‘Farnese de Saudade’ – Quando o teatro e as artes plásticas caminham de mãos dadas

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Em cartaz, no Teatro Poeirinha, um espetáculo que presta uma homenagem, na forma de um reconhecimento ao talento de um grande multiartista plástico, não muito conhecido no Brasil (pelo menos, como merecia), apesar de sua grande importância para as artes plásticas brasileiras, já tendo tido, porém, uma considerável notoriedade, no entanto, praticamente, relegado ao ostracismo, após sua morte.  Seu nome FARNESE DE ANDRADE NETO.

Confessando minha quase total ignorância acerca do personagem da peça, passei boa parte do meu tempo, no dia da estreia de “FARNESE DE SAUDADE”, na última 5ª feira (01/03/2018), pesquisando sobre a vida e a obra de FARNESE e, para escrever esta crítica, tive uma breve, porém profícua, conversa com o idealizador do projetoVANDRÉ SILVEIRA. Mesmo assim, não me considero satisfeito, com as informações que colhi, ficando-me alguns pontos meio nebulosos, com relação à vida do artista, principalmente no que diz respeito ao seu relacionamento com os pais. Isso é bom, para aguçar a imaginação dos espectadores.

Sei, pelo que li, de seus biógrafos e estudiosos de sua arte, e diante do trabalho de VANDRÉ, que FARNESE parece ter sido uma pessoa bastante deprimida, atormentada, por força das “armadilhas” que a vida lhe reservou, o que, obviamente está refletido em seus trabalhos. Sua vida foi marcada por momentos trágicos, como a morte de dois irmãos, numa enchente do rio, a separação dos pais e um período de cerca de dois anos, durante o qual lutou pela sobrevivência, ao duelar, bravamente, contra uma tuberculose, sem falar no fato de ser homossexual assumido, o que, em sua época, lhe deve ter causado muita dor e problemas, para conviver em sociedade e, talvez, até mesmo, para consigo mesmo.

Não sei se me equivoco, quando penso ter percebido uma relação forte, entre filho e mãe (“O útero é o melhor hotel do mundo!”), quase mística e mítica, enquanto não me pareceu tão robusto o relacionamento entre filho e pai, o que me deu margem a algumas ilações, que prefiro guardar para mim.

Na minha considerável e agradabilíssima pesquisa sobre a vida e a obra de FARNESE, tive a oportunidade, como leigo em artes plásticas, ainda que um grande apreciador do belo que elas me transmitem, de saber, por intermédio do historiador Rodrigo Naves, que “a singularidade de sua obra está na carga afetiva, gerada tanto pela presença dos objetos antigos e rudimentares, com características altamente pessoais, marcados pelo uso e pelo tempo, envelhecidos, como por conter referências biográficas. Em vez de montagem de objetos e imagens, sua obra pode ser vista como uma colagem de tempos, remetendo a um passado que não mais nos pertence e ainda pesa sobre o presente. A constância da caixa, em sua obra (…) poderia ser interpretada como uma representação do inconsciente e do corpo materno, algo que encerra e separa do mundo aquilo que é precioso ou frágil”. Esses conceitos podem ser, facilmente, reconhecidos na peça.

Também aprendi, e constatei, no espetáculo, que FARNESE, com sua arte, transformava em objetos concretos, plasticamente “ordenados”, num caos que lhe brotava da alma, a marca de dor e sofrimento inerente a todos os seres humanos. O incalculável número de bonecas ou, simplesmente, pedaços delas, utilizados em grande parte de suas obras, abandonadas e destruídas, recolhidas pelo artista, poderiam representar “a fragilidade dos corpos humanos, fadados à morte e ao desaparecimento(…)” (Fonte não captada.)

Nascido em AraguariMinas Gerais, em 1926, e falecido, aos 70 anos, no Rio de Janeiro, em 1996, FARNESE foi pintor, escultor, desenhista, gravador e ilustrador.

Entre 1945 e 1948, estudou desenho com Guignard, em Belo Horizonte.

Em 1948, com o objetivo de buscar tratamento para uma tuberculose, viu-se na situação de se mudar para o Rio de Janeiro, mais propriamente, para a cidade serrana de Correias, próxima a Petrópolis. No Rio, depois de curado, após dois anos de tratamento num sanatório, nome que se dava aos hospitais onde era tratada aquela doença, trabalhou, como ilustrador, para vários jornais e revistas, como o Suplemento Literário do Diário de Notícias, o Correio da Manhã, o Jornal de Letras e as revistas Rio MagazineSombraO CruzeiroRevista Branca Manchete.

Em 1959, começou a estudar gravura, no Ateliê do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM – RJ), aperfeiçoando-se em gravura em metal.

Em 1964, começou a criar obras com materiais descartados, coletados nas praias e nos aterros. Posteriormente, passou a utilizar armários, oratórios, gamelas e ex-votos, adquiridos em antiquários e depósitos de materiais usados. Fotografias antigas também estão presentes em sua obra.

Desde 1967, utilizou resina de poliéster, envolvendo materiais perecíveis. No Salão Nacional de Arte Moderna de 1970, recebeu, como prêmio, uma viagem ao exterior, tendo ido para a Espanha, onde instalou um estúdio em Barcelona, cidade em que permaneceu até 1975.

