Em cartaz com ‘Tô de Graça’, Rodrigo Sant’Anna rechaça desgaste da temática suburbana: ‘Muita coisa a ser dita’

Luiz Maurício Monteiro

Andry Gercker (E), Rodrigo Sant’Anna, Isabelle Marques e Evelyn Castro formam o elenco da comédia

Quais pontos Valéria Vásquez, Regina Célia, Jurandir, Denilson, Edmilson (o ex de Lady Kate) e Adelaide têm em comum? Todos são de origem pobre e foram criados e interpretados por Rodrigo Sant’Anna. Apesar de numeroso, porém, o time de personagens suburbanos parecia incompleto, já que ganhou no fim de 2017 o reforço de Graça, protagonista de “Tô de Graça”, série do Multishow que deu origem a “Tô de Graça – Da TV Para o Palco”, que estreou na quinta-feira (05). Mas quem for ao Teatro Miguel Falabella, no Norte Shopping, com receio de assistir a mais do mesmo, pode acabar surpreendido.

Apesar dos elementos suburbanos – como figurinos, linguajar e situações – presentes novamente, Rodrigo garante que a temática é rica o suficiente para trazer novidades. Com a experiência de quem morou no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, até os 18 anos, o ator, hoje com 37, buscou, como de costume, inspiração nesta vivência passada, mas desta vez, acrescentando discussões mais amplas.

— O suburbano é um universo rico, que eu domino. E mesmo que seja sobre esta temática, ainda tem muita coisa para ser dita. Falamos muito de relação familiar, mas também de questões contemporâneas, como filho transgênero, barriga de aluguel… Tudo pela ótica da comunidade. E também tem o clipe que é gravado lá e acaba interferindo no cotidiano daquelas pessoas — adianta Rodrigo, ator, autor e diretor, em entrevista ao RIO ENCENA.

Graça é inspirado em Adélia, avó de Rodrigo Fotos: Claudio de Andrade Silva/Divulgação

O tal clipe, aliás, é o gancho para outra discussão mais profunda em meio à comicidade do espetáculo. Catadora de latinhas, Graça – que é inspirada em Adélia, a própria avó de Rodrigo – vê como um absurdo a gravação de um vídeo de um artista famoso na comunidade carente de recursos onde vive. Em tempos de favelas romantizadas, servindo de pontos turísticos para quem vem de fora do Rio de Janeiro, o comediante utilizou a sua realidade atual para lançar este contraponto na trama.

— Vivi muito tempo em comunidade e tenho a noção daquele cotidiano. De carregar balde d’água na cabeça… E hoje também tenho noção de gravar uma externa e ter a necessidade de parar tudo em volta para poder fazer a cena. Vivi os dois lados. E acho até um abuso, na verdade, fazer as pessoas pararem o que estão fazendo para a gente poder gravar. Parar com o balde d’água, com a sacola de compras… Eu sempre peço desculpas, procuro ser sutil. É um modismo que até valora as comunidades, mas a precariedade continua lá — aponta.

Sobre a adaptação da história da TV para o palco, Rodrigo destacou que a linguagem mudou pouco, até porque o programa é gravado ao vivo e conta com plateia. Inclusive, são estes dois fatores, o “ao vivo” e o calor do público, é que fazem Rodrigo ter uma preferência pelo palco, apesar do sucesso na TV, com participação em mais de 15 programas, e no cinema, que lhe rendeu sete longas no currículo.

— Teatro é minha predileção dentre todos os veículos. O contato com o público que a gente tem do palco faz, sem dúvida, o teatro ser minha preferência — finaliza.

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