Diretora, autora e atriz Flávia Lopes diz não crer em fracassos no teatro, mas admite: ‘Acredito em roubadas’

Do Rio Encena

Flávia Lopes é autora, diretora, atriz, produtora e professora de teatro

Flávia Lopes é autora, diretora, atriz, produtora e professora de teatro

Cada pessoa vê o fracasso no teatro ao seu modo. Enquanto umas o atribuem a plateias vazias ou a críticas negativas da mídia, outras simplesmente o veem como algo subjetivo, chegando até a questionar sua existência. Nesse segundo grupo, por exemplo, está a multifacetada Flávia Lopes, produtora, autora, diretora, mascareira e atriz, que nesse ano esteve nos palcos cariocas com espetáculos como “Um Sonho Para Méliès” (dirigindo) e “A Arca de Nina” (atuando e dirigindo), entre outros. Em conversa com o RIO ENCENA, ela foi enfática: não acredita em fracasso no teatro. Entretanto, com bom humor, a carioca, de 43 anos, reconhece que algumas produções – de qualidade um tanto duvidosa – estão mais propensas a ficarem longe do polo oposto: o sucesso.

– O “fracasso” para mim vem junto com uma idealização de sucesso. O que é muito relativo… Mas, eu acredito em roubadas (risos) – admite Flávia, respirando aliviada em seguida: – Me sinto privilegiada por não ter participado de nenhuma tão grande que me faça lembrar agora.

Com 26 anos de carreira e mais de 30 montagens no currículo, Flávia é uma apaixonada incorrigível pelo teatro. Tanto que recusa, inclusive, a se imaginar em outra área profissional. Com tamanhas experiência e paixão, ela, que integra ainda os grupos d’Os Bondrés, o Atelier Gravulo e As Comediantes, abraça a missão de levar seus conhecimentos a quem está engatinhando nas artes cênicas. Além de produzir, dirigir, escrever, atuar e trabalhar com a linguagem com máscaras, Flávia Lopes leciona para alunos de teatro, o que, segundo ela própria, a faz aprender também. Conheça um pouco mais a Flávia na entrevista abaixo:

Cite um espetáculo inesquecível que você tenha participado.
Um espetáculo que guardo com carinho é “Instantâneos” d’Os Bondrés,  grupo que fundei junto com a diretora Fabianna de Mello e Souza. Começamos nossas pesquisas em 2006, e assim pude retomar minhas investigações e práticas iniciadas nos anos 90. A partir daí nunca mais parei de trabalhar com a linguagem da máscara dentro e fora do grupo e estendendo a pesquisa para outras formas animadas. Os estudos teóricos e práticos para essa montagem duraram oito meses e me levaram a Bali (Indonésia) e depois ao Théâtre du Soleil. Esse espetáculo me trouxe grandes companheiros de ofício e a possibilidade de viajar apresentando a peça e ministrando oficinas pelo Brasil através do projeto Palco Giratório do Sesc.

Tem algum fracasso na carreira? Pode nos contar?
Eu não acredito em fracassos. O “fracasso” para mim vem junto com uma idealização de sucesso. O que é muito relativo… Nesse ofício, tudo é processo, com ganhos e perdas o tempo todo necessários para o desenvolvimento e amadurecimento artístico. Mas, eu acredito em roubadas (risos). E me sinto privilegiada por não ter participado de nenhuma tão grande que me faça lembrar agora.

O que ainda deseja fazer para considerar sua carreira completa no teatro?
Uau! Acho que nunca vou considerar minha carreira completa. Ainda há tanto o que aprender e experimentar que nessa vida não consigo… Tenho o sonho de poder conhecer várias culturas que exerçam a linguagem do teatro de formas animadas.

Prefere produzir, dirigir ou atuar? Por quê?
A produção vem como uma necessidade de exercer o teatro. Só produzo os trabalhos onde estou artisticamente. Mas, já faz uns anos que só escrevo os projetos, e a Pagú Produções produz meus trabalhos. Mas, felicidade mesmo é atuar e dirigir. Também amo dar aula de teatro. Aprendo muito com meus alunos, com meus colegas atores e como atriz acho que aprendo a ser uma diretora melhor. Um exercício alimenta o outro.

Nste ano, entre outros projetos, Flávia trabalhou como diretora no infantil "Um Sonho Para Méliès" Fotos: Divulgação

Nste ano, entre outros projetos, Flávia trabalhou como diretora no infantil “Um Sonho Para Méliès” Fotos: Divulgação

Ator ou atriz você que tem como referência no teatro?
Difícil… Antes de nomes individuais, me vêm os trabalhos conquistados em grupo. Sempre vêm… Amo o trabalho dos atores do Grupo Galpão, do Tricicle, do Théâtre  du Soleil, da Familie Floz, da Famille Semianyki… Tantos artistas maravilhosos, mas vamos lá… Posso citar Eve Doe Bruce, Julio Adrião, Andrea Beltrão, Dario Fo, Denise Stokles, Erika Retti, Dani Barros…

Cite um diretor (a) que você admira?
Só um? Ariane Mnouchkine

Um gênero com o qual prefere trabalhar?
Gosto muito de trabalhar com a comicidade através da palhaçaria e formas animadas.

Um profissional com quem tenha mais afinidade para trabalhar no teatro?
Todos os meus grandes parceiros dos grupos e coletivos que faço parte. A Cia. d’Os Bondrés, o Atelier Gravulo e As Comediantes.

Na sua opinião, qual é o maior desafio na carreira de quem trabalha com teatro?
O maior desafio é ter a vocação necessária para não se abater pela carência de incentivos públicos e privados ou pela massificação da arte. Fazer teatro e viver desse ofício é com certeza um ato de resistência! E acredito que essa dificuldade tornar-se ainda maior para a sobrevivência de grupos de teatro e as pesquisas de linguagem.

Se não trabalhasse com teatro, que profissão teria escolhido?
Não existe essa possibilidade. O teatro me deu uma profissão, me deu grandes amigos e parceiros, me possibilitou viagens que eu jamais poderia fazer. Com certeza, o teatro desperta o que há de melhor em mim e me salta dessa difícil arte de viver!

PUBLICIDADE