FARNESE DE ANDRADE pode ser considerado um grande artista plástico eclético, principalmente por suas gravuras abstratas, trabalhando com formas regulares e cores fortes, e pelos trabalhos desenvolvidos, tendo, como matéria-prima, o que pode ser considerado lixo reciclável. Produziu duas séries de desenhos notáveis: Eróticos” e Obsessivos”.

Em 1993, recebeu o Prêmio Roquette Pinto dos Melhores de 1992, pela exposição “Objetos”, na Galeria Anna Maria Niemeyer.

Sobre o espetáculo, em si, acho muito própria a sua categorização como um “espetáculo-instalação”, e não um “monólogo”, como pode parecer aos olhos dos espectadores menos atentos. Não! Não se trata de um monólogo, visto que, da primeira à ultima cena, há um “diálogo” constante do ator VANDRÉ SILVEIRA, em brilhante interpretação, com todos os objetos que fazem parte da magnífica instalação, a qual serve como cenário, também surgida da criatividade de VANDRÉ.

De alguma forma, a peça comemora os 70 anos de chegada de FARNESE ao Rio de Janeiro, como já mencionado, em 1948. Se vivo fosse, já teria ultrapassado os 90 anos de idade.

O espetáculo não é uma estreia, visto que vem sendo apresentado, com grande sucesso, de público e de crítica, há seis anos, em outros espaços, e “…busca mostrar a vida deste grande artista brasileiro, muito reconhecido em sua época, mas, infortunadamente, esquecido com o tempo.”, como diz o “release” da peça, enviado por FERNANDA MIRANDA (DOIS PONTOS ASSESSORIA).

Prossegue o “release”“A peça fala sobre a vida e a obra do artista plástico mineiro, levando o espectador a mergulhar nos pensamentos e no momento de criação do artista.”. E como o espectador é levado a isso, envolvendo-se, emocionalmente, com o que percebe ao seu redor!

 

SINOPSE

 

O universo do artista plástico mineiro FARNESE DE ANDRADE é tema do espetáculo-instalação “FARNESE DE SAUDADE”.

O premiado monólogo é idealizado pelo ator VANDRÉ SILVEIRA, que também assina a dramaturgia e a instalação cênica.

Como uma manifestação do artista, VANDRÉ narra suas experiências em primeira pessoa e é também objeto-criatura de FARNESE.


É VANDRÉ SILVEIRA quem afirma: “Estar no palco, como FARNESE DE ANDRADE, é muito mais que interpretar um personagem; é como encarnar este artista, viver as emoções que ele viveu, na vida, ao criar suas obras, e transparecer essa ebulição para a plateia. Que eles vejam o grande artista que ele foi, e sempre será, apesar de sua popularidade ter-se esvaído, com o tempo, após seu falecimento”.

Não há a menor restrição a ser feita quanto ao trabalho de VANDRÉ, como ator; ao contrário, todos os aplausos devem ser dirigidos a ele, por sua belíssima e emocionante interpretação intimista, “minimalista”, orgânica e visceral. A prova maior disso foram os inúmeros prêmios que conquistou, até agora, como o de Melhor Ator, no Festival Home Theatre 2014. Além disso, o espetáculo também mereceu destaque pelo magnífico cenário-instalaçãoPrêmio de Melhor Cenário, no 2º Prêmio Questão de Crítica; indicado ao 25º Prêmio Shell – Rio de Janeiro, na categoria Melhor Cenário. Mais laureada, ainda, foi a montagem, ao ter sido indicada ao Prêmio Questão de Crítica, na Categoria Especial, pela pesquisa do projeto, e selecionado, como participante do evento Plataforma Rio 2012, sem falar nos destaques, como um dos melhores espetáculos em cartaz, recomendado por renomadas revistas cariocas.

Para o cenário-instalaçãocertamente 50% do espetáculoVANDRÉ projetou uma imensa gaiola de ferro, no formato de uma cruz, como parte de uma referência à religiosidade mineira e, mais propriamente, à de FARNESE. A gaiola delimita o espaço da encenação, embora, no último terço do espetáculo, o ator abandone o confinamento e passe a utilizar três caixas de areia, à frente da gaiola, sobre as quais executa sua interpretação, nas cenas finais, elas como referência à grande paixão de um mineiro pelo mar, de onde ele recolheu tanto material, para as suas obras, nas praias do Flamengo e de Botafogo, no Rio de Janeiro.

Dentro dessa gaiola, o que se vê é um amontoado de peças e objetos curiosos, até bizarros, de grande apelo visual, presentes em seu universo, todos signos que reportam à vida do artista, principalmente os anos vividos em Minas Gerais, abarcando a infância e a juventude, até os 22 anos. Esses objetos vão sendo, aos poucos “organizados”, pelo personagem, à medida que suas lembranças vão tomando conta dele.

