‘Euforia’ – Espetáculo contagiante, verdadeiro e necessário. De utilidade pública

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Uma sinopse pode atrair espectadores a uma peça de teatro ou a um filme. Uma ficha técnica de qualidade também. Uma boa sinopse e uma ficha técnica que reúne grandes talentos do TEATRO, juntas, podem garantir o sucesso de público de um espetáculo teatral.

Foi o que me atraiu, gerando grande expectativa, quando tomei conhecimento de que estaria em cartaz, no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto – atualmente, em segunda temporada, o espetáculo está sendo apresentado no Teatro Café Pequeno – a peça “EUFORIA”, com texto de JULIA SPADACCINI, direção de VICTOR GARCIA PERALTA e atuação de MICHEL BLOIS.

JULIA não consegue escrever nada abaixo de excelente. PERALTA só faz ótimos trabalhos de direção. MICHEL é um dos grandes atores de sua geração. E a sinopse era, no mínimo, instigante e prometia grandes surpresas. Tudo isso me fez aguardar, ansiosamente, o dia em que poderia confirmar, ou superar, toda a minha boa expectativa. Já vou adiantando que superou, e em muito.

A peça estreou no dia 9 de setembro e só pude assistir a ela no dia 18, na sua segunda semana em cartaz, e fiquei sabendo que, desde a primeira sessão, o minúsculo e aconchegante espaço do anexo ao Teatro Sérgio Porto, vinha lotando, com pessoas elogiando o conjunto da obra, que é, exatamente, o que me cabe fazer, depois de ter assistido a um dos melhores monólogos dos últimos tempos. E olha que fazer monólogo não é para qualquer um.

É preciso que o texto seja excelente, que não canse, não seja monótono. É necessário que a direção se faça brilhante e torne o espetáculo ágil, dinâmico. É obrigatório que a atuação do ator ou atriz seja inesquecível. E tudo isso pode ser encontrado em “EUFORIA”.

                                                                                                 SINOPSE

“EUFORIA” é um espetáculo híbrido, em que ator, texto, corpo e voz estão em constante processo.

Dividido em dois solos, o espetáculo trata do desejo.

Um desabafo de dois personagens: um velho homossexual e uma cadeirante, que, socialmente, são olhados como seres assexuados, invisíveis aos olhos do prazer comum.

Completamente intimista, o espetáculo procura uma troca com o público, no sentido de chamar a sua atenção para a sexualidade na velhice e entre os deficientes físicos e mostrar que tudo o que se fala sobre ela, nos raros momentos em que isso acontece, faz parte de uma série de inverdades, um equivocado tabu, que acaba por negar, às pessoas que fazem parte desse universo, os prazeres da carne, que jamais estão dissociados dos da alma.

Quando o indivíduo padece de alguma deficiência física, então, o caso toma dimensões gigantescas, e a pessoa é tratada como um peso morto; um “sem-desejos”; um amorfo, que respira; um nada; quando o assunto é sexo.

De forma muito “ousada” e extremamente poética, JULIA SPADACCINI se propôs a afundar o dedo em duas feridas; mas isso não faz doer. É tão natural a forma como ela trata de dois “problemas” (as aspas são importantíssimas), que a plateia se sente quase que hipnotizada, sem se permitir perder uma sílaba do que diz cada um dos dois personagens, menos, ainda, um gesto, um olhar, um sussurro…

Não sei em quem ela possa ter buscado inspiração, entretanto, conhecendo-a bastante, julgo que tenha chegado ao resultado deste lindo e comovente texto, após muita pesquisa, observação e, acima de tudo, o emprego do seu olho clínico, na abordagem de qualquer temática, como ocorre em todos os seus textos. Sou seu fã de carteirinha.

Vou me apropriar do ótimo “release”, sobre os dois monólogos, enviado por DANIELLA CAVALCANTI, assessora de imprensa, e ampliar algumas de suas partes com comentários particulares.

PRIMEIRA SINOPSE: UM SENHOR DE 87 ANOS HOMOSSEXUAL

A sexualidade dos mais velhos é um dos aspectos do envelhecimento que mais sofrem preconceito, muitas vezes, avaliada como um período assexual e de renúncia.

A libido não se apresenta somente no ato sexual em si, mas nos pensamentos, na observação, nos sonhos, no desejo constante.

