‘EUS’ – A celebração da vida em forma de uma aula magna de teatro

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Como diz MARIA ADÉLIA, em seu primeiro e maravilhoso trabalho-solo, “Eu tenho uma amiga, chamada Fernandona, que tem a mania de dizer que ‘Nada como um dia depois do outro; com uma noite no meio’”.

É claro que essa frase não foi cunhada pela diva DONA FERNANDA MONTENEGRO, mas, segundo a queridíssima ADÉLIA, ela vive a repeti-la, assim como milhares, ou milhões, de pessoas, inclusive eu.

No TEATRO, também, nada como uma peça boa depois de outra, com uma “não boa” no meio.

Meus amigos, troquem qualquer programa por uma ida ao Mezanino do SESC Copacabana, para que possam assistir – TENHAM O PRIVILÉGIO E A HONRA DE – a uma aula magna de TEATRO, ministrada por uma de nossas melhores atrizes: MARIA ADÉLIA.

                                                                                            SINOPSE

 “EUS” é um solo plural, vivido por MARIA ADÉLIA, que pode ser resumido como uma celebração à vida, ainda que, para issso, tenha que tocar nas feridas causadas pela morte.

Neste espetáculo, ser mulher e conviver consigo mesma tornam-se uma batalha interna cheia de humor, na qual compreender-se, perdoar-se e aceitar-se são desafios inadiáveis, quando se chega à maturidade.

Um percurso de representações plásticas e sensações nos questiona sobre sexualidade, felicidade e solidão.

Num mundo em que as obrigações como “compartilhar”, “curtir” e outras “performances” externas se tornaram “regra”, “EUS” nos acena com a possiblidade de um delicioso resgate de nosso desmembramento cotidiano, para novas possibilidades de ser e existir.

Por ter trabalhado, nos últimos vinte anos, muito mais em Paris, onde morou, tornando-se meio raras suas visitas ao Rio de Janeiro, como os trabalhos entre nós, MARIA ADÉLIA, ainda que uma das nossas mais completas atrizes, uma dama do TEATRO BRASILEIRO, não frequenta as mídias com muita assiduidade, o que a faz não ser tão conhecida do grande público. NÃO SABEM O QUE ESTÃO PERDENDO!!! No meio teatral e para os amantes do TEATRO, porém, trata-se de um dos nomes mais respeitados, tanto do ponto de vista profissional como o do ser humano que é, sempre muito humilde e generosa com todos.

Felizmente, parece que, agora, ADÉLIA ficará por cá e, certamente, nos brindará com outros grandes espetáculos como “EUS”, que merecia uma temporada bastante longa e outras, em teatros diferentes.

É seu primeiro monólogo e se chama “EUS”, título que, por si, já atrai o espectador. São 70 minutos de pura alegria, diversão e MUITA EMOÇÃO.

UM ESPETÁCULO LINDO, EM TODA A SUA PLENITUDE!!!

Nas últimas duas décadas, MARIA ADÉLIA trabalhou ao lado de grandes nomes do TEATRO, como Ariane Mnouchkine (Theatre du Soleil), Irina Brook (filha de Peter Brook), Antônio Abujamra e Cia. Dos à Deux. Bastam esses nomes para credenciar o trabalho dessa maravilhosa atriz.

De acordo com o “release” do espetáculo, enviado por LUIZ MENNA BARRETO, assessor de imprensa, “O texto, assinado por MARIA ADÉLIA e LUIZ ESTELLITA LINS (escritor, dramaturgo e filósofo) é o resultado de um processo colaborativo, para a construção de um teatro divertido e poético.”

Acho que a frase resume, perfeitamente, o que sai da boca da atriz. O texto é muito representativo de um TEATRO divertido e, ao mesmo tempo, cheio de uma poesia, que encanta e contagia, valorizada pela magnífica interpretação de ADELIA, que imprime às palavras e aos gestos um toque pessoal de delicadeza, de leveza, de ingenuidade…

Na primeira fila da plateia, senti, por várias vezes, um forte desejo de ir em direção a ela, para abraçá-la, acarinhá-la e beijá-la, de modo fraternal, tão emocionalmente envolvido me senti, com ênfase em algumas cenas.

