Espetáculo com estética drag reestreia na Lapa, e diretor rechaça público segmentado: ‘Recebemos terceira idade’

Luiz Maurício Monteiro

Os atores utilizam a linguagem da dublagem, sem um texto pronunciado ao vivo Foto: André Chacon/Divulgação

Uma crise que parece interminável, violência assustadora, deslocamento deficiente (com o metrô funcionando só até 0h)… Diante de tantos fatores negativos, que contribuem para o esvaziamento dos teatros cariocas, apresentar um espetáculo para um público muito segmentado pode ser fatal. Não para “Le Circo de la Drag”! Para a temporada que começou nesta sexta-feira (15), na Sede das Cias, na Lapa, a produção, mesmo parecendo mais sugestiva à classe LGBT devido à estética burlesca e drag, espera uma plateia eclética, assim como aconteceu nas primeiras apresentações, na Casa de Baco.

Responsável pela concepção e pela direção geral do espetáculo, Juracy de Oliveira, que também atua, admite ao RIO ENCENA que desde o processo de criação já estava ciente do risco de receber apenas um determinado tipo de espectador. Entretanto, para sua grata surpresa, quando as sessões na Casa de Baco começaram em agosto, ele via do palco um público variado, inclusive com um pessoal de uma idade acima do esperado.

– Surpreendentemente, o público não ficou segmentado. No início, esperávamos mais o pessoal LGBT, mas como o espetáculo é muito irreverente, tem muita gente que gosta do estilo. Então, recebemos todo tipo de gente, até de uma idade mais avançada, da terceira idade mesmo. Temos também contatos de formação de plateia nessa faixa. Claro que atingimos o meio LGBT de forma mais afetiva, mas muitas pessoas já estão por dentro do mundo drag – opina.

Além de atuar, Juracy de Oliveira assina a concepção e a direção Foto: André Chacon/Divulgação

Sim, a cultura drag está se difundindo cada vez mais, mas ainda soa distante para muita gente. Em contrapartida, parece familiar a todo mundo aquilo que é encenado na peça. No palco, Juracy, Leonardo Paixão, Mateus Muniz e Vanessa Garcia abusam do deboche, da ironia e da irreverência, na linha “saber rir de si mesmo”, para falar de questões do cotidiano, da sociedade e da política, principalmente as mais absurdas. E como a fonte de mazelas é inesgotável por aqui, não é raro que o espetáculo sofra mudanças de uma sessão para outra.

– Sempre temos números novos de acordo com os fatos. Teve a história do Queermuseu (mostra de arte censurada pelo Santander Cultural em Porto Alegre), do ônibus (onde um homem ejaculou numa mulher)… Então, a gente conversa, e coloca coisas novas – detalha Juracy, adiantando uma novidade desta temporada: – Vamos homenagear a Rogéria (falecida no último dia 04/09). Ela e as Divinas Divas, porque sem elas, nós não existiríamos. Vamos fazer algumas citações a elas.

Mateus Muniz em cena sobre política, um dos alvos do humor crítico da peça Foto: Alice Steinbruck/Divulgação

Sejam novas ou velhas, tais mazelas são abordadas em cena da mesma forma: com a linguagem da dublagem. Ao longo de 50 minutos, os atores – além de um convidado diferente a cada sessão – não interpretam um texto ao vivo. , mas sim um pré-gravado, com movimentos de boca e corpo, além de músicas de fundo.

– É tipo “cortaram a nossa voz, mas a gente fala da mesma forma- explica Juracy, na expectativa de seguir falando para um número cada vez maior de pessoas.

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