Focado na riqueza do enredo, ‘O Jornal’ é excelente espetáculo!

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Já falamos algumas vezes aqui sobre como ficou raro vermos no Rio de Janeiro espetáculos assumidamente focados no texto, em contar bem uma história e expor os conflitos e reflexões que ela encerra. Para isso, é claro, o ponto de partida é um bom texto, ou tudo vai por água abaixo. “O Jornal – The Rolling Stone”é um destes espetáculos, e cumpre seu objetivo muito bem!

O texto de Chris Urch se passa em Uganda, e tem como tema uma família de três irmãos que acabaram de perder o pai. O mais velho, Joe, no início da peça recebe a ótima notícia de que tornou-se pastor de sua igreja. O outro irmão, Dembe, homossexual, vive uma difícil contradição interna entre sua opção sexual e sua fé, dois aspectos cuja coexistência é difícil para o personagem compreender e administrar; e a situação se agrava quando ele se apaixona por Sam, médico da cidade. Wummie é a irmã caçula, bastante ligada a Dembe e ao falecido pai, e são estes dois afetos que ditam sua relação com Joe, a quem obedece como irmão mais velho e “homem da casa”. Há ainda a vizinha da família, Mama, que é uma espécie de figura materna e conselheira, mas que tem outras facetas reveladas ao longo da peça, e Naome, sua filha, que não fala há seis meses e foi prometida a Dembe desde pequena.

Tentei descrever minimamente todos os personagens para que fique aparente o quadro complexo (e absolutamente comum!) que rege as relações no interior de uma comunidade, seja ela uma cidade, um bairro, um quarteirão. Existe um “senso comum” que permeia o imaginário da maior parte das pessoas daquele local, e que se torna uma bomba relógio para qualquer um que fuja à regra. Ao lado do senso comum, existe a ideia de família, pequenos núcleos particulares no interior da comunidade que, apesar de estarem inseridos no contexto, são uma comunidade em si, com suas próprias características. E a peça tem a riqueza ímpar de sair do lugar comum do preconceito racial e sexual e abordar este embate entre duas naturezas de relações: a do indivíduo com a comunidade e a do mesmo indivíduo com sua família; no meio delas, os próprios desejos. Tudo isto é muito bem ponderado e destacado pelo espetáculo, que tem direção de Kiko Mascarenhas e Lázaro Ramos. Muito, muito bom!

A cenografia de Mauro Vicente Ferreira intercala ambientações formadas por uma conjunção de elementos (como a igreja) com outras formadas por grandes estruturas (como um barco, espécie de canoa, que ambienta o lago que existe na cidade, onde Dembe passa momentos privados). Muito interessante esta distinção, especialmente porque ela não é exaustiva. Há também luminárias, tipo lampiões, que simulam a iluminação real dos locais. Todo o cenário é em tom amadeirado, o que também é bem bonito e nos remete à imagem de uma cidade pobre e pequena.

A iluminação de Paulo Cesar Medeiros acentua a tonalidade do cenário, e os figurinos de Tereza Nabuco contribuem para a ideia de uma família e uma cidade simples.

Os atores estão irregulares, mas no geral correm com o texto. Destaque para André Luiz Miranda, que mesmo com essa urgência entre os atores consegue explorar várias nuances de Joe, e vemos ali, claramente, sua gana, seus pré-conceitos, sua preocupação com sua família, pela qual assume responsabilidade, e o amor incondicional (mais evidente no final da peça), pelo irmão. Heloisa Jorge e Indira Nascimento também estão muito bem!

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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