Em celebração aos 50 anos de carreira com ‘O Papagaio’, Marcelo Picchi lembra hiato na profissão: ‘Mudei de nome’

Luiz Maurício Monteiro

Marcelo Picchi comemorou 50 anos de carreira em 2017 Foto: Divulgação

Há cerca de um ano, Marcelo Picchi estreava “O Papagaio”, monólogo que marca as comemorações pelos seus 50 anos de carreira. E quem acompanha de perto o trabalho do carioca, hoje com 69, deve lembrar que esta trajetória chegou a ser interrompida. Numa conversa muito bem humorada com o RIO ENCENA, para a seção “Perfis”, ele lembrou que no início dos anos 2000 chegou a abandonar a profissão de ator para cursar filosofia, mas acabou retornando às artes anos depois ao ser convencido por um velho amigo.

— Resolvi estudar filosofia e fui até o fim. Foram 10 anos. Mudei até de nome. Botei o nome de batismo, José, para esquecer. Depois, pensei que era tarde para trocar de profissão, estava com 63 anos, e quis voltar como ator. Aí o Falabella me encontrou e falou: “Você está louco”. Então, voltei pela mão dele – recordou o ator.

Fora às 10 tradicionais perguntas da “Perfis”, Picchi falou também, claro, sobre “O Papagaio”, a mais recente de um currículo de mais de 25 peças, que está em cartaz no Teatro Municipal Café Pequeno. Com texto e direção de Thiago Picchi, seu filho, o solo é uma adaptação cênica do livro “O Papagaio & Outras Músicas” e procura dar foco à performance do artista.

Portanto, além de marcar os 50 anos de carreira de Marcelo, “O Papagaio” representa também a primeira vez do experiente ator no teatro ao lado do filho. Tal parceria, aliás, garantiu ele, foi democrática ao longo de todo o processo.

— A gente procurou se afinar pelo texto, não por mim ou ele. Ele falava algo, mas eu dizia: “o texto fala outra coisa”. Para poder ter harmonia, a gente se submeteu ao objetivo do texto e não de nossas leituras pessoais, de nossos pontos de vista — explicou o ator, antes de entrar na entrevista abaixo:

Espetáculo mais marcante da carreira?
“Mistérios de Curitiba”, em 1990. Ainda tinha o teatro do Copacabana Palace. Trabalhei com o diretor Adhemar Guerra e o autor Dalton Trevisan. E assim como em “O Papagaio”, a gente trabalhava com contos, então tinha que rebolar para fazer uma coisa que é para se ler, ser assistida pelo público. Mas o resultado foi maravilhoso, fui indicados a prêmios…

Um fracasso?
“Um Grito de Liberdade” (1972), em São Paulo. Na época, o governo dava verba para peças que falassem sobre a história do Brasil. Eu entrei numa companhia como contratado, mas nada deu certo. Logo na estreia, no meio do espetáculo, caiu a barba que me puseram, o cenário começou a se desmontar… Foram quase duas horas de sofrimento (risos). Quando acabou a sessão, não tinha quase ninguém na plateia. Depois a temporada se acertou, mas foi terrível.

“O Papagaio” é o mais recente trabalho de um currículo de mais de 25 peças do ator

Trabalho dos sonhos?
William Shakespeare (1964-1616). Qualquer peça dele. Estreei em 1968, numa peça do John Forbe, contemporâneo de Shakespeare, num papel equivalente a Romeu. Acho um autor fundamental na carreira de qualquer ator. E também queria fazer o Velho, o pai da peça “Volta ao Lar”, do Harold Pinter (1930-2008). Ele é um pai de uma família de quatro rapazes. Ele me traz a decadência, não pela mensagem, mas pela composição do personagem, um velho decadente, manco e com um temperamento lascivo. É tendencioso, apaixonado por um filho e despreza outro. É todo errado, mas a composição do personagem é um prato cheio para o ator. E também tem o Diretor de “Seis Personagens à Procura de um Autor”, do Luigi Pirandello (1867-1936). Ele é um diretor que está ensaiando e, de repente, personagens aparecem em carne e osso. É uma ficção que fica entre o que é ficção e o que é realidade.

