‘Edward Bond Para Tempos Conturbados’ – Se era para incomodar, conseguiu

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Assisti ao espetáculo “EDWARD BOND PARA TEMPOS CONTURBADOS”, na sua primeira temporada, no ano passado, mais propriamente, em 2 de setembro, no acanhado, porém simpático e aconchegante, Teatro II do SESC Tijuca. Apesar de ter gostado da peça – só escrevo sobre os espetáculos dos quais gosto, e disso nunca fiz segredo –, não produzi uma crítica sobre ela, uma vez que já estava no penúltimo dia daquela temporada. Achei que não valeria a pena, em termos de divulgação. Fiquei aguardando (e torcendo bastante) que a montagem voltasse ao cartaz, o que, felizmente, está acontecendo agora e, desta vez, para uma temporada mais extensa que a primeira, no delicioso Teatro Poeira, ali, com maior pujança e azeitamento, até em função do espaço.

O espetáculo é livremente inspirado na obra de EDWARD BOND. Mas de que vale a informação, se a pessoa que vai ao teatro não sabe de quem se está falando ou se vai falar?

EDWARD BOND, ainda vivo, nascido em Londres, em 18 de julho de 1934, é um dramaturgo britânicodiretor de TEATROpoetateórico e roteirista, cujas peças experimentais, irremediavelmente retratando cenas de violência, sempre despertaram muitas controvérsias e polêmicas. BOND começou a “causar” nos anos 60. Autor de cerca de 50 peças, seu texto de maior sucesso, o segundo por ele escrito, chama-se “Saved” (1965), que provocou uma grande celeuma, por conta de uma cena que descrevia o apedrejamento, até a morte, de um bebê, e foi objeto de uma ação judicial, por causa de violência e blasfêmia. Sabe-se, porém, que a produção de “Saved” foi fundamental para a abolição da censura teatral no Reino Unido.

Ainda que considerado um dos principais dramaturgos vivos, BOND sempre foi, e continua a ser, altamente controverso, pela já mencionada violência, presente em suas peças, pelo radicalismo de suas declarações sobre o TEATRO e a sociedade modernos, além de suas provocadoras teorias sobre o drama. Ele costuma dizer que não inventa nada; apenas escreve sobre o que vê, o que existe.

“‘Saved’ mergulhou na vida de um grupo de jovens da classe trabalhadora do sul de Londres, marginalizados, como BOND, por um sistema econômico brutal e incapaz de dar o significado de suas vidas, que derivam eventualmente em uma violência mútua bárbara. Entre eles, um personagem, Len, persiste (e com sucesso) em tentar manter vínculos entre pessoas que se destroem violentamente. A peça mostra as causas sociais da violência e as opõe à liberdade individual. Esse seria o principal tema em todo o trabalho de BOND”(Wikepédia)

Quem me leu até esta parte da crítica não deve estar entendendo aquilo que pode parecer uma contradição: se só escrevo sobre peças que me agradam, como disse, num dos subtítulos – SE ERA PARA INCOMODAR, CONSEGUIU? Por que, então, esta crítica?

A questão está na decodificação devida do verbo INCOMODAR, aqui registrado não no sentido negativo, de “causar irritação e aborrecimento, chatear, impacientar, indispor, desgostar, transtornar, aborrecer, zangar, irritar, enervar…”. Antes, o verbo, neste contexto, traz o sentido de causar incômodo, provocar, instigar, inquietar, perturbar, desacomodar, tirar alguém de uma zona de conforto, o que, em TEATRO, é sempre bem-vindo. Essa foi uma das causas, se não a principal, que me levaram a formar um modesto juízo de opinião favorável ao espetáculo. Houve outras, é claro!

 

SINOPSE

 

“Até que ponto temos autonomia para mudar as coisas? Até que ponto nossas ideias são realmente nossas? E se os donos do jogo pudessem manipular, até mesmo, as nossas emoções? E se, em alguns momentos, acreditamos estar expressando os nossos sentimentos mais fortes, profundos e pessoais, quando, na verdade, estamos sendo nada mais que uma marionete? Essa é uma das terríveis consequências da injustiça social. Nossos gritos mais altos e nossos sussurros podem estar sendo ditos por outra pessoa ” (Retirado do texto da peça.).