Foi constatado que os indivíduos, quando vão para um asilo, escondem suas sexualidades. Homossexuais, assumidos, socialmente, quando jovens, voltam a vestir a máscara social, para não passar “constrangimentos”.

Esse personagem vai se desenvolver justamente nesse ambiente e com essa inquietação: viver num asilo e ter que se distanciar, novamente, de sua própria identidade, porém, dentro de si, o que ainda persiste é a euforia do desejo, que se mantém vivo, jovem e pleno. O corpo nega, mas a cabeça pede. Um universo pulsante ainda está ali, querendo, sentindo e sendo o que sempre foi.

A sexualidade, em toda sua amplitude, não sendo restrita ao ato sexual, ganha contornos simbólicos, que falam do desejo de permanecer vivo, da persistência exigida quando o vigor do corpo declina. Mesmo tendo superado os medos e os conflitos gerados pelo desejo homossexual, ao longo da vida, este é um  momento de entender que a vida sexual pode ser realizada de várias formas, contradizendo a norma conservadora. O corpo nega, mas a cabeça pede.

Agora, ele vê emergir imagens da infância e da adolescência. Os choques entre desejo e aceitação, beleza e envelhecimento perduram, assim como o medo do abandono.

A situação fica mais delicada com a perda da independência financeira e da saúde, normalmente associada à permanência de idosos nos asilos.

Em contrapartida, a tenacidade de realizar seus desejos plenamente é fruto de uma construção de identidade pessoal preciosa e possível, para algumas pessoas.

 

Quanta riqueza há nessa sinopse, escrita, certa e brilhantemente, pela própria JULIA! Que olhar generoso e complacente ela dirige ao personagem LAURO, que, na peça, recebe o tratamento de um cuidador, no asilo, durante um banho!

Este vai, gradativamente, sem perceber, mexendo com a libido do ancião, ao conversar com ele, fazendo alusão a uma provável vida de “garanhão”, na juventude, a julgar pelos seus belos traços físicos, ainda que desgastados pelo tempo implacável.

O funcionário o trata, no presente, voltado, apenas, para as lembranças de um passado remoto, já que o paciente tem 87 anos. Talvez, até, possa haver, por parte do homem, um certo ar de zombaria, de sarcasmo, sem saber ele que o vulcão não está extinto. O corpo nega, mas a cabeça pede. “Como deve ter sido desejado pelas mulheres!”.

Se o personagem do enfermeiro domina a cena, com seu texto verbal, o octogenário senhor LAURO é quem atrai todas as atenções, pelas reações demonstradas, fisicamente, a cada investida do seu cuidador. São olhares e posturas corporais do ator, que falam mais que muitas palavras. O trabalho de corpo de MICHEL, nos dois monólogos, é digno de aplausos.

Nota-se o quanto o personagem vai se sentindo incomodado, por ter de sufocar um grito de “PARA COM ISSO! NÃO FOI NADA ASSIM! EU SOU GAY!”. E, até, quem sabe, desejar uma relação sexual com aquele que dele está cuidando? O corpo nega, mas a cabeça pede. Ter que se “trancar no armário” e sofrer a tortura de ser obrigado a aparentar o que não é, de não poder expressar o seu desejo, ainda latente, se bem que reprimidamente expresso.

MICHEL BLOIS sabe valorizar o texto e seguir as orientações da direção, de modo a comover, profundamente, a plateia, do início ao fim do monólogo.

 SEGUNDA SINOPSE: UMA MULHER TETRAPLÉGICA

Uma publicação britânica sobre deficiências, que entrevistou mais de mil pessoas nessas condições, aponta que 85% já fizeram sexo alguma vez na vida e metade tinha um parceiro.

Mas, por outro lado, um levantamento, divulgado por um jornal do país, revelou que 70% dos britânicos não iriam para a cama com alguém com algum tipo de deficiência física.

Esse é um preconceito comum. O deficiente é visto como uma vítima eterna, um “coitado”, um ser completamente assexuado.

Através do olhar dessa jovem personagem, MARIA, que ficou tetraplégica, em função de um acidente, somos levados numa viagem em que a sexualidade é tão, ou mais, explorada pelo corpo e suas incríveis terminações nervosas.

No início, envolta pela percepção dos limites que o novo corpo lhe trazia, em meio a raiva e tristeza, não chegou a pensar em sexo. O seu foco era reaprender o cotidiano, como comer, lidar com a sonda (cateter), para esvaziar a bexiga, e escovar os dentes.

