‘Eu não Posso Lembrar que te Amei – Dalva e Herivelto’ – sobre como uma ‘guerra’ pode ser proveitosa e gerar lucros

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Com texto de ARTUR XEXÉO, direção de TADEU AGUIAR, com o próprio TADEU, no elenco, ao lado de SYLVIA MASSARI, está em cartaz, no Theatro NET RIO, o espetáculo EU NÃO POSSO LEMBRAR QUE TE AMEIDALVA & HERIVELTO”.

A motivação para a montagem deste musical é a comemoração do centenário daquela que sempre foi apontada como uma das melhores cantoras brasileiras de todos os tempos: DALVA DE OLIVEIRA, paulista, natural de Rio ClaroSão Paulo, onde nasceu em  5 de maio de 1917.

Era de se esperar que a peça girasse, então, em torno da cantora, entretanto HERIVELTO MARTINS, com quem DALVA foi casada e teve dois filhos, também é personagem, no texto de XEXÉO. É claro que uma razão muito especial houve para isso.

É que, além de terem sido casados, os dois, após um conturbado término do casamento, protagonizaram uma “guerra” musical, que gerou alguns dos grandes sucessos da Música Popular Brasileira.

HERIVELTO compunha canções, alfinetando DALVA e esta lhe respondia, à altura, gravando canções, encomendadas a outros compositores, na mesma linha, ou seja, desmerecendo o ex-marido. Algumas, com letras sutis e, até, aparentemente, delicadas e românticas; outras, mais agressivas. E o público entendia os recados e torcia, por um ou por outro.

Fazer músicas provocativas a outrem e receber respostas, em nível semelhante, também ocorreu entre outros artistas, entretanto a contenda que se tornou mais célebre, e que merecia, mesmo, um espetáculo que tratasse do assunto, para ilustrar e aumentar o grau de conhecimento das gerações mais novas, foi a famosa peleja entre DALVA e HERIVELTO.

                                                                                          SINOPSE

O espetáculo usa o repertório de DALVA DE OLIVEIRA (1917-1972) e HERIVELTO MARTINS (1912-1992), para narrar a trajetória dos dois, do tempo do Trio de Ouro, nas décadas de 1930 e 1940, quando eram casados, ao famoso “duelo musical”, no começo dos anos 1950, o qual marcou a carreira do casal, depois que ele se desfez.

SYLVIA e TADEU contam e cantam essa história, cheia de paixão, ilustrada com alguns dos maiores sucessos da música brasileira: “Ave Maria do Morro”, “Tudo Acabado”, “Errei, Sim”, “Caminhemos”, “Bandeira Branca”, totalizando 24 canções, acompanhados por TONY LUCCHESI (diretor musical) / TARANTILIO COSTA (piano e regência, revezando-se), THAIS FERREIRA (violoncelo) e LÉO BANDEIRA (bateria e metalofone).

Na primeira parte da peça, a do encontro dos dois, o repertório é o de sucessos do Trio de Ouro, grupo vocal que DALVA e HERIVELTO formaram, com NILO CHAGAS: “Praça Onze”, “Ave Maria do Morro”, “Segredo” e outros.

Na segunda parte, a da separação, a seleção é quase toda formada pela famosa polêmica travada pelos dois: “Tudo Acabado”, “Que Será”, “Errei, Sim” e outras.

Não é a primeira vez que o casal de atores/cantores interpreta os dois personagens. SYLVIA já viveu DALVA, no musical “Estrela Dalva”, quando, na temporada paulista, substituiu Marília Pêra, no papel-título. Também já teve a oportunidade de ter os seus dias de DALVA em dois seriados de TV: “Amazônia” e “AEIO…URCA”, sendo que, neste, TADEU foi o seu HERIVELTO. Além disso, anos mais tarde, os dois fizeram um “show” em que interpretavam o casal

Creio não terem sido por acaso os convites feitos a SYLVIA, para representar o papel de DALVA; aqueles e o atual. Ambas têm um registro vocal muito parecido, o que facilita, em muito, a atuação da atriz.

