Diretores do musical “Ataulfo Alves” comemoram profusão do gênero no Rio: ‘Tem o poder de levar público ao teatro’

Luiz Maurício Monteiro

Wladimir Pinheiro (C) interpreta Ataulfo Alves no musical que sai de cartaz neste domingo (11/10) Fotos: Divulgação

Wladimir Pinheiro (C) interpreta Ataulfo Alves no musical que sai de cartaz neste domingo (11/10) Fotos: Divulgação

O musical “Ataulfo Alves – O Bom Crioulo” sai de cartaz nesse domingo (11/09), mas em contrapartida outros quatro espetáculos do gênero estão estreando esta semana nos principais teatros do Rio de Janeiro: “Quem Vem Pra Beira do Mar”, “Nine – Um Musical Felliniano”, “Ou Tudo ou Nada – O Musical” e “O Beijo no Asfalto”. Isso sem falar em outros que já estão em cartaz há algum tempo como, por exemplo, “Memórias de um Gigolô”, “Andanças – Beth Carvalho, o Musical”, além dos infantis “O Novo Mundo Encantado Buarque de Hollanda” e “A Galinha Pintadinha em Ovo de Novo”, entre muitos outros. Seria coincidência essa profusão de montagens que misturam canções e encenação no circuito carioca? Há quem diga que não.

A fim de debater o assunto, o RIO ENCENA foi atrás de pessoas ligadas ao gênero. Vencedor dos prêmios Shell e Bibi Ferreira (ambos em 2014) como melhor diretor musical por “Gonzagão – A lenda”, cuja temporada se encerrou recentemente, Alexandre Elias (44 anos), que está em cartaz com “Ataulfo Alves”, se mostra satisfeito com o leque de opções destes espetáculos. Para ele, que este ano ainda esteve à frente de “S´imbora, o Musical – a História de Wilson Simonal”, o grande mérito dos musicais é levar ao teatro um público não tão assíduo.

Em 2014, Alexandre Elias ganhou dois prêmios como melhor diretor musical por "Gonzagão"

Em 2014, Alexandre Elias ganhou dois prêmios como melhor diretor musical por “Gonzagão”

– Acho ótimo (essa profusão). É um gênero que tem ganhado muita força no Rio de Janeiro e em São Paulo. Acho importante porque o musical tem o poder de chamar um público que talvez não seja aquele que vai ao teatro por uma peça de outro gênero. Muita gente torce nariz, mas o musical leva público ao teatro. Quem poderia achar teatro uma coisa chata, está indo para ver uma biografia do seu cantor preferido ou por curiosidade para ver um número da Broadway – ressalta.

Parceiro de Alexandre na direção do tributo ao sambista, Luiz Antônio Pilar, 54, destaca ainda outra vantagem de se levar musicais ao palco. Para ele, que já dirigiu cantores como Martinho da Vila, Neguinho da Beija-Flor e Leci Brandão em shows, peças desta natureza costumam gerar oportunidades de trabalho para profissionais do teatro.

– Tem o aspecto do mercado: musicais abrem as portas para muita gente trabalhar – observa Pilar, lembrando que material não falta para que muitos outros musicais ainda sejam montados: – Tem um mundo de gente que ainda pode ser biografada. A história popular brasileira é muito ligada à musica.

Se por um lado, os musicais atraem público e geram empregos, por outro, são vistos por produções como montagens custosas. Por toda a estrutura de som e iluminação, além de do elenco, que geralmente é numeroso, estas peças acabam demandando um investimento maior.

"Nine" é uma dos espetáculos que estreia nesta semana no Rio Foto: Marcos Mesquita/Divulgação

“Nine” é uma dos espetáculos que estreia nesta semana no Rio Foto: Marcos Mesquita/Divulgação

– Sim, exige um pouco mais investimento. Tem a questão do elenco que é maior, a questão técnica da boa sonorização, de bons operadores, uma luz específica… Uma estrutura de iluminação pode passar de R$ 3 mil. A gente paga caro por isso. É uma produção necessária, mas cara. Mas acho que esse fator não vai frear esse crescimento – torce Pilar.

Sucesso de público

A poucos dias do fim da temporada de estreia no Teatro Dulcina, na Cinelândia, de “Ataulfo Alves”, os diretores vibram com o retorno que tiveram do público. Com previsão para voltar a ser encenada em janeiro no Rio e em abril, em São Paulo, a peça atraiu espectadores de todas as faixas de idade, mesmo retratando a carreira de um artista que faleceu em 1969. Para Elias, que já tem dois musicais engatilhados para 2016 (“Dancin’ Days” e “Chica da Silva”), essa empatia de pessoas mais contemporâneas com o músico mineiro tem a ver com o momento atual do samba.

Pilar já dirigiu shows de artistas como Martinho da Vila e Leci Brandão

Pilar já dirigiu shows de artistas como Martinho da Vila e Leci Brandão

– Acho que essa temporada foi até acima das expectativas. Quando pensamos em Ataulfo, lembramos de um público mais velho. Mas na verdade, não nos demos conta de que o samba tradicional está na moda, principalmente entre jovens. Um dos programas favoritos dos universitários hoje são as rodas de samba. Tanto na Zona Sul, quanto no Subúrbio. Isso foi uma surpresa – admite.

Já Pilar, que ano que vem vai dirigir o musical “Hoje Ouvi a Lua”, com canções de Tonico & Tinoco, recorre aos números para falar do público que assistiu à montagem. O que chamou a atenção do diretor, inclusive, foi a boa presença dos espectadores aos domingos, dia no qual casos de violência são recorrentes no Centro.

– Ouvi no rádio, uma entrevista de um diretor dizendo que o espetáculo dele só ia fazer sessões de quinta a sábado. Não ia fazer domingo por causa da violência. No domingo passado, tivemos 423 espectadores. O público da chamada terceira idade vai duas, três vezes. Essa temporada lotou. Pelos números, posso dizer que foi um sucesso – encerra.

A temporada de estreia de "Ataulfo Alves" conseguiu boas bilheterias, inclusive nos domingos

A temporada de estreia de “Ataulfo Alves” conseguiu boas bilheterias, inclusive nos domingos

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