Ele no palco e ela debutante na direção: casal Yashar Zambuzzi e Viviani Rayes estreia solo adaptado de clássicos

Luiz Maurício Monteiro

Yashar e Viviani estão juntos há mais de 15 anos Foto: Arquivo pessoal

Yashar e Viviani estão juntos há mais de 15 anos Foto: Arquivo pessoal

O espetáculo “Para Onde ir”, que estreia nessa terça-feira (07), às 20h, na Casa de Cultura Laura Alvim – no Espaço Rogério Cardoso, promete ser emblemático para Yashar Zambuzzi e Viviani Rayes. Ele, com 33 anos de carreira e 30 peças no currículo, vive um momento especial por estar interpretando um texto de adaptação sua cujo personagem foi retirado de uma obra de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), autor de que se considera fã incondicional. Já para ela, o monólogo marca sua estreia como diretora aos 38 anos, sendo 17 de carreira. Além disso, esta é mais uma oportunidade para os dois, que são casados na vida real, trabalharem juntos mais uma vez, sendo que de forma inédita, com a esposa dirigindo o marido. Fato que, aliás, não causa nenhum estranhamento.

– Nos ensaios, tudo fluiu muito bem, não foi empacando, caindo em contradição. Uma comunhão que deu certo – destaca Viviani, que recentemente contracenou com o marido no drama “Blackbird”, em entrevista ao RIO ENCENA.

“Para Onde ir” é consequência dos mais 10 anos de estudos de Yashar sobre a transposição da literatura clássica para os palcos, com foco maior em Dostoiévski. Seu personagem, Marmieládov, foi retirado das obras “Crime e Castigo”, do escritor russo de 1866, e “Uma temporada no Inferno”, do francês Arthur Rimbaud (1854-1891) de 1873. Além disso, o poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) também serviu de inspiração, fazendo da peça, segundo Viviani e Yashar, uma homenagem à poesia crítica.

Em cena, Marmieládov, um funcionário público alcoólatra, vai beber numa taberna depois de saber de sua demissão. Com o passar dos minutos, ele vai compartilhando com os demais fregueses, no caso o público, as dificuldades pelas quais tem passado. Nesses desabafos, temas como alcoolismo, desemprego, pobreza, miséria, violência contra a mulher, prostituição infantil, infanticídio e autodestruição são abordados. Nada, porém, que possa chocar a plateia.

– O público não vai sair chocado, vai se identificar pelo emocional – aposta Yashar.

Marmieládov, personagem de Yashar, é uma alcoólatra que vai beber num bar após ser demitido Foto: Viviani Rayes/Divulgação

Marmieládov, personagem de Yashar, é uma alcoólatra que vai beber num bar após ser demitido Foto: Viviani Rayes/Divulgação

Além do impacto que o espetáculo pode causar no público e da experiência de trabalharem juntos mais uma vez dentro de uma condição inédita, Viviani e Yashar, que são fundadores da Te-un Teatro, ainda falaram sobre a adaptação do texto baseado em obras do século XIX para os tempos atuais, da expectativa para a estreia, e ele até revelou um apelido carinhoso usado entre o casal, mas que acabou ficando de fora dos ensaios. Tudo isso na entrevista abaixo: 

Como atrair o público de hoje para uma peça baseada em obras do século XIX? Foram necessárias muitas adaptações?
Yashar: Há 30 anos, Dostoiévski está na minha cabeceira. É com certeza o que mais leio. Quando vi esse personagem, quis fazer algo com ele. Peguei um monólogo de 30 minutos, de “Crime e Castigo”, mas achei pouco. Lendo mais, o achei em Rimbaud, e dentro da poética dele, caiu como luva, porque os versos falavam exatamente a favor do personagem. Depois lendo Brecht, com sua poesia de caráter político, encontrei um nó que ligava tudo. O grande desafio foi estender um argumento que durasse por volta de uma hora. E no fim, fiquei feliz por juntar esses autores, e ainda coloquei falas minhas. Sobre a linguagem, não me preocupei com isso. Sou purista e acho que estamos perdendo muito contato com a beleza da língua. Ingleses e alemães, por exemplo, cultuam seus idiomas. Por que nós que falamos português não cultuamos a musicalidade, as palavras inteiras, a beleza da nossa língua? Não fiz o texto para ir até o público. Quero que o público venha até a beleza da nossa língua.

Viviani: Dostoiévski é universal e, mesmo depois de tanto tempo, segue atual. O vocabulário é mais sofisticado, claro, próprio da construção das frases dele, mas procurei levar a direção pela simplicidade, no sentido de contar uma história, que se passa numa taberna com fregueses, que são os espectadores. E o recorte que pegamos é a psicologia humana, um personagem humanizado, que num momento crucial em que se pergunta para onde ir, já que viveu se alimentando de mentiras e vícios, se vê num momento de redenção. Essa humanidade que é genial e contemporânea. E não é preciso ter ideias mirabolantes quando se trata do humano. Então a ideia é fazer com que o público vá ao teatro como se estivesse indo para aquele bar.