Sob pena de ser mal entendido pelos que admiram o canto de DALVA, exponho minha mão à palmatória, para dizer que, ainda que apaixonado por música, principalmente a brasileira, e frequentador, mais ou menos, assíduo, na infância e na adolescência, dos auditórios de rádio, no Rio de Janeiro, levado que era, à guisa de “companhia”, por uma amiga de minha mãe, nunca me encantei por DALVA. Nadando contra a corrente, sendo o “diferente”, sem que isso me incomodasse, não gostava da sua voz, embora reconhecesse seu potencial vocal. Para a sua época, era perfeito o seu canto, já que o que contava, naquele tempo, era o vozeirão. DALVA cantava assim, mais do que qualquer outra cantora sua contemporânea. VICENTE CELESTINO, outro de quem eu também não gostava, também o fazia. Eu preferia os intérpretes que cantavam mais suavemente, com a voz aveludada; fugia dos que “berravam”. Pronto! Podem atirar suas pedras, que eu já peguei o meu escudo!

O que não se pode negar é que, para a grande massa de ouvintes interessados em Música Popular Brasileira, DALVA era considerada um ídolo, e não sou eu que vou contestar isso. É questão, unicamente, de gosto.

Aliás, o propósito destes escritos é analisar, tecnicamente e baseado na minha particular visão de espectador, antes de tudo, crítico teatral e amante de musicais, um espetáculo teatral, um musical. Passemos a isso.

Antes de mais nada, é bom que fique claro que o que vi em cena foi exatamente o que eu esperava. Nem um pouco a mais, nem um pouco a menos.

Por se tratar de musical biográfico, tipo que não é dos que mais me agradam, eu já esperava que o texto procurasse mostrar, cronologicamente, a trajetória do casal, enfatizando, dramaturgicamente, um fato ou outro. É bem mais narrativo do que em forma de diálogos, como se fosse um audiolivro, acrescido de imagens. Isso diminui a qualidade do espetáculo? Não!!!

Um velho amigo, na viagem de volta, no metrô, queixou-se de não constarem, no repertório, algumas canções que marcaram a carreira da cantora, como “Kalu” e “Lencinho Branco”, por exemplo. Expliquei-lhe que isso fugiria à proposta do espetáculo. E ele entendeu. Também não haveria condição de XEXÉO utilizar, no roteiro, tudo o que foi marcante, em termos de sucesso, na carreira de DALVA e HERIVELTO.

Falta dramaturgia ao texto, mas sobram verdade e enriquecimento histórico. O espetáculo pode ser considerado um documento ilustrado, e isso me agrada, sob outra ótica. Respeitemos a proposta do autor e dos demais envolvidos no lindo projeto.

SYLVIA e TADEU dão conta de suas tarefas na medida de seus talentos e de suas possibilidades.

Ela, consciente de seu potencial vocal, usa e abusa da notas altas, muitas vezes, em falsete, e demonstra, mais uma vez, aquilo que estamos acostumados a ver em outros trabalhos seus: competência e verdade, uma vez que sabe valorizar, dramaticamente, as letras das canções, algumas delas do tipo que, para os nossos dias, levam a pecha de “cafonas”, uma espécie de “sofrência” (Gelei!) da época. SYLVIA sempre nos emociona, com seu canto. É uma cantora, que também atua.

TADEU, ao contrário dela, é uma ator, e dos bons, que também canta. Seu timbre de voz é muito bonito, superando, em qualidade, as proporções de seu potencial vocal. Mas HERIVELTO também não era um cantor do quilate de DALVA e conseguia dar o seu recado. Da mesma forma, TADEU não força a voz e, dentro das suas possibilidades, do seu alcance vocal, interpreta, com correção, o que lhe cabe no espetáculo. Em alguns solos, destaca-se bastante e, nos duetos, faz um belo contraponto com SYLVIA, um perfeito contraste de timbres, cantando, ambos, da forma como determinou o competentíssimo TONY LUCHESI, que é responsável pelos ótimos arranjos musicais e pela direção musical.