Com relação à estrutura do texto (narrativa em primeira pessoa), é fantástica a sua construção. Tudo vai sendo contado por VANDRÉ / FARNESE e há momentos em que o público se confunde, não sabendo mais onde termina a presença de um e surge a de outro, tal é a perfeição do nível interpretativo do ator. O texto vai fluindo normalmente, com o personagem falando, principalmente, de sua infância e juventude, quando, repetidamente, a qualquer momento, uma memória o tira da zona de conforto, incomodado por tristes e dolorosas recordações, e ele externa o desejo de purgar algo, parecendo entrar num transe, num ritual, representado por uns breves trancos, que executa com o corpo, passando a dizer extensos textos em latim, uma mistura de preces e cânticos religiosos, católicos, enquanto o ator, agitado, não para de andar, dentro da gaiola, oprimido pelo acanhado espaço, destinando novas posições a alguns objetos. Teria chegado ao ponto de desenvolver problemas mentais? Existiria, nele, uma, apenas, aparente saúde psíquica?

Para terminar a análise da atuação de VANDRÉ, não poderia omitir seu excelente trabalho de corpo, já tão elogiado por mim, quando interpretou o protagonista de “O Homem Elefante”, espetáculo que, para mim, o consagrou como ator. Também merecem destaques o timbre e a firmeza de sua voz, que valorizam o personagem.

CELINA SODRÉ imprime, em seu trabalho de direção, seu vasto conhecimento das teorias de Stanislavski e Grotowski, extraindo, do ator, o já referido excelente rendimento, além de, junto com ele, ao que me parece, ter chegado a brilhantes soluções para as cenas.

desenho de luz, proposto e executado por RENATO MACHADO, faz uso de pouca iluminação, em harmonia com o tom da peça, sendo utilizados, apenas, poucos refletores, de luz não muito intensa, e vários “mini-spots”, muitos dos quais manuseados e direcionados a alguns objetos de cena, pelo próprio ator, representando o desejo do personagem de enfatizar momentos significantes de sua vida.

figurino, também de CELINA SODRÉ, é simples, porém bastante significativo e emblemático, com destaque para uma dualidade, uma certa ambiguidade, que pode ser decodificada de mais de uma forma, quero crer, representada pela pintura da parte da frente de um paletó, nas costas do que o ator usa, durante todo o espetáculo, além de outra, de um grande coração (o órgão, não o símbolo), também nas costas. Exercite sua imaginação!

Não há, na ficha técnica da peça, o nome de um responsável pelo visagismo do personagem, mas, de forma alguma, poderia omitir o nome de ANTÔNIO SODRÉ SCHRELBER, que lá aparece, como responsável por uma pintura artísticafeita na testa do atorSCHRELBER é um artista plástico, que, para todas as sessões, chega, com duas horas de antecedência, ao Teatro Poeirinha, a fim de reproduzir a dita pintura, inspirada em outra, feita por um amigo de FARNESE, numa colher, esta utilizada na fotografia da arte gráfica do espetáculo.

Tal colher guarda uma história muito interessante, repassada, a mim, pelo ator, que merece ser contada. Quando VANDRÉ estava envolvido no processo de pesquisa para o espetáculo, conheceu Jô Frazão, uma pesquisadora, que mergulhou, profundamente, na obra do artista falecido e organizou o material, o qual possibilitou a publicação de livros sobre FARNESE, pela Cosac Naify, uma editora brasileira, que existiu até 2015 presenteou VANDRÉ com a referida colher, na qual se vê o rosto do artista, pintado pelo amigo que lhe dera o objeto, posteriormente recolhido pela pesquisadora.

A pintura, na testa, é uma reprodução daquela feita na colher e não está ali localizada por acaso. Ocupa o lugar de um terceiro olho, revelando um lado místico do artista, retratado na peça, facilmente captado, durante todo o espetáculo.

A intenção da pintura, na testa do ator, é como se fosse para ele apresentar, ao público, o homenageado e “dar-lhe passagem”, servindo, também, para mostrar o ator como um suporte para a obra de FARNESE, além de ser “uma questão de reverberação, como FARNESE fazia, colocando objetos dentro de outros e pinturas, também, dentro de outras”, como me disse, em particular, VANDRÉ SILVEIRA. Além de representar FARNESEVANDRÉ empresta seu corpo para ser o suporte, o esteio da obra daquele.

O mínimo que se pode dizer do espetáculo, além de que ele é ótimo, é que se trata de uma montagem muito além de instigante, que foge aos padrões de encenação dramática que estamos acostumados a ver e que consegue, em poucos minutos, atrair o público para a cena, mantendo-o assim até o final.

Não se ouve um único som na plateia, como manifestação natural de algum espectador. Acho que até as habituais e, quase sempre, “indefectíveis” tosses conseguem ser contidas, tal é o nível de atenção e interesse dos espectadores pelo trabalho que estão tendo o privilégio de ver desenvolvido.

Para finalizar, destaco o interessante título do espetáculo“FARNESE DE SAUDADE”, que “brinca” com o nome do artista, FARNESE DE ANDRADE, fazendo uso, mais que de uma rima, de uma palavra, que pode, e deve, ser aplicada ao artista já desaparecido. O homem vai, mas sua obra fica.

E VAMOS AO TEATRO!!!

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