“EDWARD BOND PARA TEMPOS CONTURBADOS” é um espetáculo original, da COMPANHIA INVOLUNTÁRIA, livremente inspirado nas peças e nos manifestos, poesias e textos não teatrais do dramaturgo contemporâneo inglês EDWARD BOND, com uma obra altamente controversa por causa da violência de seus textos e seus pensamentos sobre os rumos da sociedade.


autor da dramaturgiaANDRÉ PELLEGRINO, tenta, e consegue, “sacudir” os espectadores, com cenas fortes, que chamam a nossa atenção para a violência em que nos vemos soterrados, nestes dias mais que “conturbados”, isso provocado pelas mais diversas causas, e para um acelerado processo de desumanização da raça humana, a qual, a cada dia, vai deixando de merecer o adjetivo “sapiens”.

PELLEGRINO optou por “uma narrativa fragmentada, composta de cenas interdependentes e núcleos performáticos”“A peça procura trazer o espectador para um diálogo franco sobre a busca por um entendimento de nossos papéis como indivíduos dentro da sociedade”. As partes destacadas foram extraídas do “release” da peça, que me chegou às mãos por meio de LEILA MEIRELLES (assessoria de imprensa).

Talvez o autor do texto não consiga “causar” tanto quanto o conseguiu BOND, principalmente na década de 60, em função de os tempos, agora, serem outros e os fatos que desfilam no espaço cênico, infelizmente, já não consigam chocar mais tanto as pessoas, tal é a nossa convivência diária com eles, o que não quer dizer que a proposta seja inválida. Muito pelo contrário!!! É preciso que alguém, sempre, nos “sacuda”, para que não nos entreguemos, de todo, ao domínio da sanha do poder, do mal, do torto, do totalmente incorreto e inaceitável.

Tudo o que se vê em cena faz com que o texto seja considerado muito verdadeiro, realista, até chocante; portanto, atual. Atualíssimo. Escrito em “tempos conturbados”, sobre “tempos conturbados”.

Trata-se de um espetáculo que provoca, quase que desafia o espectador, da primeira à ultima cena, e busca fazer despertar, nele, a procura por uma “reflexão contundente sobre que caminho seguir”. Também como diz o citado “release”“A peça apresenta estilhaços de um mundo em que as personagens são incapazes de articular. Mais do que apontar caminhos, o objetivo da obra é tornar o espectador em um ser politicamente mais ativo”.

A julgar pela forma como o público deixa o Teatro, fica, para mim, não a certeza, mas uma tênue esperança de que podemos mudar, sim, o mundo em que vivemos, herança deixada por nossos antepassados, que não podemos continuar legando às gerações futuras. Mas é preciso muita coragem e garra. Oxalá o consigamos!!!

“Os escravos usavam correntes em seus pés. Eles viam as correntes e eles sabiam que eram escravos. Na sociedade moderna, as correntes nem sempre são tão fáceis de ver. Muitas vezes elas ficam dentro da mente.”. (Retirado do texto da peça.) Romper os elos dessas atuais correntes e nos livrarmos de uma escravidão, camuflada de diversas fantasias, é o que nos propõe a peça.

O autor, liberto de convenções e compromissos, não poupa nada, ninguém. Atira suas pedras, lança suas farpas e direciona a sua metralhadora giratória para todos os lados, num giro de 360º, atingindo todos os poderosos, opressores, políticos e mandatários, de todos os partidos; nada que mereça ser denunciado consegue ficar imune à sua visão de raio X.

Sem desmerecer nenhum dos demais elementos da montagem, vejo, como grandes destaques, nela, o texto e a direção, esta de DANIEL BELMONTEPELLEGRINO e DANIEL, pelas afinidades que os unem, conseguem uma simbiose perfeita, capaz de chamar a atenção do espectador para a boa qualidade do espetáculo.

Se o autor foi, profundamente ousado, nas palavras, a direção o foi, mais ainda, na concepção das cenas, que chegam a lembrar – algumas – a crueldade contida numa “Laranja Mecânica”.

Apesar de bastante jovem, DANIEL BELMONTE, que é ator (Os diretores que, também, são atores, via de regra, já entram num trabalho de direção com um diferencial muito positivo.), em seu quarto trabalho de direção, não tem medo de ousar, quebrar paradigmas, ir contra as convenções, conviver com o novo, explorar a tecnologia, a serviço do TEATRO, e explorar, simultaneamente, formas diversas de expressão, linguagens que, entre si, encontram “vínculos de parentesco”, como, além, evidentemente, do TEATRO, o vídeo (bastante explorado nesta montagem), as projeções de “slides” (Ainda se usa essa palavra?), a dança, a pintura, o desenho…

Mesmo jovem, repito, DANIEL BELMONTE já pode ser considerado um bom diretor, que “vai se autolapidando”, a cada trabalho, e que se cerca de competentes profissionais, para atingir bons resultados nas suas peças, como é o caso, dentre outros, do veterano, e sempre competente, COLMAR DINIZ, na direção de arteJÚLIA MARINA, na cenografia (material cênico empilhado e espalhado, encostado às paredes do espaço cênico); ANOUK VAN DER ZEE, nos figurinos (peças do dia a dia); e os irmãos MANTOVANI – FERNANDA e TIAGO, na iluminação (sempre digna de destaque).