TONY lidera a ótima banda, completada por dois outros grandes músicos, muito requisitados para os musicais: THAIS FERREIRA (violoncelo) e LÉO BANDEIRA (bateria e metalofone).

Além da parte musical, merecem destaque, no lindo espetáculo, os cenários e figurinos, da jovem e talentosa NATÁLIA LANA.

A cenografia é simples, porém cria ambientes muito bonitos, com pouquíssimos recursos, os quais funcionam muito bem em cena. Algumas engrenagens descem e são içadas, vez por outra, ficando algum tempo em cena, o que não cansa o espectador, como a boca de cena de um teatro, salvo engano, onde os artistas se apresentaram, as cortinas do saudoso Cassino da Urca e várias molduras, com fotos dos homenageados. De móveis e outros objetos que ocupam o palco, em determinados momentos, dois microfones, da “Era de Ouro do Rádio”, uma poltrona, um canapé e dois abajures, que compõem uma bela imagem cênica. Um dos detalhes que mais chamam a atenção, no cenário, ou, acho que seja aquele que mais efeito plástico e deleite causa, na plateia, são vários vestidos de gala, que também, durante um determinado tempo, descem e ficam em cena, como fundo para a exibição de SYLVIA e TADEU. Não sei se são originais, do acervo de DALVA (não acredito que sejam) ou se tiveram outra origem. O certo é que são belíssimos, e o conjunto faz muito bem aos olhos.

Os atores usam dois sóbrios e bem talhados trajes, sem trocar de roupa, durante todo o espetáculo (e nem havia necessidade).

Os atores e o cenário são, durante os 70 minutos de duração do espetáculo, muito valorizados, por uma bela luz, de ROGÉRIO WILTGEN, tanto estética quanto funcional. ROGÉRIO é responsável por uma das mais belas iluminações a que tive acesso nos últimos tempos.

Sempre competente o desenho de som, assinado por GABRIEL D’ANGELO, sob a execução de CARLOS FERREYRA, atento na sua função, atuando, muito mais  frequentemente, em musicais.

No repertório, destacam-se canções, como “Pedro, Antônio e João”, “Praça Onze”, “Valsa da Despedida”, “Brasil”, “Ave-Maria do Morro”, “Segredo”, “Caminhemos” (de onde foi retirado o título do musical: “Não, EU NÃO POSSO LEMBAR QUE TE AMEI“.), “Tudo Acabado”, “Cabelos Brancos”, “Que será?”, “Errei, sim”, “ “Calúnia” e “Bandeira Branca”.

Na vida real, tudo não acabou como num conto de fadas, o amor não foi para sempre e, ao chegar ao fim, deixou marcas profundas e indeléveis nos dois, porém o espetáculo termina numa grande celebração, com uma cena “para cima”, contando com o entusiasmo do público, que se junta ao casal de protagonistas, para entoar, em uníssono, aquele que deve ter sido o maior sucesso de DALVA: “Bandeira Branca”, e se tornou uma espécie de “hino do carnaval brasileiro”.

DALVA e HERIVELTO merecem este espetáculo, que louva o seu talento.

Todos os envolvidos no projeto são dignos do nosso maior respeito e agradecimento, por estarem, sem qualquer patrocínio, aplicando seus próprios recursos financeiros na produção, todos, sem exceção, trabalhando, com garra e paixão, por percentuais de bilheteria. Isso é a maior prova de amor ao TEATRO e respeito ao público, carente de boas produções.

E eu recomendo, com empenho, o musical, que alcança, totalmente, os objetivos a que se propõe.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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