‘Entonces Bailemos’ narra histórias interessantes e tem excelentes atores, mas não é memorável

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Apesar de ter todos os ingredientes de uma boa peça, entre eles um bom texto e bons atores (na minha opinião, o fundamental), “Entonces Bailemos”, uma reunião de pequenas histórias, não nos acompanha da saída do teatro para casa.

No geral, as histórias narradas são bem interessantes e refletem situações pelas quais a maioria de nós já passou. Se não passou, ao menos já pensou sobre. Abordam relações de alguma forma abusivas, ou de um desconforto extremo, que nos impelem a agir. Em algumas histórias, o narrador age; em outras não. São realistas, verossímeis, e são executadas por ótimos atores que trazem à luz todas as suas nuances e incitam nossa identificação.

Com apenas dois colchões, um em cima do outro, no centro do palco, o espaço cênico é cru; conceitualmente, combina com o que parece ser a proposta da peça: as incongruências do amor. Na prática, me pareceu mais limitar os atores do que propiciar, via espaço vazio, infinitas possibilidades.

Em parte, porque os força a interagir com o colchão com certa naturalidade, o que por vezes é impossível…E em parte porque restringe as cenas a ocorrerem ou no colchão ou no proscênio. No final das contas, portanto, cada cena tem apenas uma área do palco para acontecer, e sem mobília para qualquer interação, restando aos atores caminhar… e cada história é elaborada demais para tamanha limitação cênica!

Esta relação com o espaço cênico foi o que mais me incomodou, pois soa inorgânica. E neste sentido existe também uma contribuição da iluminação. A luz fria e fosforescente remete a um hospital, a uma sala de espera, a um necrotério, a qualquer ambiente de bastante desconforto.

A música não suscita desconforto, mas inadequação, pois é toda em inglês e em estilo “country”. Ou seja, não parece dialogar com nada ali!

Entendo que seja parte da proposta da peça provocar uma sensação de desconforto e inadequação, assim como a realidade nos provoca diante de nossa imaginação e nossa ideia de amor romântico, que subitamente é contraposta (para não dizer violentada) ao amor factual, concreto. Neste sentido, teve sucesso em todos os setores! Contudo, minha atenção acabou drenada das histórias para a cena em si.

Se era intenção do autor e diretor criar um desconforto total, no conteúdo e na forma, o resultado acabou, na minha opinião, apontando para diversas direções, ao invés de ter todos os elementos confluindo para um único discurso.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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