Entre reflexão filosófica, paródia e liturgia, ‘Missa para Clarice’ diverte e faz pensar

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

“Missa Para Clarice – Um Espetáculo Sobre o Homem e seu Deus”, em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim, é um meio termo entre a reflexão filosófica, a ironia e o ritual litúrgico. O lugar intermediário que propõe é, ao mesmo tempo, uma provocação interessante e um problema cênico, me parece.

Encenar uma reflexão teórica/filosófica, por si só, apresenta a complexidade de transposição para o palco. Já falamos sobre isso em algumas críticas: em poucas palavras, como e por que transformar em espetáculo algo que é próprio do discurso literário? “Missa para Clarice” acaba respondendo muito bem a esta questão, ao colocar, ao lado da reflexão, a ironia e o ritual. A peça justifica a adaptação literária ao encenar três objetivos, e não apenas aquele que é da ordem do texto de Clarice Lispector, tão contundente e claro dentro da montagem.

Aqui se instaura o grande problema, no meu entender: a ironia se opõe ao ritual. Se fossem só os dois, seria cômico, e conteria em si um discurso estético (a paródia do ritual). Mas ao lado da reflexão, esta oposição acaba impedindo que qualquer um dos dois procedimentos se desenvolvam.

A peça se atém a referências pontuais ao ritual e, nelas, por vezes, passagens engraçadas. Um exemplo: o protagonista é recheado de gestos estereotipados de um profeta de certa idade: corpo curvado, voz fraca, movimentos demonstrativos de braços… Tudo contribui para a sátira de um profeta histórico, ou mesmo de um pastor contemporâneo, enquanto tira o peso da discussão filosófica (que, se fosse o único foco, não seria abordada a partir de um estereótipo religioso) e da liturgia (que não é levada a sério). O mesmo se aplica às duas beatas que ficam na plateia a maior parte do tempo: não estão ali como atrizes participando da discussão ou da liturgia. Estão ali ilustrando beatas.

Para sair do campo da atuação, existem várias orientações dadas ao público: para se levantar, se sentar, ler o hino (há um hinário que é distribuído no início do espetáculo), “agora só as mulheres!”, “agora só os homens!”, enfim… Por que tudo isso? No fim das contas, me pareceu que esta simulação litúrgica está ali apenas para dar forma cênica a um discurso que estava, em si, já completo. Uma vez que se inseriu o ritual, inseriu-se a paródia também.

A iluminação é o principal elemento da encenação, pois consegue criar tanto um ambiente sacro, que realça a distância entre homem e Deus, quanto um ambiente intimista de discussão. No final das contas, o público se diverte e sai do espetáculo pensando nas reflexões propostas.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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