Empregabilidade em musicais deve ser prejudicada com mudança na lei de incentivo, dizem especialistas a O Globo

Do Rio Encena

“Cole Porter”, “70!”, “Bibi” e “Dancin’ Days”: muscais tem tornado cada vez mais populares no Brasil Foto: Divulgação

A preocupação que vinha tomando conta de produtores culturais diante da intenção do Governo Federal de cortar recursos via lei de incentivo se justificou nesta semana. Na última segunda-feira (22), Osmar Terra, ministro da Cidadania do presidente Jair Bolsonaro, anunciou diversas modificações na Lei Rouanet, que, inclusive, será modificada até no nome, passando a se chamar apenas Lei de Incentivo à Cultura. Mas o que mais tem tirado o sono de profissionais ligados à cultura é a redução do teto a ser captado por projetos inscritos e aprovados: de R$ 60 milhões para R$ 1 milhão. Para quem trabalha diretamente com as artes cênicas, principalmente com grandes produções como os cada vez mais populares e grandiosos musicais, tais medidas devem afetar a empregabilidade do setor.

Produtora de musicais como “Cinderella” (2016) e “Peter Pan” – este chega ao Rio de Janeiro em junho – Renata Borges acredita que montagens deste porte são capazes de gerar 100 empregos diretos e outros 400 indiretos. Em entrevista ao jornal O Globo publicada na manhã desta quinta (25), ela afirma que o teto de R$ 1 milhão não cobre os gastos com os vários profissionais envolvidos, o que pode até ameaçar a continuidade do gênero no país.

— Talvez com R$ 6 milhões fosse possível. A mudança pode aniquilar a produção de musicais no Brasil — teme a produtora, que conseguiu captar R$ 9,6 milhões para levar “Peter Pan” aos palcos.

Outro que falou com O Globo sobre os riscos de o teatro musical gerar menos empregos com a aplicação das novas mudanças foi o publicitário e jornalista Geraldo Steves, autor do livro “A Broadway não é Aqui”, lançado em 2015 e com previsão de uma edição ampliada para este ano. Assim como Renata, ele crê que a redução brusca no teto para captação vai fazer com que grandes produções fiquem mais enxutas, inclusive no quadro de profissionais.

— O musical é um gênero historicamente popular no Brasil, e que nas últimas duas décadas foi renovado com a chegada de espetáculos com o padrão Broadway. Introduzimos novas tecnologias e isso faz subir o valor das produções. A tendência é que o teto de R$ 1 milhão inviabilize produções de maior porte, que empregam grande quantidade de profissionais — observa.

O limite de R$ 1 milhão, entretanto, não se aplicará a todos os projetos voltados para o teatro. Construção e manutenção de salas, por exemplo, poderão captar um valor acima.

Além deste teto, chamaram atenção outras medidas que vão dar cara nova à atual Rouanet, que foi criada em 1991 e acabou ganhando o nome do então secretário de Cultura, Sérgio Paulo Rouanet.

Os projetos que captarem através da lei, terão que disponibilizar gratuitamente de 20% a 40% de seus ingressos para famílias de baixa renda – antes, esta reserva não passava de 10%. Por falar em ingressos, o recurso adquirido com a bilheteria não poderá ser maior do que o valor captado. Já o preço do chamado ingresso popular cai de R$ 75 para R$ 50.

A fim de descentralizar a captação de recursos, atualmente concentrada no eixo Rio-São Paulo, o governo comunicou também um acréscimo de 50% do teto para projetos realizados na Região Sul e nos estados de Espírito Santo e Minas Gerais, e de até 100% para aqueles das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

— Vamos enfrentar a concentração de recursos públicos que beneficiam poucos — disse na ocasião, Osmar Terra.

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