Ex-aeromoça e ligada à comédia, Izabella van Hecke revela desejo de atuar em drama: ‘Pessoas valorizam mais’

Luiz Maurício Monteiro

Izabella começou a carreira no teatro há cinco anos Fotos: Divulgação

A trajetória profissional de Izabella van Hecke é um ponto fora da curva em relação à maioria dos artistas. Em vez de cursos de teatro desde a juventude, a carioca de 43 anos, que é aeromoça formada, trabalhou na aviação a vida inteira, tendo a oportunidade de realizar o sonho de ser atriz apenas aos 38, em 2013. Desde então, vem fazendo espetáculos voltados para a comédia enquanto não torna realidade um segundo sonho nos palcos: atuar num drama. O que ela não esperava, porém, era protagonizar um grande drama, só que real.

Em junho de 2017, Izabella perdeu no incêndio que destruiu o Teatro Clara Nunes, na Gávea, toda a estrutura – figurinos, cenário e objetos de cena – de “Supermoça”, espetáculo idealizado por ela própria, no qual compartilha de forma bem humorada com o público situações inusitadas que vivenciou nos tempos de aeromoça. Na época, ela contou com ajuda de amigos e até de desconhecidos que colaboraram através de um financiamento coletivo para seu retorno aos palcos.

E assim foi! De lá para cá, Izabella voltou a encenar “Supermoça” – que inclusive começa nova temporada em 06 de março no Teatro Café Pequeno com ingressos a partir de R$ 15 – e também fez outros trabalhos, como a peça “Histórias de Suassuna e Outros Contos”, que faz duas sessões neste fim de semana, no Parque das Ruínas.

O sonho de protagonizar um drama, todavia, segue vivo. Este, aliás, é também o desejo da aeromoça Pérola, sua personagem em “Supermoça”, que inicia a carreira de atriz encenando o clássico grego Jocasta. Mas, obcecada pelo Prêmio Shell, ela decide ousar, substituindo Édipo por Hamlet, de Willian Shakespeare. Neste caso, semelhança entre realidade e ficção está longe de ser mera coincidência.

— É meu sonho fazer um drama, aquela coisa de ganhar prêmio… Acho que valorizam mais o drama do que a comédia — opina Izabella em entrevista da seção Perfis do RIO ENCENA, na íntegra abaixo:

Espetáculo mais marcante da carreira?
“Supermoça”. Porque é meu! Foi uma ideia minha. Primeiro, montei um canal na Internet com o mesmo nome, e deu certo. Mas tinha que fazer vídeo novo a cada semana, e aí me deram a ideia de levar para o teatro. Foi quando chamei o Rafael Carretero (produtor) e o Marcio Azevedo (diretor e autor), que compraram a ideia na hora.Tinha muita coisa engraçada dos tempos de aviação para contar que não poderiam ficar só no avião.

Um fracasso?
Ainda não tenho.

“Supermoça” reúne histórias que a atriz viu ou viveu nos tempos de aeromoça

Trabalho dos sonhos?
Um drama, que ainda não fiz. . Para mim é mais difícil, então preciso desse desafio. E é meu sonho fazer um drama, aquela cosia de ganhar prêmio… Acho que as pessoas valorizam mais o drama do que comédia. Assistem mais comédia, mas para a carreira do ator, o drama é mais valorizado.

Não se vê em que tipo de trabalho?
Teatro infantil. Não me vejo ainda porque ninguém me chama. Não sei se é por causa da idade, porque vejo mais a garotada fazendo. Mas tenho vontade.

Como recebe as críticas em geral?
Reajo bem. É construtivo aprender com o quê as pessoas falam, afinal, nem sempre a gente vai acertar. Prefiro que fale a verdade, em vez de dizer que foi maravilhoso e depois falar mal por trás.

Uma referência no teatro?
Mônica Martelli. Uma pessoa que consegue lotar o teatro mesmo com essa crise toda. E as pessoas pagam, não é convidado, não. É um monólogo (“Minha Vida em Marte”) muito bom, e me chama atenção a forma dela, a postura, tudo é muito limpo na apresentação da Mônica. Não tem erro!

Um gênero de preferência?
Comédia. É leve, você pode brincar e sacanear muita coisa. É legal a leveza que você consegue levar para as pessoas. A vida já é cheia de problemas, então é gratificante fazer as pessoas saírem do teatro uma hora depois mais felizes.

A personagem de Izabella em “Supermoça” faz Jocasta, um clássico grego

Maior desafio na carreira de um artista de teatro?
Dificuldade é conseguir patrocínio. O ator hoje está rebolando para se manter em cartaz. E do jeito que o Rio está, essa situação vai continuar. Desafio é tirar do próprio bolso, fazer vaquinha, divulgar na Internet… Hoje, esse é o maior desafio.

Já pensou em desistir da carreira?
Dá vontade de desistir porque a gente tem sempre que estar se provando, cada trabalho é novo e faz você voltar à estaca zero. Mas esse mesmo desafio de ter que se provar é que dá vontade de continuar.

Se não trabalhasse com teatro, seria…
Trabalharia com maquiagem artística. Estou até estudando esta área porque é bem interessante. É um mercado grande. Mas não voltaria a ser aeromoça porque tudo mudou. As rotas não são as mesmas, as empresas não são mais as mesmas…

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