tal consagração foi o fato de a atriz carioca, de 44 anos, estar trabalhando com o gênero que mais gosta: a comédia. O quê não significa, porém, que ela não saiba a hora de falar sério.

Em entrevista à seção “Perfis”, do RIO ENCENA, Juliana, com a experiência de quem trabalha com teatro há 30 anos, afirma que o maior desafio para um artista no Brasil é preencher plateias. Crítica da política atual no país, ela acredita que o brasileiro, de um modo geral, não tem o hábito de ir ao teatro.

– Os grandes teatros comerciais, com peças com pessoas famosas, lotam. Mas a prática de ir ao teatro, conheço poucas pessoas que têm – lamenta Juliana, intérprete de quatro personagens em “Sucesso”, que reestreia nesta segunda (09), às 19h30, no Teatro Sesi, no Centro.

Fora o desabafo, o que predominou mesmo no bate-papo foi o bom humor de Juliana. Nessa linha, ela, que atualmente aparece também no programa “Xilindró”, do Multishow, citou “Sucesso” como a peça mais marcante das mais de 15 que tem no currículo, revelou uma admiração por Marco Nanini e deixou sua veia cômica aflorar ainda mais ao responder sobre que profissão seguiria caso não trabalhasse com teatro:

– Prostituta – brinca Juliana, aos risos, para se desmentir logo em seguida: – Prostituta (risos)… Brincadeira! Acho que seria psicóloga. Comecei a faculdade, tranquei e voltei três anos atrás.

Espetáculo mais marcante da carreira?
“Sucesso”, com certeza. Ganhei um prêmio com ele, então não tem como não ser. E ganhar esse prêmio foi muita surpresa, não esperava, absolutamente. Primeiro, fiquei feliz com a indicação, porque isso mostra que houve um olhar para a peça. Nunca achei que seja possível ganhar um prêmio sozinho. É um esforço coletivo! O prêmio foi para mim, mas é de todos nós, uma equipe fantástica. Sabe quando tudo te permite exercer harmonicamente aquilo que você escolheu ou foi escolhido? Então, é isso!

Um fracasso?
Tenho muitos! (risos). A vida é feita de fracassos também. E é assim que somos levados ao sucesso. De nome assim, não lembro agora de uma peça. E também não seria ético com outras pessoas. Comecei cedo na escola, fiz muitas coisas, nunca parei. Sempre trabalhei no teatro, numa luta enorme, porque é um ato de resistência ser artista nesse país. Então, a gente entra numas roubadas por vontade de estar se exercitando, porque estar em cena é fundamental. Mas, realmente, não lembro.

Um trabalho dos sonhos?
Sonho em fazer ainda, é um sonho muito alto, mas eu ia amar se pudesse fazer um filme do (cineasta espanhol, Pedro) Almodóvar. E no teatro, eu que sou formada pela Unirio, pelo incrível que pareça, nunca fiz uma obra de Nelson Rodrigues. Adoraria fazer algumas coisas dele e também algum clássico, como Moliére. Não sei se a essa altura, seria possível, não sei se a peça teria que ser repaginada. Mas são coisas que não fiz na academia e tinha vontade de fazer no teatro.

Um trabalho que não se vê fazendo?
Um dramalhão sem uma pitada de humor. Não acredito que uma história seja só tristeza ou alegria. Aquela coisa de chorar do início ao fim, não ter um outro lado, porque acho que não somos assim. Acho que a gente, mesmo na tristeza, tem que saber rir.

Como recebe as críticas em geral?
Recebo de coração aberto. Seja de um amigo que faça uma colocação que pode gerar um desconforto, mas se tenho respeito pelo saber daquela pessoa, recebo bem. O que não dá é ficar na boa com haters. Eu nem olho. No geral, recebo boas críticas, não sei se é porque o humor pode ser encantador, fazer as pessoas rirem… Então, o pessoal já vem para mim com um sorriso no rosto, um “parabéns”. Geralmente recebo elogios. Mas quando a crítica é construtiva, temos que entender, até para aperfeiçoar. Só não bato boca na Internet, estou fora de haters.

Juliana em cena de “Sucesso” entre Anderson Cunha (E) e Pedroca Monteiro Foto: Daniel Moragas da Costa/Divulgação

Um ídolo no teatro?
Um ator por quem tenho uma admiração absoluta é o Marco Nanini. Queria ser como ele (risos). É um dos atores mais brilhantes que temos, e sou apaixonada por ele. Mas tem muitos outros. A Fernandona (Fernanda Montenegro) também é hors-concours. E também tem gente da minha geração, o próprio Anderson Cunha (colega de elenco em “Sucesso”) é brilhante.

Um gênero de preferência?
Ah ! A comédia, o humor… Acho sensacional, uma manifestação de inteligência fundamental, que não tem como viver sem. E pode ser qualquer comédia, porque tem uma amplidão tão grande. Quando chamo as pessoas para assistirem a “Sucesso”, elas perguntam “é comédia?”. É, sim, uma comédia, mas tem um drama ali também, uma mazela, uma fraqueza humana. E é bacana poder unir isso. E o (autor e diretor) Leandro Muniz é brilhante. Colocou ali tudo com o que me identifico.

Maior desafio na carreira de um artista de teatro?
Fazer pessoas irem ao teatro. Tem uma questão de formação de plateia, que é uma dificuldade. Os grandes teatros comerciais, com peças com pessoas famosas, lotam. Mas a prática de ir ao teatro, conheço poucas pessoas que têm. Faço faculdade de psicologia e tenho uma colega lá. É inteligente, culta e nunca foi ao teatro, com 21 anos. É difícil levar pessoas aos teatros. Não adianta só escola levar numa excursão, porque a discussão é mais ampla, cultural até. Estamos perdendo muita cosia nesse governo atual, precisando lutar. Nunca foi fácil, essa classe é de muita luta, mas agora estamos tendo que lutar pelo que se conquistou há tempos e agora está se perdendo. Isso é assustador, temeroso. Precisa melhorar as leis, as políticas de incentivo, porque está tudo junto. Não tem como falar de política pública sem falar de educação, de perseguição ao artista. É tudo complexo. As pessoas precisam ir ao teatro, inclusive, para abrir a mente, não ficar só no Facebook discutindo isso tudo de forma banalizada.

Já pensou em desistir da carreira?
Muitas vezes! E toda vez que penso, recebo um chamado. Algo que aparece e diz “não, resista mais um pouco, vamos lá… Você vai continuar fazendo isso. Siga em frente, o caminho é cheio de obstáculos”. Enfim, começou como brincadeira na escola, mas virou profissão.

Se não trabalhasse com teatro, seria…
Prostituta (risos)… Brincadeira! Acho que seria psicóloga. Comecei a faculdade, tranquei e voltei três anos atrás. Mas você me pegou com essa pergunta… Responder “psicóloga” é meio óbvio. Mas não me vejo mais não sendo atriz. E fui fazer a psicologia pensando na formação de quem pensa o ser humano no mundo, nas diversas vertentes que ele pode atuar. E o teatro já faz isso, porque é o lugar das possibilidades, onde se permite ser e não ser. Por isso ele exerce essa magia. E acho que psicologia tem a ver com a cena.

PUBLICIDADE