E apesar de o personagem ter sido criado há tanto tempo, é mais do que comum vê-lo em pessoas da sociedade atual, não é?
Y.: Autores que chamamos de clássicos se tornam perenes, atravessam o tempo. Os personagens de Dostoiévski são universais e contemporâneos, infelizmente, porque trazem sofrimentos tamanhos para a nossa reflexão. O estado do personagem é universal e contemporâneo porque sempre conhecemos alguém que passa por aquele tipo de situação, então a gente participa dessas dores. Então mesmo sendo do século XIX, são personagens perenes da nossa condição humana. Ainda sobre essa questão de épocas, procurei manter o nome do personagem e não chamá-lo de Aparecido ou Jorge, por exemplo. Isso não passou pela minha cabeça, até por respeito ao autor. Isso não será empecilho para o público entrar na história.

Pelos temas que são abordados, a peça pode ser considerada pesada? O público pode sair do teatro chocado? Ou vocês tentaram suavizar?
Y.: Chocado, não. O personagem vive em extrema miséria, tem problemas na família de prostituição infantil, de fome, temas que fazem parte da nossa sociedade. Ele repete diversas vezes o jargão “mas os senhores não fiquem indignados porque todos nós precisamos de ajuda”. Uma mensagem bonita que ele passa é que o mais importante é ajudar alguém enquanto é tempo, porque se tivesse caído a ficha antes para ele, teria salvado a filha, que era prostituta. Aliás, são duas mensagens. Uma é ajudar enquanto é tempo, não adianta cantar depois na lápide, fazer homenagem, nem nada disso. Os necessitados estão à nossa volta em todos os momentos. Um amigo do seu lado, deprimido, você diz para ele procurar um médico. E de repente, o cara se mata. Isso aconteceu comigo. E a outra mensagem é que todos nós precisamos de ajuda, pois ninguém é auto suficiente. nós precisamos de ajuda, pois ninguém é auto suficiente. O público não vai sair chocado do teatro, mas vai se identificar pelo teor emocional.

V.: O existencialismo faz o ser humano se questionar, e nem sempre estamos preparados para tantas verdades. Trabalhamos o personagem em cima do vício da bebida, mas a peça amplia o sentido além da bebida. Dostoiévski, por exemplo, nunca bebeu, mas era viciado em jogo. Qualquer um que tenha vício, vai se identificar de cara com isso, como ele foi escravo desse vício. O espetáculo é pesado no sentido de que nós somos responsáveis pela vida e pelas nossas escolhas. Mas em termos do que é dito, chocar pela montagem, acredito que não. O público pode sair refletindo sobre suas escolhas.

E como está sendo essa experiência de pela primeira vez estarem como ator e diretora? Levam trabalho para casa ou evitam falar sobre isso fora do teatro?
Y.: A gente respeita os ensaios, respeito ela como diretora, me coloco na minha função de ator. Mas às vezes a gente reverbera fora da sala de ensaio, estamos sempre juntos… A gente fala “aquele momento podia ser assim”, ela diz “deixa eu anotar, se não esqueço”. A hora do almoço, por exemplo, respeitamos. O tempo vai urgindo, mas procuramos respeitar, porque tudo tem seu momento, para não poluir e perder o controle da situação.

V.: A gente acaba levando para casa porque também produzo. E tudo aconteceu muito rápido. Mas o que acontece na sala de ensaio fica lá. Para casa, levamos a parte da produção. Isso é positivo.

Yashar, pelo fato de ser sua esposa, muda alguma coisa ou você tenta enxergar como se fosse uma outra diretora qualquer?
Y.: Por já ter trabalhado com mais de 30 diretores, sempre acho que eles veem coisas que o ator não vê. Tem o respeito, a direção é dele, ele que vai dizer o que é preciso. Com ela, pela fato de sermos casados, é indiferente. Encaro profissionalmente. Já trabalhei com amigos íntimos, mas a hora da cena é outro lugar, acontece algo mágico que não levamos para dentro do trabalho. Tanto que ela chega ao ponto de me chamar de nos ensaios, ela chega ao ponto de me chamar de Yashar, pelo meu nome mesmo. E todo casal tem seus apelidos, não é?

E você pode revelar um desses apelidos?
Y.: São vários. Ioiô é o mais frequente (risos).

Viviani, fale um pouco dessa experiência de estrear como diretora. A ansiedade é maior do que a estreia como atriz? E o fato de ter o marido como único ator em cena influencia em alguma coisa?
V.: A ansiedade é diferente. Ano passado conclui a pós-graduação, e já estava com ideia de dirigir. Está sendo maravilhoso, com uma linguagem que gosto, um realismo psicológico. A gente consegue chegar nas emoções e ações físicas. Tem o frio na barriga da estreia numa nova função. Sobre dirigir o meu marido, procuro não pensar nisso. O bom é que temos um grau de respeito um pelo outro, uma comunicação de 15 anos juntos, uma relação de amizade e admiração. E no palco, acaba tendo essa facilidade no acesso, na abordagem, como ele me conhece, falo pouco e ele me entende. Se fosse outro ator, acho que teria esse primeiro contato de atriz, depois diretora. Ganho com ele na nossa amizade, um conhece o outro, a gente vem de outro trabalho na mesma linha. Isso me dá mais segurança como diretora e para ele, também. Nos ensaios, tudo fluiu muito bem, não foi empacando, caindo em contradição. Uma comunhão que deu certo.

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