Não se vê em que tipo de trabalho?
É ruim recusar trabalho (risos). O ator brinca com todas as possibilidades. E quanto maior o desafio, melhor. Acabei de fazer um deputado corrupto (na série “Pé na Cova”, da TV Globo) e tive muita alegria de fazer, de mostrar como é vida de uma corrupto. Mas o que não faria seria um humor que repousasse sobre a desqualificação de pessoas, de defeito físico, de identidade de gênero… Um humor machista ou qualquer outra coisa antiética.

Como recebe as críticas em geral?
Não tenho facilidade para receber crítica burra, que não seja ilustrada, culta. Chegar e, simplesmente, falar: “isso aqui poderia ser melhor”. Não argumentar… Dizer apenas “não gostei” e torcer o nariz, sem fundamento. Aí não gosto, não estou lá para isso. No caso do jogador de futebol, todo mundo dá palpite. Mas para o ator, não pode ser assim, no palpite. Tem que ter um ponto de vista. O aleatório não me interessa. Só para desmerecer meu trabalho? Quanto mais se produz, mais suado o trabalho fica. Nem verba temos. Muitas vezes, colocamos dinheiro do próprio bolso e depois não ganhamos nada. Então, por isso, esse tipo de crítica é mal vinda.

Uma referência no teatro?
Minhas grandes referências são Marília Pêra (1943-2015), Rubens Corrêa (1931-1996)… Pessoas que já morreram até. São referências também Amir Haddad, Aderbal Freire-Filho e Miguel Falabella. E das novas gerações, o Mateus Solano é uma maravilha de ator.

Um gênero de preferência?
Prefiro ir na linha do patético, que vai do humor ao drama. Fica ali no meio. O patético me interessa muito. Mas se for para fazer humor rasgado, faço também. Fiz uma peça com o Miguel Falabella, que era um humor fino, mas com muitas tiradas. E me dei bem.

Maior desafio na carreira de um artista de teatro?
Hoje é ter uma carreira sustentável, se autoproduzir. Representar bem ficou em segundo plano. Agora, é preciso se autoproduzir primeiro. Está tudo caro, o retorno é incerto. As verbas estão cada vez mais escassas… Quando se faz TV eventualmente, as portas se abrem um pouco mais. Mas é um se vira nos 30. Na minha época, tínhamos carteira assinada, íamos fazendo carreira. Nem pensava em se autoproduzir. Só os estrelões tinham sua cias.. E tem outra coisa. Eu, por exemplo, era um tipo de galã, o que era necessário nas produções, então não faltava emprego. Tinha uma beleza vendável, então era muito chamado para comerciais, e tinha até patrulhamento ideológico. As pessoas iam à minha casa perguntar se eu queria ser ator ou modelo. Porque o ator de verdade só fazia cinema, TV, teatro… Aracy Balabanian, Glória Menezes faziam papel de gente bonita, e não que não fossem, mas tinham a arte de se tornar mais bonitas. Isso interessava. Mas hoje, os modelos são desejáveis. E aquele que sabe interpretar o mínimo é privilegiado. É o caso do Reynaldo Gianecchini, do Victor Fasano… Mas a beleza hoje ocupou um lugar muito grande na profissão de ator.

O monólogo cumpre temporada atualmente no Teatro Café Pequeno Fotos: Jeydsa Felix/Divulgação

Já pensou em desistir da carreira?
Já desisti. Anos 2001, 2002… Resolvi estudar filosofia e fui até o fim. Me emburaquei e esqueci da profissão. Foram 10 anos. Mudei até de nome. Botei o nome de batismo, José, para esquecer. Depois, pensei que era tarde para trocar de profissão, estava com 63 anos, aí quis voltar como ator. Pensei: “já tenho uma carreira”. Aí o Falabella me encontrou e falou: “Você está louco”. Então, voltei pela mão dele. Foi na novela “Aquele Beijo” (2011).

Se não trabalhasse com teatro, seria…
Gostaria de ser professor de filosofia, ter uma vida acadêmica. É engraçado, porque isso é o oposto do espionismo do ator. Uma vida acadêmica, anônima… O contrário do ator, que tem o ego imenso.

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