‘Espelhos’ traz tema e discussão preciosos, mas que demandam concentração

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Poeira, em Botafogo, “Espelhos” reúne os contos homônimos de Machado de Assis e Guimarães Rosa. A proposta corajosa, inteligente e original, assim como a reflexão fundamental e realizada com dedicação, infelizmente não salvam a encenação de graus complicados (sobretudo em um monólogo) de hermetismo.

Se “O Espelho” de Machado de Assis coloca a personagem central em um processo de perda da “alma interior” em função da “alma exterior”, “O Espelho” de Guimarães Rosa tematiza uma busca de si mesmo em função de uma repulsa pela imagem que se vê refletida no espelho. Nesta confluência de duas jornadas de sentidos opostos, Ney Piacentini, autor, diretor e ator, divide com o espectador uma inquietude e a tentativa de diálogo com ela.

O ponto mais característico da encenação (para além da reflexão que propõe a partir da compilação dos contos) é a relação estabelecida com o cenário. Tapete, mesa de escritório, lustres, velas, toda uma ambientação que remete ao século XIX é gradativamente desmontada, no que me pareceu a tradução cênica de um processo de autoconhecimento que parte de fora para dentro.

A atuação de Ney Piacentini, a despeito de tudo que a peça contém, a começar pela erudição do discurso, consegue ser leve, uma partilha teatral, com brincadeiras, simulações, apartes espirituosos na busca individual do “eu”.

Talvez pela profundidade do mergulho nos contos, na relação e junção dos dois, nas reflexões suscitadas, Ney Piacentini embarca em uma narrativa de difícil acompanhamento, o que tende a acontecer em monólogos de natureza conceitual, ainda que sua abordagem nasça de um conflito (o que sem dúvida ajuda na tradução teatral, como acontece aqui).

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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