‘Farnese de Saudade’ é cativante de bonita!

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Poeirinha, “Farnese de Saudade” chama a atenção no momento em que entramos no teatro pela beleza de seu cenário/instalação, assinado por Vandré Silveira, também idealizador do projeto, autor e ator. Com direção e figurinos de Celina Sodré, a peça é singela do início ao fim, comprometida com a retratação do interior do artista, com seu processo de criação e seus pensamentos, o que é muito interessante.

A beleza da instalação é acompanhada pela beleza da atuação de Vandré Silveira, que circula e redecora o espaço cênico com a delicadeza de quem pinta um quadro ou prepara um ambiente para uma foto. Em alusão ao processo criativo de Farnese de Andrade, artista plástico mineiro de meados do século XX, a visão estética desta decoração é estranha, um tanto inversa às expectativas.

Enquanto circula por este ambiente repleto de objetos significativos para o personagem, o texto proferido é de caráter pessoal, lembrando acontecimentos da vida do artista e reflexões acerca deles ou de si próprio. O discurso é frequentemente interrompido por orações, que também alteram o sentido de seus movimentos.

A iluminação de Renato Machado acompanha toda esta sensibilidade, com vários pontos de luz e de sombra, e deixando inclusive focos em cena para serem manipulados pelo próprio ator, em uma solução engenhosa e prática. Há uma diferenciação fundamental entre dentro e fora: a instalação se divide entre a parte interna de uma espécie de “gaiola” e uma parte externa, composta de caixas de areia. A luz acompanha esta distinção, deixando claro para o espectador quando o ator sai de seu “espaço interno” e engata um discurso mais voltado para o mundo.

Em síntese, “Farnese de Saudade” é uma ode à sensibilidade se olhar para dentro, sobretudo para dentro de um artista da envergadura de Farnese de Andrade, tão pouco falado por aqui. Todos os elementos do espetáculo convergem nesta direção, e com o foco importantíssimo em criar um individualismo visível, concreto, em oposição ao abstracionismo de tantas exposições de arte. O mundo do artista está diante dos olhos dos espectadores, a partir da visão de Vandré Silveira, que redecora este mundo ao mesmo tempo em que nos mostra um pouco da história e do curso de pensamento de Farnese.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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