É difícil analisar, sem medo de omitir detalhes importantes, este espetáculo. Como não fiz as anotações que costumo fazer, sempre que assisto a alguma encenação, com o objetivo de apelar para elas, e não confiar na minha memória, quando me sento para escrever a crítica à peça, sei que estou correndo o risco de deixar de fazer referência a algum detalhe importante desta montagem, pelo que já me penitencio e, ao mesmo tempo, serve de estímulo para que os que me leem se interessem mais por assitir a este lindo trabalho de TEATRO, o verdadeiro TEATRO.

Como a peça é sobre a própria MARIA ADELIA e ela teve participação na sua escrita, só há verdades no texto. São memórias extraídas de 56 anos de vida, muito bem refrescadas e trazidas à tona pelo talento de ADELIA. São lembranças que envolvem a família, um grande amor e muitos amigos, alguns com os nomes revelados.

A rica direção é da própria atriz, ao lado de ALEXANDRE MELLO. Em dobradinha, eles criaram cenas antológicas, que hão de ficar na memória afetiva de quem assitir à peça, com destaque para o momento que trata dos últimos instantes de vida do seu grande amor, vivido durante apenas três anos. É uma das mais lindas e comoventes cenas da peça. Gostaria de sonhar com ela todas as noites, mas, certamente, sonharei, de olhos abertos, sempre que nela pensar. Estará, para sempre, viva na minha memória e no meu coração, assim como a cena final, totalmente indescritível e fortemente sensível.

Todos os recursos utilizados pela direção são dignos de aplausos. Não há exageros nem apelações. Abordando o tema “sexualidade”, na idade madura, por exemplo, ao tratar do órgão genital feminino, outra cena muito interessante, a direção teve todo o cuidado de não apelar para nada que passasse por perto de uma estética reprovável. Muito pelo contrário, o trato com a sexualidade, numa idade em que a juventude já acena de longe, mereceu um misto de poesia e humor fino, o que provoca a vontade de um aplauso em cena aberta.

Para aguçar a curiosidade de quem me lê, vocês não podem imaginar o que representa, neste espetáculo, um simples pano de chão. Isso mesmo: um pano de chão. Confiram “in loco”!

Além de uma grande atriz, MARIA ADELIA é formada em Belas Artes, o que a faz trabalhar, também, como artista plástica, criando adereços, marionetes, máscaras e objetos de cena, cenários e figurinos para importantes companhias de TEATRO. Em “EUS”, é dela toda a concepção plástica do espetáculo, que conta com cenários e figurinos de RONALD TEIXEIRA e GUILHERME REIS e com iluminação de BETO BRUEL.

O cenário é delicado, lindo, “clean”, reunindo várias máscaras, em acetato, do rosto da própria atriz, penduradas em todo o espaço cênico. Seriam os “eus” da atriz, embora todos iguais (?). Como móveis, em cena, uma mesa e uma cadeira, com revestimentos em vidro ou acrílico. Da referida mesa, são retirados muitos objetos de cena, como vários óculos, que vão dando visagismos diferentes a uma personagem, de acordo com o seu estado de espírito. Uma excelente ideia da direção.

O figurino, assinado pela mesma dupla que criou o cenário, se resume a um traje muito delicado, que mais parece uma sensual peça de “lingerie”, uma dupla camisola, de grande bom gosto e que valoriza as formas físicas da atriz, ampliando a sensualidade que ela esbanja em cena, mesmo em sua idade madura.

E como a iluminação valoriza cada cena, criando uma plasticidade totalmente coerente com o tipo de espetáculo.

MARIA ADELIA precisa ser vista por todo mundo que gosta de TEATRO.

MARIA ADELIA sabe tudo sobre TEATRO, como fazer TEATRO, como encantar uma plateia com o seu TEATRO.

MARIA ADÉLIA faz o que quer com o seu corpo e a sua voz. Seu preparo físico e sua dedicação ao ofício de representar lhe concedem o passaporte para o quadro de honra dos nossos artistas do palco.

Neste espetáculo, é como se a pessoa MARIA ADELIA se propusesse a celebrar uma vida e, ao mesmo tempo, iniciar um novo ciclo; como se, daquelas memórias, surgisse a proposta de enxergar a vida com outros olhos.

Ela se mostra com vontade de romper com as imposições a que uma vida em sociedade nos obriga, oprimindo-nos, e se lança a novos voos.

Ele se permite.

É isso.

É, certamente, um dos melhores espetáculos do ano, dos que já vi, até agora.

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