Até que, um dia, começa a ficar encantada pelo seu acupunturista e, de uma certa maneira, sente que ele lhe desperta a consciência sobre áreas de seu corpo, que se tornaram mais sensíveis após o acidente.

Ela fica obcecada pelas próprias bochechas, pescoço e outras partes  não convencionais do corpo, aprendendo, também, a decifrar, aos poucos, um novo mundo de fantasias e sensações.

É “ousadia” demais de JULIA! Santa “ousadia”!!! É como mexer num vespeiro. Tudo, porém, por uma boa causa. Boa é pouco; uma maravilhosa causa.

Inteligente e sensível que é, JULIA tem a consciência do bem que pode estar proporcionando a um nicho de público que, em parte (os idosos), frequenta os teatros e a um outro, que, infelizmente, pelas limitações de mobilidade, impostas por suas lesões físicas, encontra obstáculos para o deslocamento às casas de espetáculo, sempre na dependência de terceiros. Falo dos deficientes físicos, principalmente os cadeirantes.

É impressionante o desenvolvimento do texto deste monólogo! É fascinante o trabalho de mexer com o sensorial, de fazer com que o público acompanhe e também sinta o desenvolver ou o renascer do desejo sexual na personagem. E tudo é feito com tanta delicadeza, muita sutileza, imenso respeito, total verdade…

Se já no monólogo anterior, MICHEL nos encanta, aqui, ele atinge uma plenitude total, em termos de interpretação.

Faz-se necessário dizer que, em ambos os monólogos, vividos por personagens tão diferentes, inclusive no sexo, o ator representa como um homem de sua própria idade, sem efeitos de maquiagem, figurino e voz. É o ator representando dois personagens muito distantes de sua real identidade, fazendo uso apenas de seus recursos de ator, de grande sensibilidade e competência profissional. E o que é melhor, fazendo com que vejamos LAURO e MARIA à nossa frente.

Para o brilhantismo do espetáculo, em muito, pesa a mão do diretor. PERALTA partiu para uma proposta de direção que parece dar bastante autonomia ao ator de construir os personagens.

Os responsáveis pelo projeto são MICHEL BLOIS, JULIA SPADACCINI e VICTOR GARCIA PERALTA. “A direção e a dramaturgia foram criadas em conjunto, conforme a demanda da interpretação. Os três parceiros (…) se entrelaçam, criativamente, de modo a misturar as linguagens, dando origem a uma montagem performática”.

O que se pode depreender desse trecho, extraído do “release”? Pelo que me foi permitido ver, o espetáculo, ainda que enquadrado na categoria TEATRO, pode ser encarado como uma grande “performance”, uma vez que propõe uma linguagem diferente da tradicionalmente encontrada no TEATRO.

O ator está, praticamente, nu de recursos. Utiliza apenas o seu corpo e a sua própria voz. E isso basta para passar tudo o que é necessário, para dar o recado.

Achei muito interessante a concepção do cenário (ELZA ROMERO), que é montado pelo próprio ator, resumido a uma “traquitana” de madeira, que pode ser uma bancada de marceneiro, uma cama, uma maca e uma cadeira de rodas. Tudo numa só peça. Também está presente em cena, uma pequena maleta, de madeira, de onde o ator retira ferramentas e materiais, para “construir” o cenário, e algumas ripas, no chão. Ele serra, prega, encaixa, constrói, cria formas.

O figurino (TICIANA PASSOS) é básico: uma calça, uma camisa e uma jaqueta. Das duas últimas, o ator se despe, para fazer o segundo monólogo, deixando o peito nu, que ele explora sensualmente, como pede o texto.

WAGNER AZEVEDO criou uma luz tão simples e tão bonita quanto eficaz e eficiente, que parecem sinônimos, mas não são.

“EUFORIA” é um espetáculo que merece uma vida longa e ser visto por muitos idosos e deficientes físicos, e, mais ainda, por gente de todas as idades, principalmente os mais jovens, e os chamados “sadios’, para que aprendam muito com os personagens da peça sobre a sexualidade na terceira idade e nas pessoas com comprometimentos físicos e reformulem seus conceitos.

Saí do Sérgio Porto em total estado de graça e vou rever no Café Pequeno.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.