Em cartaz com infantil sobre a morte, Antonio Barboza comenta drama pessoal e vontade de abandonar o teatro

Do Rio Encena

Antonio foi diagnosticado com câncer em 2015 Foto: Adriane Santi/Divulgação

A carreira de Antonio Barboza tem diversos pontos em comum com a de tantos outros atores: a paixão pelo teatro, a vontade de viver da própria arte, os perrengues que fazem pensar em jogar tudo para o alto… No entanto, um acontecimento em especial marcou os 52 anos de vida do paulista: um câncer diagnosticado em 2015. Curiosamente, meses depois, já curado, ele recebeu um convite para integrar o elenco de um espetáculo infantil cujo tema é, no mínimo, peculiar para se abordar com crianças. Trata-se de “Casa Caramujo”, que fala sobre a morte e o ciclo da vida. Um trabalho que, como não poderia deixar de ser, mexeu com ele.

– O convite veio num momento especial, pois eu não fazia infantil havia anos. E foi um renascimento fazer um espetáculo que fala sobre a morte. Foi especial! Falamos de morte para as crianças de forma sutil e poética, sem pieguice – explica o ator, que na peça interpreta o próprio caramujo, ao RIO ENCENA.

“Casa Caramujo” (leia nossa crítica aqui) é uma das cerca de 30 peças que Antonio já fez em 38 anos de carreira, período no qual ele já desenvolveu diversas funções, como produção, sonoplastia e iluminação, além de trabalhos circenses, na TV e no cinema. Mas quanto ao teatro especificamente, as dificuldades parecem ser proporcionais ao amor ao palco. Ou seja, obstáculo é o que não falta pelo caminho. A ponto, no caso de Antonio, de se pensar em desistir dos palcos, como ele próprio admite de forma bem humorada na entrevista abaixo:

Espetáculo mais marcante da carreira?
“O Interrogatório” (2009), um espetáculo do Peter Weiss, com direção do Eduardo Wotzik, e eu fazia um personagem muito legal, bem forte, um funcionário de Adolf Hitler (1889-1945), do segundo escalão. Esse personagem me trouxe muitas alegrias, pois a partir dele, fiz um seriado para o canal BBC, de Londres. O personagem era bom, o texto era bom, o elenco também… Poderia pensar em vários, mas esse foi o que mais marcou.

Um fracasso?
Fracasso é uma coisa relativa. Tem um espetáculo que fiz no Rio (“A Moringa Quebrada”), que não foi um sucesso de crítica, mas ficamos seis meses em cartaz. Então foi sucesso, porque é raro ficar seis meses numa mesma cidade.

Trabalho dos sonhos?
Não tenho essa coisa de um espetáculo dos sonhos. Se o projeto me agrada, o elenco… Eu topo! Nunca falo “quero fazer isso, fazer aquilo”. As coisas vão chegando, e, com maturidade, você fica mais calmo em relação a isso. Sem demagogia! Não gosto de espetáculos bobinhos, aquela comédia que não diz nada com nada. Gosto de espetáculo que tenha uma mensagem positiva, que mexa com alguma coisa, que faça o público sair reflexivo. Quando me chamam para fazer essas comédias ligeiras, não me atraem. Não curto, já fiz, mas não é o que eu gosto. Se puder escolher, prefiro temas mais contundentes.

O quê não faria de jeito nenhum nos palcos?
Stand-up! Monólogo não tenho vontade de fazer. E essas comédias vaudeville bobinho. Não posso dizer “nunca”, às vezes a proposta é boa, mas se puder escolher, prefiro não.

Como recebe as críticas em geral?
Sou de São Paulo, mas estou no Rio há 2 anos. Lá, não temos essa preocupação. Já aqui no Rio, sinto que toda peça que se monta, a equipe quer que a crítica assista. Prefiro que tenha público. Em São Paulo, a gente prefere o teatro lotado em vez de cinco estrelas da crítica. Então, recebo crítica normalmente, gosto de ser criticado, é bom porque dá uma crescida, mas não é uma preocupação.

Em “Casa Caramujo”, Antonio Barboza (D)interpreta o caramujo Foto: Guga Melgar/Divulgação

Um ídolo no teatro?
Sempre tem. No Brasil, Fernanda Montenegro, pelo histórico, pela vida, coerência, por tudo. É uma atriz por quem a gente sempre tira o chapéu. Gosto muito também da Nathalia Timberg, da Lu Grimaldi, que é minha amiga pessoal… Tem tanta gente boa! E entre os homens, gosto de Antônio Fagundes, Ítalo Rossi (1931-2011) e Raul Cortez (1932-2006).

Um gênero de preferência?
Gosto mais de drama, de clássico… Todos os clássicos, eu acho que vale a pena participar, porque são histórias universais. Mas, normalmente, drama me atrai mais, gosto também de suspense policial.

Maior desafio na carreira de um artista de teatro?
Sobreviver da própria arte. Este é um desafio diário. Para o ator no Brasil, mas acho que no mundo todo também, é difícil demais se manter com a própria arte. Tem que fazer várias coisas ao mesmo tempo para ter uma vida, no mínimo, digna. Às vezes, as pessoas têm a impressão de uma vida glamourizada, principalmente sobre quem trabalha na TV, acham que artista ganha rios de dinheiro, mas não é bem assim. Viver dignamente do ofício é só para quem tem vocação e segue a carreira. Quem não tem vocação, até fica cinco, dez anos na carreira, mas chega uma hora em que desiste.

Já pensou em desistir da carreira?
O tempo todo (risos). A gente sempre pensa, mas vem e passa. Até pelo contrário, porque a arte é um celeiro, que quando vc está mal, em desespero, até diante de espetáculos não tão bons, só o fato de estar no palco já conforta. Acho que é por isso que tem gente fazendo tanta merda por aí (risos).

Se não trabalhasse com teatro, seria…
Tenho uma profissão paralela, sou professor de história, geografia e teatro. Amo história, mas faz um tempo que não estou em sala de aula. Dei aula por 11 anos. Mas já fiz de tudo: garçom, vendedor em loja… No teatro, faço muita produção. Quando não estou no palco, no cinema ou na TV, estou produzindo, que também é uma coisa que gosto de fazer. Não só pela grana, é porque gosto mesmo.

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