Quanto ao elenco (SUSANNA KRUGER, ALICE MORENA, FERNANDO MELVIN, JOÃO SANT’ANNA, LEONARDO BIANCHI, LÍVIA FELTRE e MÁRCIA FREDERICO), nota-se um nivelamento entre todos, com um destaque para SUSANNA, uma veterana, atriz e professora de TEATRO, de ampla experiência de palco, em relação aos demais colegas de cena. Todos, contudo, merecem aplausos, pela atuação e pelo destemor, a intrepidez, mesmo, de aceitar as instigantes propostas da direção, participando de cenas ousadas e violentas, amenizadas, se é que assim se pode dizer, pela presença do humor (“O QUE DÁ PRA RIR DÁ PRA CHORAR”.), tudo em prol de uma boa causa: o TEATRO.

Por falar em humor, a cena em que são projetadas “fotos de um dos personagens e de sua família”, desde pequeno, é hilária e serve como uma válvula de escape, para que a plateia possa respirar um pouco mais confortavelmente, após uma cena forte. Aqui, o destaque vai para a atuação do ator LEONARDO BIANCHI.

Gostaria de chamar a atenção de quem me lê para a importância da personagem, anônima, de SUSANNA KRUGER, que funciona como um elemento de ligação entre as cenas, enquanto vai nos “cutucando”, com questionamentos acerca dos erros cometidos pela Humanidade, transformando nossos cérebros em liquidificadores acionados. Sempre que uma cena termina e o foco de luz se volta para a atriz, sentada num dos cantos posteriores do espaço cênico, a plateia já se prepara para receber a carga desafiadora.

Quando o público adentra a sala de exibição, SUSANNA já está em cena, com uma venda nos olhos, sob uma luz fraca. Não há sinais sonoros, indicando a aproximação do início do espetáculo. Este se dá no momento em que, acomodada a plateia, o foco de luz se intensifica sobre a atriz e ela retira a venda, iniciando seu texto, voltando a colocá-la, ao final da encenação. Esses signos são bem interessantes na direção. Tente refletir sobre eles, assim como o fato de o elenco não voltar à cena, para os agradecimentos. Perdão! Não houve intenção de “spoiler”.

Chamo a atenção daqueles que se propõem a assistir à peça para algumas cenas, como a do programa de rádio “A Hora do Bond” (Procurem se colocar no lugar do participante do programa, “saído da plateia”.); a da projeção das imagens de uma cesariana (excelente ideia da direção); a dos dois coveiros, almoçando, enquanto tecem comentários sobre o valor da vida e a naturalidade da morte e o que vale o ser humano, quando esta o atinge; a de cinco atores nus, procurando uma “posição de conforto” na sociedade, livres de julgamentos e pouco, ou nada, se importando com isso; e a do estudo do cérebro de um bebê. São cenas fortes e emblemáticas.

Também vale a pena prestar atenção aos momentos em que são enfatizados os perigos que vêm na garupa da internet e, consequentemente, das redes sociais; as manifestações de intolerância; as inadmissíveis barbáries cometidas hoje em dia; e o maldito “jeitinho brasileiro”, inerente à cultura do “hominus brasilis”, em geral.

A peça é sublinhada por uma boa trilha sonora, assinada por DANIEL BELMONTEANTÔNIO NUNES e PEDRO NÊGO, contendo, além de canções conhecidas, músicas originais, compostas por NUNES e NÊGO.

Ousadia e verdade são dois substantivos abstratos que se aplicam, perfeitamente, a esta peça, no que ela apresenta de concreto.

“EDWARD BOND EM TEMPOS CONTURBADOS” não é daqueles espetáculos que são um convite a uma esticada ao barzinho, para uma confraternização, após a peça. Não vá, portanto, ao Teatro Poeira, achando que apenas vai dar boas gargalhadas e voltar para casa leve, porque algumas pessoas se juntaram para amenizar o peso de um dia seu de trabalho. Não vá com esse pensamento! Vá, sim, preparado para ser incomodado, naquele sentido de que já falei, de ser convidado a uma reação, e, se possível, discutir o que viu em cena. Pode até ser no barzinho mesmo ou num restaurante. Mas tem de discutir!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

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Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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